Educando para a Cidadania

Educando para a Cidadania

Em Frederico Westfalen, saberes crescem junto com o pão

Alegrias e esperanças renovadas. Imagem: Marcos Massa

Há mais de dez anos, a ONG Esquina da Solidariedade promove projetos para auxiliar os moradores das vilas Linha 21 e Área Verde do município de Frederico Westfalen, que fica a 450 km de Porto Alegre.

Arildo Crespani, Presidente da Organização Não-Governamental, ressalta que o trabalho nestas vilas iniciou em 1997, quando foi construída uma padaria em cada uma delas, dentro do projeto “Transformar mãos que pedem em mãos que fazem”.

No início de 2009, o projeto foi reforçado pelo apoio da Dana através da Rede Parceria Social, para que as 30 mulheres que fazem parte da padaria tivessem aulas de Segurança no Trabalho e Princípios de Saúde, Mundo do Trabalho, Cidadania, Boas Práticas de Higiene, Matemática Instrumental, Técnicas de Trabalho e Geração de Renda/Cooperativismo, realizados pelo SENAC. Além disso, as cozinhas também passaram por reformas, ganhando novos equipamentos para que ficassem mais modernas e práticas.

Arildo explica que, todo mês, as duas padarias recebem uma doação de uma tonelada de farinha de trigo cada, subsidiada pelo HSBC desde o início do projeto e também pela comunidade do pequeno município, que tem pouco mais de 30 mil habitantes. Este projeto atende mulheres que vivem – e lideram – famílias de baixa renda, em outro estágio de desenvolimento econômico e que, por isso, recebem do projeto a oportunidade de alimentação básica e continuada para si mesmas e suas famílias.

Teresinha: força e garra. Imagem: Marcos Massa
Teresinha: força e garra.
Imagem: Marcos Massa

Teresinha de Jesus mora na Área Verde e nasceu em Frederico Westfalen, na parte rural da cidade. Cresceu trabalhando na roça, onde a família plantava feijão, milho, arroz, mandioca e batata. “Uma das minhas lembranças mais antigas é a de lavar a roupa no rio, depois que voltava da escola, que nem cadeiras tinha – estudei somente até o 4º ano do Ensino Fundamental”, lembra. Teresinha é casada há 20 anos com João Protásio Vieira, com quem teve nove filhos. Trabalhava também como empregada doméstica, enquanto as crianças ficavam em uma creche municipal. “Passamos muita necessidade, mas para mim não existe tristeza. Catei papel para ajudar a criar meus filhos e passei fome para que nunca faltasse a eles o que comer”, relembra, sem um traço de amargura no olhar.

Destes tempos, ficou a certeza de que é uma mulher forte e o aprendizado: ser independente financeiramente e ter conhecimento são duas coisas essenciais. “Participo desde o início do projeto da padaria e vendo meus pães e cucas na vizinhança – já tenho até clientes fixos, que fazem encomendas sempre”, orgulha-se. Hoje, Teresinha afirma que a cozinha está mais funcional, bonita e organizada e que as aulas de empreendedorismo lhe deram boas dicas de como ampliar suas vendas. “Eu tinha dificuldade de entender porque quase não tenho estudo, mas todos foram muito pacientes e as colegas sempre se ajudaram”, relata.

Dona Lurdes: aluna assídua. Imagem: Marcos Massa
Dona Lurdes: aluna assídua.
Imagem: Marcos Massa

Sua colega, Dona Lurdes da Silva, 55 anos, uma das veteranas da turma, concorda. Nascida na cidade de Planalto, também se criou nas lides da roça e, até hoje, é acostumada a acordar às 5h da madrugada. Ela é casada há 40 anos com José Dias da Silva, que trabalha como borracheiro. Ela trabalhou durante muitos anos como empregada doméstica, e o casal tem quatro filhos – para orgulho da mãe, todos eles estudaram até o Ensino Médio. “Eu trabalhava fora, meu marido também, e os filhos mais velhos ajudaram a criar os mais novos. Somos uma família feliz, que conversa bastante, por isso esse esquema foi possível”.

