A arte de transformar hábitos alimentares

A arte de transformar hábitos alimentares

Força e união para crescer em Novo Hamburgo

Amizade e união estão na receita. Imagem: Marcos Massa
O projeto ainda tem muito chão pela frente, e elas comemoram a parceria com alegria! (foto: Marcos Massa)
O projeto ainda tem muito chão pela frente, e elas comemoram a parceria com alegria! (foto: Marcos Massa)

O pensador chinês Confúcio tem uma célebre frase que quase nunca lhe é creditada. Foi ele quem disse que “na maior das adversidades, nascem também oportunidades”. Quem já passou por dificuldades na vida, sabe que a principal ajuda vem de nós mesmos, da nossa vontade de superar e transformar o que é ruim em luta e aprendizado. E, na Associação de Assistência em Oncopediatria (AMO Criança), isso é visto na prática, todos os dias. No brilho dos olhos daquelas mães guerreiras que, unidas, ficam mais fortes e sábias diante de um problema que muita gente ainda teima em considerar tabu: o câncer.

É ali, numa ampla casa de dois andares no bairro Hamburgo Velho, na cidade de Novo Hamburgo, que acontece um dos projetos apoiados pela Dana através da Rede Parceria Social, em parceria com o Governo do Estado do RS e a Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS). O projeto semeia esperança e novas possibilidades para estas mães de crianças e adolescentes que estão passando pelas adversidades que o câncer traz.

Ao chegar na instituição, já nos deparamos com muitos sorrisos, abraços e alegria. Aqui, não tem espaço para a lamentação: só para a ação. Carla Rosana da Silva, Coordenadora Administrativa da AMO Criança, conta que a ideia do espaço é justamente proporcionar alternativas e ajuda para quem não tem condições de lutar sozinha com este problema. O espaço existe há 14 anos, proporcionando o atendimento de todas as necessidades das crianças e adolescentes que chegam até ela com câncer: desde a marcação de exames pelo SUS até o transporte e os muitos cuidados que precisam ser feitos durante os cinco anos de tratamento. Ali, são atendidos pacientes de Novo Hamburgo, São Leopoldo, Campo Bom, Estância Velha e Portão – ao todo, o número chega a 60 pacientes, de 0 a 18 anos, que são atendidos durante todos os cinco anos de tratamento.

A nutricionista Gladys ministra as aulas. Imagem: Marcos Massa
A nutricionista Gladys ministra as aulas.
Imagem: Marcos Massa

Na região do Vale dos Sinos, este é o único local que possui um oncopediatra e, por isso, a demanda de consultas e remédios é muito grande. Também há toda uma preocupação em proporcionar cursos para as mães que, muitas vezes, deixam os empregos para dedicar-se exclusivamente aos filhos durante os cinco anos. “O apego delas com os filhos acaba sendo muito maior, e é muito difícil para elas retomar sua rotina normal passado o período de risco da doença, que são os cinco anos”, relata Carla, “por isso, aqui proporcionamos atividades de culinária, cultura, artesanato, embelezamento e todo tipo de convivência benéfica que possa aumentar a independência delas”.

Além de cuidar de quem cuida, a instituição preocupa-se com a saúde dos pequenos e, como o público é de famílias de baixa renda, a higiene dos alimentos e preparação de pratos saudáveis, com ingredientes que auxiliem na recuperação dos pequenos. As aulas do projeto “A Arte de Transformar Hábitos Alimentares” acontecem semanalmente numa cozinha toda reformada com os recursos do patrocínio. A nutricionista Gladys Fazenda faz questão de procurar textos sobre estes alimentos, que são lidos em voz alta antes de todas as aulas. “A resposta das alunas é a melhor possível, já que elas têm todo o interesse em alimentar-se melhor porque sabem que o exemplo começa nos pais e, na natureza, temos muitas frutas e legumes que auxiliam quem tem este problema”, explica.

Regina, uma das mãe-coragem do projeto Imagem: Marcos Massa
Regina, uma das mãe-coragem do projeto
Imagem: Marcos Massa

Aluna desde maio, Regina dos Santos Oliveira, de 57 anos, emocionou-se ao contar todo o apoio que recebeu da AMO desde que seu filho Vinícios, de 16 anos, foi diagnosticado com câncer – um angiosarcoma no braço direito. “Pessoas da nossa família simplesmente viraram as costas para nós, ainda existe muito preconceito contra a doença, como se fosse contagiosa”, conta, com a voz embargada, “mas amigos me indicaram a AMO e, aqui, fomos recebidos de braços abertos”, lembra ela. A instituição adiantou em meses os exames que ela havia marcado pelo SUS e conseguiu uma cirurgia para o jovem em Barretos (SP), apesar da família morar no Bairro Operário, em Novo Hamburgo. “A cirurgia foi um sucesso, e ele já fez mais de dois anos de quimioterapia – o pior já passou”, diz.

