Cidadania Positiva

Cidadania Positiva

Uma nova chance de vida para mulheres na Vila Cruzeiro

Mãos de Maria Noelci Teixeira Homero, que luta por uma vida melhor para a comunidade da Vila Cruzeiro. Imagem: Marcos Massa

A Vila Cruzeiro do Sul, considerada a maior vila de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, é um dos maiores focos de risco social da cidade. A renda familiar média é baixa, o abastecimento de água é insuficiente e a maioria das casas não possui instalação sanitária adequada. A situação da maioria das mulheres chefes de família é difícil: a maioria não é alfabetizada e vive em total exclusão social, além de um grande número de mulheres chefes de família soropositivas. E é neste cenário desolador que há 22 anos existe a ONG Maria Mulher – Organização de Mulheres Negras, que luta pelos direitos humanos da população desta vila, principalmente de mulheres afro-descendentes, com foco no combate às discriminações sexuais, raciais e sociais e na capacitação cidadã.

Através de uma pesquisa realizada em 2005, identificaram que a principal causa de impedimento para adesão ao tratamento do HIV é a falta de alimentação adequada e o preconceito. O projeto “Cidadania Positiva” busca alterar este quadro. Poucas mulheres tinham noções de segurança alimentar. A ONG incentiva estas mulheres a aderirem ao tratamento para o HIV e recebem atendimento psicossocial, para que sua autoestima seja aumentada também, além da valorização de sua cidadania ao atuarem como multiplicadoras na comunidade.

Patrocinado pela Dana através da Rede Parceria Social, o “Cidadania Positiva” propõe a criação de um espaço para mulheres viverem e conviverem com pessoas portadoras de HIV, onde se desenvolva ações voltadas para a garantia da segurança alimentar, resgatando e preservando os padrões alimentares. A meta final é a geração de renda através da produção de alimentos.

Berenice luta contra o câncer. Imagem: Marcos Massa
Berenice luta contra o câncer.
Imagem: Marcos Massa

O projeto é coordenado pela nutricionista Luciana Oliveira. Antes de mais nada, o projeto auxilia as mulheres a se reconhecerem e se redescobrirem tanto como cidadãs, como protagonistas, visando o início de uma nova trajetória de vida. “As alunas são muito interessadas, e é uma grande vitória observar a participação e o engajamento delas no projeto, como elas vão perdendo a timidez, se ajudam bastante, todas têm histórias de vida complicadas e, como têm escolaridade baixa ou são analfabetas, me emociona vê-las interessadas em temas complicados como segurança alimentar e empreeendedorismo. O saldo é mais do que positivo”, ressalta Luciana.

São 15 mulheres participando desta turma. Elas recebem orientação sobre economia solidária, segurança alimentar e nutrição, e produzem, em uma cozinha montada dentro da ONG, sanduíches, pizzas e receitas nutritivas e saudáveis para consumo e venda. Elas ainda agem como multiplicadoras na comunidade, levando conceitos de segurança alimentar, nutrição, higiene dos alimentos, e têm aulas teóricas sobre empreendedorismo, auto-gestão, cooperativismo, administração e gerenciamento de negócios. Ainda recebem assessoria técnica para o entendimento de preços para compra e venda, direitos, deveres, limites, hábitos e atitudes do mundo do trabalho.

Uma destas mulheres é Berenice Louzada Rodrigues, de 33 anos, separada, atualmente desempregada. Berenice frequenta as aulas do “Cidadania Positiva” desde o início do projeto. Cria dois filhos, Anderson, de 15 anos, e Pâmela, de 8. Orgulha-se ao contar que os dois filhos estudam na mesma escola e que o “Cidadania Positiva” traz conhecimentos que ela nunca tinha tido. “Eu não conhecia nada sobre nutrição, e as receitas são importantes porque nos ajudam a aproveitar as sobras de comida para fazermos novos produtos. E tudo isso pode ser vendido, para ajudar na renda familiar”, explica. Ela sempre cozinhou, mas agora é que está aprendendo mais sobre higiene dos alimentos, e não falta uma aula sequer – os filhos estudam no turno da manhã, o que facilita suas idas à ONG para as aulas do projeto. “Eles adoram as receitas novas que preparo em casa, e agora pretendo vender os produtos que fazemos aqui para ajudar a dar uma vida melhor para eles”, diz, com seu sorriso tímido.

Lição de vida

Marilene não desanima. Imagem: Marcos Massa
Marilene não desanima.
Imagem: Marcos Massa

Sua colega de curso, Marilene Rocha da Rocha, coloca em prática as receitas que aprende em casa. Soropositiva, tem 26 anos, nasceu em Porto Alegre, em uma família muito humilde, que vivia de catar lixo na rua. Ela trabalha como doméstica e mora na vila Cruzeiro com o marido, Renato, com quem é casada há oito anos e que trabalha como servente.