Ela frequenta a ONG Esquina da Solidariedade desde 1997, quando iniciaram os cursos de artesanato e costura, e participa toda a semana da padaria. “Além de pães e cucas, aprendemos receitas de reaproveitamento de alimentos, como geléias que utilizam cascas de mamão, abóbora, laranja, banana e cenoura, por exemplo. Jamais havia ouvido falar sobre este assunto e, para nós, reaproveitar não é só cuidar do meio ambiente – é uma questão econômica muito importante”.

Entre as alunas da Linha 21, a realidade é semelhante. A Linha 21, inicialmente surgiu por desapropriação de um terreno que era a Prefeitura, há mais de dez anos. Hoje, as lonas deram lugar a casas e a padaria é um ponto de referência na vila – Arildo conta que a padaria está aberta 24 horas por dia e que raramente está parada. “Temos muitas histórias aqui em que a mulher é o chefe da família, e elas defendem sua padaria como leoas”, explica. Na Linha 21, são cinco grupos de alunas compostos por dez pessoas cada.

Lúcia: sustento da família. Imagem: Marcos Massa
Lúcia: sustento da família.
Imagem: Marcos Massa

Lúcia de Fátima da Rosa Kovotkovski, de 41 anos, é uma delas. Nasceu em Planalto, trabalhando com os dez irmãos para ajudar os pais, João e Cristina. Ela é casada com Santo há 12 anos, e o casal tem sete filhos. Santo trabalhava na construção civil, mas machucou a coluna enquanto trabalhava e está parado já há dois anos. “Ele se sente mal por estar em casa, gostaria de trabalhar, mas está sendo atendido pelos médicos do posto de saúde que receitaram um remédio fraco demais para sua dor, um Tylenol”, lamenta.

Enquanto isso, Lúcia arregaçou as mangas e participa do projeto da padaria. É aluna das aulas de padaria há um ano e, segundo ela, aprendeu muita coisa nova. “Na nossa educação na roça, quando as moças aprendem a cozinhar ainda crianças, nunca se falou em reaproveitamento de alimentos, em nutrição equilibrada, em fazer geléia aproveitando as cascas da fruta. Aprendi tudo isso aqui”. Ela vende os produtos que faz na padaria para amigos, vizinhos e conhecidos da cidade, e praticamente sustenta a família com isso. Incansável, participa de várias turmas da padaria, porque sabe que daí é que vem seu sustento. “Depois de um ano, já faço as receitas antigas de olhos fechados, mas ainda tem muita coisa nova a se aprender aqui dentro”, justifica.

Maria: alegria contagiante. Imagem: Marcos Massa
Maria: alegria contagiante.
Imagem: Marcos Massa

Se tivesse que escolher a coisa que mais adora na vida, Maria da Conceição Saldanha não pestanejaria: “Aprender! Aprender é a melhor coisa desse mundão!”. Sorridente e comunicativa, trabalhou durante muitos anos como empregada doméstica e é casada há 25 anos com Vilson, que trabalha como pedreiro. Os dois tem cinco filhos – o mais velho tem 25 e a caçula, 12. Um deles, Ronaldo, de 23 anos, é adotado. Maria da Conceição participa das aulas de padaria desde o início do projeto e, por não ter o dinheiro da passagem, às vezes ia caminhando até o centro de Frederico Westfalen, onde aconteciam as aulas antes da inauguração das padarias nos bairros. “Em 2008, a padaria foi construída aqui na vila, e praticamente na frente da minha casa! Isso facilitou muito a minha vida, já que vendo pães e massas para os vizinhos, amigos, conhecidos e até no comércio da cidade durante sete dias da semana, sem parar”.

Isso possibilitou que Maria parasse de trabalhar como doméstica sem deixar de ajudar na renda de casa. “Além do mais, minha autoestima aumentou, porque agora vendo um produto especial, feito por mim, com todo o cuidado e receitas diferentes. Isso, na minha vida, fez toda a diferença e me enche de orgulho”, conclui.

