Telmo Iran

Alves de Oliveira

Ao todo, foram 30 anos de trabalho dentro da Dana, uma empresa que ele sempre amou – tanto que chamava-a de “primeira casa”, não de segunda. Desde seu primeiro dia como colaborador, aos 19 anos, Telmo orgulha-se de ter se dedicado com todo o coração para a empresa.

Ele iniciou a carreira na Albarus, em Porto Alegre, quando era apenas um rapazote de 19 anos, cursando o SENAI e cheio de sonhos. Ele já tinha trabalhado na Metalúrgica Wallig durante 4 anos e, na ânsia de novos desafios, saiu para buscar uma nova oportunidade. “Meu pai trabalhou 40 anos na Wallig, e eu resolvi sair porque era jovem, queria outras coisas da vida – mas isso acabou abrindo as portas para que eu fosse para a Albarus”, explica. O vizinho Nelson Mallmann trabalhava na Albarus e convidaria o jovem Telmo para ir para a empresa, dizendo que era uma empresa boa de se trabalhar.

Resultado: no dia 24 de outubro de 1960, Telmo foi contratado como Ajustador na Albarus. Uma curiosidade: dois anos depois, seu irmão, Luiz Carlos Alves de Oliveira, também entraria na empresa, mas como eletricista. “Na época, o Luiz tava trabalhando num banco e não estava feliz – eu falei com o ‘Zé Faísca’ quando soube da vaga de eletricista e indiquei o Luiz, que era um baita profissional dessa área. Não era algo bem-visto na empresa duas pessoas da mesma família trabalharem lá, mas na entrevista e testes, o Luiz se destacou, então o vínculo familiar foi colocado em segundo plano”, relata Telmo.

Deste início, Telmo recorda que a empresa era ainda pequena e o maquinário era bastante antigo. Ele conta que as novas máquinas eram criadas dentro da Albarus, mesmo – na maioria das vezes, por Wolff Zwick (já falecido). “Ele era um super profissional – um cara durão, mas um autodidata, determinado a entregar sempre o melhor para a empresa”, afirma.

Até 1971, Telmo ficaria na Ajustagem de Máquinas, na Manutenção. “Lembro muito desta turma com quem eu trabalhava nos primeiros anos: o Helmuth Baumgarten, o Enir, o Byron Matissek, o engenheiro Martins… Jogávamos muito futebol e pingue-pongue nas horas de folga, entre os colegas… Era uma diversão sadia”, recorda. Telmo chegou a trabalhar com Ricardo Bruno Albarus e Haroldo Dreux, também. “O seu Bruno era mais austero, o Haroldo, mais suave – lembro que, durante um Carnaval, ele passou pela fábrica e viu todo mundo meio abatido trabalhando… Não pensou duas vezes e mandou todo mundo pra casa. Foi a única tarde de folga no Carnaval que tive em todos meus anos de empresa”, ri Telmo.

Ainda falando em Carnaval, Telmo lembra que, certa feita, chegou atrasado em um dia de trabalho no Carnaval. Claro que seus colegas pensaram que tinha ficado fazendo festa. “É que o Coreto ficava bem na frente da minha casa, e quase não dormi aquela noite porque a banda tocou a noite toda e o pessoal fez festa demais, uma barulheira só!”, relata, “O Édison Serres, que era meu vizinho e hoje também é um dos jubilados, foi me defender e disse o que aconteceu de verdade – ainda bem!”, ri Telmo.

Mas uma mudança grande estava para acontecer: a terceirização de serviços. E com ela, alguns setores da mecânica, como o ajuste de máquinas, seriam feitos fora da empresa. Junto com mais oito colegas, em 20 de outubro de 1971, Telmo foi demitido. “Achei que isso nunca ia acontecer, porque era um albariano de verdade – mas saí no dia 20 e, já no dia 22, estava empregado em outro lugar”, recorda. No futebol que jogava no final de tarde no Sindicato dos Metalúrgicos, comentou que havia saído da Albarus e, prontamente, um parceiro de futebol o chamou para atuar como ajustador na Metalúrgica Rosa (que, aliás, ficava atrás da Albarus). Depois, ainda iria para a Friotec, onde trabalharia como Encarregado.

Mas o coração albariano falou mais alto quando recebeu uma carta de Ennio Moura Valle, na época Diretor de Relações Industriais, perguntando se Telmo não teria vontade de voltar a Albarus. “Isso aconteceu porque o Moura Valle perguntou ao meu irmão Luiz como eu andava, e o Luiz, muito sincero, falou que eu estaria melhor se estivesse na Albarus. Ele, então, decidiu me chamar para voltar a empresa”, relata. Telmo comenta que nunca esqueceu disso – como este ato de Moura Valle influenciou sua vida de forma significativa – e também ressaltou o forte caráter humano do diretor. “Esse era um cara muito humano. Muito mesmo. Além de ser um profissional de ponta, ele era muito especial”, afirmou.