A sogra e a cunhada também moram com eles, junto dos três filhos de Renato: Felipe, 15 anos, Guilherme, 14 e Fernando, 11. Marilene tem dois filhos – Daniel, de 7 anos, e Leonardo, de 4. ”A vida é uma luta, e é por isso que agradeço por participar das aulas do “Cidadania Positiva”. Aqui, aprendi receitas para ajudar na renda familiar e também conceitos de higiene e nutrição, essenciais para mim”, afirma.

”Enquanto eu tiver forças, quero fazer de tudo para conseguir uma vida melhor pros meus filhos, por isso a ONG Maria Mulher é tão importante pra mim – aqui, encontro apoio para fazer meu tratamento e aprendo sempre coisas novas, que ajudam a melhorar minha condição de vida difícil”.

Raquel e seu sorriso marcante. Imagem: Marcos Massa
Raquel e seu sorriso marcante.
Imagem: Marcos Massa

Sua amiga de curso, Raquel Martins, também é jovem – tem apenas 27 anos – e uma história de vida difícil. Não que isso a impeça de sorrir. Alegre, comunicativa, considera-se uma “guerreira”. Mora na Vila Cruzeiro desde os cinco meses de vida e ali passou a infância com os três irmãos, Israel, 30 anos, Natanael, 26 e o caçula Luis Felipe, 12 anos, de quem cuidou e considera um “irmão-filho”.

Ela faz lanches todos os dias da semana e sai para vender na vila. “Aqui no “Cidadania Positiva” aprendi novas receitas e ainda quero aprender muito mais. Eu me vejo como uma mãe dedicada, trabalhadora, que faz qualquer coisa para ajudar os filhos. E é isso que estou aprendendo aqui com as professoras e colegas”, diz, determinada.

Uma destas colegas que serve como multiplicadora de conhecimentos é Rita Maria de Oliveira, de 34 anos. Há 12 anos casada com o serralheiro André, é mãe de Tayllor, 14 anos (fruto de seu casamento anterior), Thamise, 10 e Ana Andréa, 9. Ela já participou de diversos cursos de culinária porque adora cozinhar e já conhecia os conceitos de segurança alimentar – Rita trabalha na Associação de Moradores do Jardim Europa há dois anos e lá também aprendeu muita coisa. “Sinto que a troca de conhecimentos aqui no “Cidadania Positiva” é muito grande, posso trazer experiências que adquiri antes, porque admiro o trabalho que a ONG faz pela comunidade, que conheço tão bem. As pessoas querem mais receber do que dar, e nosso papel é divulgar mais estes cursos e palestras, fazer com que a comunidade se engaje”, esclarece.

Rita, a multiplicadora Imagem: Marcos Massa
Rita, a multiplicadora
Imagem: Marcos Massa

Rita nasceu numa família bem-estruturada em Porto Alegre, filha de Hélcio e Eva, e tem nove irmãos. “Éramos uma família humilde, e procuro ensinar aos meus filhos o que aprendi em casa, a dar valor às coisas que temos”. Os filhos estudam à tarde. Tayllor cursa a 5ª série do Ensino Fundamental, Thamise está na 4ª e Ana, na 3ª. “O Tayllor não gosta muito de estudar e está naquela fase difícil de autoafirmação da adolescência. Ele é briguento, mas mostro pra ele que precisa mudar, porque passa por outras vilas para chegar até a escola, e alguns de seus colegas são filhos de traficantes que não têm nada a perder. Ele tinha entrado num ‘bonde’ (como são chamadas as gangues de briga), mas fiz ele sair. Mostro os meninos que ficam na frente da nossa casa traficando, para mostrar que sempre tem alguém passando por uma situação pior que a nossa”.

Nessa semana ele começa as aulas no projeto “Menor Aprendiz” e está indo para a psicóloga. “Eu tento cuidar dos meus filhos para que valorizem o amor que recebem e também os bens materiais, que eu não podia ter quando era criança”. Enquanto isso, Rita segue participando das aulas do “Cidadania Positiva”, onde aplica seus conhecimentos sobre higiene e reaproveitamento de alimentos e também incentiva as colegas a participarem de feiras para vender seus produtos.

Noelci, uma salvadora de vidas. Imagem: Marcos Massa
Noelci, uma salvadora de vidas.
Imagem: Marcos Massa

Como explica Maria Noelci Teixeira Homero, Diretora Executiva da ONG Maria Mulher, mais conhecida como ”Nô”, o resultado do projeto “Cidadania Positiva” é muito satisfatório. “O objetivo do projeto é oferecer às mulheres que vivem e convivem com HIV a oportunidade de geração de trabalho e renda, e também saber mais e refletir sobre os direitos humanos à alimentação adequada, para que possam atuar como multiplicadoras, modificando a qualidade de suas de vidas e da comunidade”, explica.

Sobre a Rede Parceria Social

A Carteira de Projetos da Rede Parceria Social é uma iniciativa conjunta da Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social, organizações sociais e empresas, com objetivo de realizar projetos sociais em todo o Rio Grande do Sul, abrangendo diversas áreas da assistência social e beneficiando centenas de pessoas.

 

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