As aulas de culinária foram essenciais para a família e o jovem, inclusive, já frequentou algumas delas porque adora cozinhar. “A alimentação é uma peça-chave na recuperação do paciente, que precisa tomar muita água e comer da forma mais saudável possível, de preferência alimentos integrais e orgânicos”, explica a nutricionista Gladys. Entre as receitas favoritas de Regina, estão o pão integral, o catchup feito com moranga e beterraba e os sucos naturais.

Outra fã das receitas do curso é Maria Cecília da Silva Fernandes, 37 anos, recifense que mora no Rio Grande do Sul há vinte anos.

A doçura de Maria Cecília. Imagem: Marcos Massa
A doçura de Maria Cecília.
Imagem: Marcos Massa

Ela tem duas filhas: Julia, de 6 anos e oito meses; e Ana Beatriz, de cinco anos – a primogênita, portadora de leucemia. “Já conhecia as minhas colegas das salas de espera do hospital mas hoje nossa amizade é mais profunda – o importante é termos alguém para conversar, rir, chorar, dividir os problemas e também as conquistas”, ressalta.

Maria conta que, além de ser um espaço de convivência, a aula ajudou-a a economizar e preparar alimentos muito mais saudáveis para sua família. “Minha filha mais velha tem intolerância à lactose, por isso aproveitei para aprender uma receita de pão de queijo integral que não faz mal para ela, que amou de paixão”, comemora.

Falando em amar de paixão as receitas, a pequena Ana Luiza, de 3 anos, é fã de carteirinha das aulas. Serelepe e alegre, a menina apareceu várias vezes para experimentar os quitutes que a mãe preparava com as colegas durante a aula e já virou mascote da turma. Sua mãe é Ana Paula Santos de Oliveira, de apenas 29 anos, conta que não há maior recompensa que a filha adorar as novas receitas. Isso porque a pequena, que foi diagnosticada com um ano e meio de idade, engordou muito depois da cirurgia de remoção do tumor. “Ela ficou muito tempo com um catéter, e, hoje, nossa prioridade é recuperar o peso normal dela – segundo o médico, o ideal é que ela perca cinco quilos”, relata.

Ana Paula, a jovem lutadora. Imagem: Marcos Massa
Ana Paula, a jovem lutadora.
Imagem: Marcos Massa

Com o semblante de guerreira – visivelmente cansada e com olheiras – a jovem fala cheia de empolgação: “com as receitas que aprendi aqui, ela já começou a perder peso”. A pequena adora saladas diferentes, massas com molhos de legumes e aboliu as frituras e industrializados do cardápio por conta própria. “A vida de hospital não é nada fácil, mas ela já ouviu tantos médicos falando que, esperta, já sabe o que pode comer e o que está fora do cardápio. Ela mesma se policia – e olha que só tem três anos”, diz a mamãe coruja. O maior desejo de Ana Paula, agora, é retomar sua autonomia, voltar a trabalhar e conseguir desapegar um pouco da eterna preocupação com sua única filha. “Com a ajuda da psicóloga e da assistente social e o empurrãozinho das aulas de culinária, tem tudo pra dar certo!”, comemora.

Otimismo também é a marca registrada de Zeni Oliveira da Silva, de 56 anos, viúva mãe de seis filhos – três dos quais ainda moram com ela. O mais novo de todos, Adriano, de 16 anos, foi diagnosticado com câncer no testículo e, além do tumor, teve que enfrentar o preconceito de algumas pessoas menos esclarecidas. “Essa idade já é crítica e eu fiquei muito triste por ver que as pessoas não faziam questão de disfarçar o preconceito”, relembra a mãe. Zeni agradece aos céus ter encontrado a AMO Criança, que lhe deu todo o apoio para que ela pudesse cuidar do seu filho. “As aulas de culinária são uma bênção – meus filhos amam as receitas, e eu adoro estar ocupada, aprendendo algo novo e recebendo todo o apoio”, diz.

A Diretora da AMO Criança não poderia estar mais feliz com o retorno do curso, que prevê a valorização destas mães. “Temos uma filosofia de não só atender as crianças, queremos também cuidar de quem cuida e melhorar a cultura de quem está passando por este período. A ideia é torná-lo mais suportável e incentivar a alimentação saudável e a segurança alimentar em todas estas famílias. Até aqui, estamos sendo bem-sucedidos na tentativa”, comemora. E tem todas as razões do mundo pra celebrar, já que os sorrisos de crianças, adolescentes e mães se acumulam em todos os cantos da ampla casa do bairro Hamburgo Velho, cuidado com um zelo que só pode ser feito por gente que ama o que faz. Porque sabe que faz toda a diferença no mundo.

Sobre a Rede Parceria Social

Todos os projetos patrocinados pela Dana na fase 2012 envolvem Segurança Alimentar, como também nos dois anos anteriores, e acontecem em diversas cidades do RS: Porto Alegre, Novo Hamburgo, Santa Maria, Erechim, Três Palmeiras e São Lourenço “O tema da Segurança Alimentar foi do mantido e é importante ressaltar que estamos alinhados com os objetivos da Rede Parceria Social, que objetiva que, após um ano, as ONGs tenham conhecimento para andar com as próprias pernas”, diz Luis Pedro Ferreira, Diretor de Comunicação Corporativa da Dana.

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