O albariano de carteirinha recebeu a carta e a notícia com uma alegria imensa e, logo, estaria dentro da Albarus outra vez. “Foi paixão à primeira vista, sempre tive um apego muito grande pela empresa e pelos colegas que tinha deixado lá – fiquei muito, mas muito feliz por voltar”, diz. Foi como uma volta pra casa, depois de quase um ano fora da Albarus.

Telmo diz que muita coisa tinha mudado na fábrica, ainda mais porque a empresa estava vivendo um período de franca expansão. “Voltei para trabalhar na mecânica de manutenção da Forjaria e, na época, usávamos aquelas prensas a martelo, que ajudei a montar”, afirma. Logo de cara, encontraria um desafio: as novas prensas a martelo, com tecnologia pneumática, estavam tendo bastante problemas operacionais. Máquina parada era problema na certa, e Telmo foi escalado para ajudar a resolver isso. “Descobri que, dentro dos êmbolos, havia anéis que quebravam logo – ficavam quinze dias trabalhando e quebravam. Chamei o Gastão Bangel, nosso desenhista, para que ele me ajudasse a desenhar a solução, e propus a fabricação desta peça em nylon. Este novo anel durou um ano sem ter que parar a máquina”, comemora. Uma grande vitória, que partiu de uma solução simples e também do trabalho em equipe.

Outro caso pitoresco: “Em 1978, lembro que estávamos na praia, eu e o Luiz Carlos, e houve um problema com umas Recalcadoras… A primeira opção foi chamar três técnicos de São Paulo, mas eles não conseguiram resolver. Resultado? Apareceram em Cidreira (praia do litoral do Rio Grande do Sul), para nos buscar”, lembra, aos risos. “Ainda bem que resolvemos em duas horas e pudemos voltar para a praia. Mas, pra gente, não tinha tempo ruim, vestimos a camiseta da Albarus com gosto e muita alegria”, recorda.

Ainda na década de 70, Telmo seria promovido a Encarregado de Manutenção. “Meu irmão Luiz Carlos era meu chefe nessa época, e indicou eu e mais 5 colegas para fazermos os testes, inclusive psicotécnicos com a Dra. Dora. Nesse teste, tirei o primeiro lugar – e, em 74, assumi como Encarregado”. Ele e outro colega foram aprovados para Encarregados da Manutenção – havia vaga para o primeiro e segundo turnos – e Telmo pediu para ser contratado no segundo turno. “Queria provar que estava ali por meus méritos, e queria aprender muito. Depois das 18h, ficava só eu e o gerente da fábrica, então eu podia me debruçar sobre os projetos, resolver problemas sozinho, ganhar experiência”, explica. Ficaria por mais de um ano atuando no segundo turno. Em 75, Telmo foi promovido a Contramestre e, em 79, a Mestre Geral da Manutenção, responsável por uma equipe de vinte pessoas, ao todo.

Com orgulho, Telmo mostra as fotos das festas que promovia para sua equipe da Manutenção em Gravataí, já nos anos 80. “Todos os anos fazíamos isso, a equipe da Forjaria era muito unida!”. Dentre os feitos desta turma, ele recorda da instalação do maquinário da Forjaria quando a fábrica mudou-se para Gravataí, no começo da década de 80. Capitaneados pelo engenheiro Marcelino Perlott, a equipe da Manutenção trabalhamos para transportar e instalar as prensas e máquinas da Forjaria. “Poderia ser a hora que fosse, me chamavam quando havia algum problema nas máquinas”, recorda.

No final da década de 80, Telmo teve um problema em uma corda vocal, e foi aconselhado pelo médico a não trabalhar mais na Forjaria – e recebeu uma oportunidade como comprador técnico, trabalhando na equipe de Jorge Alberto Wallau. Telmo se aposentou em 1987, atuando no Compras. “De primeira, eu estranhei bastante. Foi um grande desafio, aprendi muito nessa época. Eu era um homem de fábrica, a mudança foi grande mas muito proveitosa”, recorda. Ficou nesta posição até se aposentar em 1990.

Ao olhar pra trás, Telmo se sente feliz. “Foi uma trajetória muito boa, só tenho a agradecer. Os albarianos eram muito unidos, estávamos sempre ajudando uns aos outros. Se alguém tinha um problema para resolver na manutenção e não estava conseguindo, logo aparecia um colega para auxiliar. Era natural, nem precisava pedir”, conclui.

Hoje, sua grande alegria é ficar junto da esposa Rosa, com quem está casado há 50 anos, e teve as filhas Cláudia e Clarice. Hoje, adora curtir os netos Rainer, de 26 anos, Richard, de 23, e Tereza Luiza, de 8 anos, o xodó da casa. Ela passa as manhãs na casa do vô todos os dias. Telmo ainda frequenta a academia e gosta muito de viajar com a família, especialmente para a praia, onde eles têm uma casa. Sempre que possível, vai aos encontros dos Jubilados em Gravataí para rever os amigos.

perfilzito

“Trabalhar na Albarus foi uma experiência espetacular – hoje, uma lembrança muito boa que carrego comigo. Sempre tive excelentes colegas, éramos muito unidos e amigos, nossa maior missão era ajudarmos uns aos outros”.

Telmo Iran Alves de Oliveira