Maria Lígia

Streit

Enfermagem é uma profissão de fé. Durante os vinte e sete anos em que atuou na Dana, Maria Lígia Streit cuidou dos colaboradores com dedicação e retidão, duas características que a acompanham até hoje. De personalidade marcante, a enfermeira deixou sua marca na história de nossa empresa, especialmente por manter a ética acima de qualquer coisa.

Ela começou sua trajetória na então Albarus em 1975, depois de uma portaria do Ministério do Trabalho determinou que todas as empresas deveriam ter equipes de medicina montadas dentro de suas dependências, para atender os funcionários, caso fosse necessário.

Lígia era uma jovem moça que saiu do interior de Taquara, município que fica a 60 quilômetros de Porto Alegre, que cursou o Auxiliar de Enfermagem na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, como interna e estagiando dentro da instituição. Depois da Santa Casa, ela atuou no Hospital Conceição e, durante seis anos, na Souza Cruz, onde teve sua primeira vivência de uma enfermaria de empresa. A Albarus publicou um anúncio no jornal que chamou a atenção da jovem enfermeira e marcaria os seus próximos 27 anos de vida, que passaria atuando na empresa.

Como era uma cultura que ainda não existia nas empresas, Lígia relembra que não foi fácil o início desta trajetória. “Lembro que alguns operadores perguntavam se era realmente necessário usar equipamentos de segurança individual (os famosos EPI’s), foi preciso ir mudando essa cultura gradativamente, era muito difícil dos funcionários aceitarem”, diz. Num dos cursos que Lígia fez, voltado para enfermagem do trabalho, ela lembra que essa era uma mensagem muito passada: a mudança gradativa de cultura. “Não adianta chegar querendo mudar tudo: tu não vais ser aceito”, pondera.

Quando ela começou sua carreira na empresa, os familiares dos colaboradores também eram atendidos no que necessitassem pelo ambulatório da empresa. E, claro, isso rendeu muitas histórias também. “Uma vez, a esposa de um funcionário precisava fazer um exame. Uma das preparações para o exame era ficar três dias sem manter relações com o marido. Eu ficava envergonhada de falar nessas coisas com eles, ainda mais usando os termos chulos que eles usavam para isso. E eles usavam estes termos por desconhecimento de outros, apenas. Pois bem. O funcionário veio me pedir orientações porque não entendeu o que era ‘manter relações’. Expliquei a ele que, quando fosse dormir, ficasse num canto da cama e a esposa, no outro. Esse homem ficou num vermelhão que nem te conto…”, lembra Lígia, sorrindo.

Quando estava na Albarus há três meses, um executivo pediu que ela marcasse uma consulta para ele em um médico de Porto Alegre – uma consulta de rotina, diga-se de passagem, não de emergência. Ele tinha secretária, e Lígia recusou-se. “Se eu não podia marcar para os operários da fábrica, que nem sabiam mexer no telefone, porque marcaria para ele?”. O caso foi parar na Gerência de Relações Industriais, mas ela defendeu seu ponto de vista até o fim. “Eu era abusada”, ri ela. O veto final: ela seguia empregada na enfermaria – e ainda ganhou 10% de aumento. “Aos poucos, as coisas foram mudando”, diz, “com o tempo, foram instalados orelhões dentro da empresa para que os funcionários marcassem seus exames e de seus familiares, quando necessário – mas eles mesmos faziam isso, nossa missão era outra”, diz.

Lígia ainda fala que, para ela, foi notório como as coisas foram modificando dentro da empresa para que o colaborador fosse a figura central da Albarus. “Os cursos que foram promovidos pela Segurança Industrial foram modificando essa cultura antiga”, diz.

O Departamento Médico da Albarus foi terceirizado em 1993, e Lígia ficaria seis meses afastada da empresa para depois retornar à unidade de Cachoeirinha da empresa, onde ficaria durante mais um ano – e mais nove anos em Porto Alegre. “Foi outro desafio para mim, porque ninguém sabia que seria terceirizado. Ainda era a Racine, de início, e alguns funcionários ainda eram atendidos na Albarus de Porto Alegre. Foi uma luta, porque não funcionava bem a enfermaria lá”, relata. Ela conta que um funcionário sempre aparecia, todos os dias, para “tomar café” no setor. “Fiz questão de cortar o café por lá. Uma vez, ele veio medir a pressão e queria passar na frente de todas as pessoas que aguardavam sua vez. Disse a ele que só seria o caso se fosse alguma urgência”, diz.

Foi com essa postura firme, germânica, que Lígia deixou sua marca na empresa. Tanto carinho e atenção com as pessoas rendem, até hoje: não são raros os casos de gente que para ela na rua para conversar. “Ás vezes, confesso que demoro para reconhecer. Esses dias, eu estava entrando numa loja na Assis Brasil e alguém disse, encostando em mim: ‘tu podes medir a minha pressão?’ – claro que eu disse que não podia! A pessoa disse: ‘Lígia, tu não conheces mais a gente?’. Aí, nos abraçamos e ficamos conversando”, ri ela. Alguns colegas ficaram mais próximos dela: Silvia Maria Rodrigues, Édison Serres (falecido), Diogo Haro e, ao olhar para trás, ela diz que o sentimento é um só: gratidão. “Sinto gratidão por conhecer tantas pessoas, pelo que conquistei trabalhando essa empresa, pelas amizades que eu fiz… E todo o conhecimento que adquiri dentro desta empresa. Comprei meu apartamento trabalhando lá”, conclui.

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“Lembro que alguns operadores perguntavam se era realmente necessário usar equipamentos de segurança individual (os famosos EPI’s), foi preciso ir mudando essa cultura gradativamente, era muito difícil dos funcionários aceitarem. Não adianta chegar querendo mudar tudo: tu não vais ser aceito”.

Maria Ligia Streit