Dona Leonora: exemplo de disposição. Imagem: Marcos Massa
Dona Leonora: exemplo de disposição.
Imagem: Marcos Massa

Sua sogra, Dona Leonora Ponte Tomaz, é uma das alunas mais velhas da turma da Linha 21. Tem 75 anos e energia de sobra – inclusive ela mesma diz que “dá um baile” nas alunas mais novas. Pequena e magrinha, ela se move com agilidade na cozinha e, com seu temperamento calmo, auxilia e ensina as alunas mais novas a fazer as receitas. É casada com Vitor há 50 anos, tem oito filhos, 31 netos e 11 bisnetos, que ela ajuda a criar com alegria e disposição invejáveis. Ela é mais conhecida como “vó” pelas colegas de turma.

O casal morou durante muito tempo na roça, e Dona Leonora levava os filhos mais novos com ela quando ia trabalhar – os mais velhos ficavam de olho nos mais novos. “Somos uma família muito unida porque meus filhos sabem a dificuldade que passamos para criá-los, hoje eles valorizam isso”, conta.

Há quatro anos, sua nora, Maria da Conceição, convidou-a para participar das aulas de padaria – daí, não parou mais. “Uma das minhas paixões sempre foi cozinhar e, aqui, aprendi muitas receitas novas. Além disso, tenho a oportunidade de conviver com pessoas mais novas e aprender com elas, além de ensinar um pouco do que sei”, relata.

Juliana: vontade de aprender. Imagem: Marcos Massa
Juliana: vontade de aprender.
Imagem: Marcos Massa

Que o diga a caçula da turma, Juliana Poncio de Oliveira, de apenas 16 anos. Ela é casada com Joceli, de 18 anos, que trabalha como pedreiro e, sem perspectivas de fazer um curso superior por enquanto, vê na padaria uma chance de ajudar o marido nas despesas da casa. “Por enquanto, ainda estou aprendendo, tudo é novidade para mim, mas em breve pretendo começar a vender entre os vizinhos as receitas que aprendi aqui”. Ela começou o curso incentivada pela tia, Maria da Conceição.

As duas irmãs, Silvana, de 29 anos, e Suzeli Portes da Silva, de 23, participam das aulas do projeto juntas. Nasceram em Frederico Westfalen, filhas de uma dona de casa e um pedreiro. Silvana é casada há dez anos com João Antônio de Oliveira, com quem tem quatro filhos – seu maior orgulho é o fato de todos estarem estudando, coisa que ela não teve chance de fazer. Ela estou até a 4ª série do Ensino Fundamental, depois começou a trabalhar como empregada doméstica para ajudar os pais a criar os irmãos mais novos. “Depois de trabalhar muito tempo como doméstica, encontrei aqui nas aulas uma chance de trabalhar com algo diferente, fazendo receitas novas e cozinhando, coisa que amo fazer”, relata.

Sua irmã, Suzeli, também estudou somente até a 4ª série e está feliz com a perspectiva de continuar no curso da padaria. “Comecei no início de 2009 e vi a cozinha ser toda reformada, modernizada. Hoje, está muito melhor de trabalhar aqui dentro, tanto que ela funciona 24 horas por dia, e sempre tem mulheres para trabalhar, nos três turnos. Aprendi receitas das quais nunca tinha ouvido falar e, em parceria com minha irmã, quero começar a vender o que aprendemos a fazer aqui”, afirma.

Arildo Crespan, coordenador do projeto, afirma que estas declarações vão ao encontro dos objetivos centrais do “Educando para a Cidadania”. “Um dos eixos do projeto era desenvolver o espírito cooperativo e aumentar a autoestima das alunas. Como consequência disso, viria o aumento do seu poder aquisitivo e participação na renda familiar, além da melhora na qualidade do produto e da infraestrutura das padarias. Acho que estamos perto disso”, esclarece.

Sobre a Rede Parceria Social

A Carteira de Projetos da Rede Parceria Social é uma iniciativa conjunta da Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social, organizações sociais e empresas, com objetivo de realizar projetos sociais em todo o Rio Grande do Sul, abrangendo diversas áreas da assistência social e beneficiando centenas de pessoas.

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