José Domingos

Miotti

José Domingos Miotti passou 40 anos de sua vida trabalhando na Dana – de 1959 a 1999 – e outros 10 como prestador de serviços na empresa. Nestas 5 décadas, ficou conhecido como o nome por trás da construção de várias fábricas da Dana e também como um grande colaborador, para quem a expressão “não posso fazer isso” nunca existiu.

Entre as obras orquestradas por Miotti estão a Divisão de Cruzetas (antiga DCR), inaugurada em 1979 e o primeiro edifício fabril da Dana em Gravataí, a fábrica de elastômeros, a fábrica de anéis, a fábrica de eixos pesados de Gravataí e Cachoeirinha, e o Projeto Dakota em Campo Largo (PR). Também atuou em outras tantas reformas e adaptações, como a do prédio Administrativo, em Gravataí.

Essa longa história iniciou em 7 de janeiro de 1959 – Miotti havia casado com Hercília em dezembro de 1958 (os dois estão juntos até hoje), e morava em Ouro Verde, um distrito de Cambará do Sul. Um amigo de Miotti, Conrado Dalponte, saíra de Ouro Verde para trabalhar na Albarus, em Porto Alegre. Estava feita a conexão. “Ele veio para Porto Alegre trabalhar e era Encarregado de Produção, mas se ressentia da falta de alguma mão-de-obra que ajudasse na preparação das máquinas na fábrica de retífica de capas, cruzetas e mancais. Ele foi passar um final de ano lá em Ouro Verde e nos convenceu de que precisávamos vir a Porto Alegre”, diz ele. Dias depois, Miotti pegou carona com um time de futebol que havia ido jogar na cidade e chegou na Albarus no dia 29 de dezembro. Seu teste na empresa durou três dias – ele já trabalhava com manutenção de fábrica e também tinha curso do SENAI – “mas ainda era incipiente como profissional”, diz ele – e acabou sendo aprovado.

Logo, ele mudou-se para Porto Alegre, enquanto a esposa Hercília ainda esperaria dois meses para vir para a cidade. Miotti conta que, além dele, o único veterano que havia na fábrica nessa época era Byron Matissek, já falecido. “A fábrica estava ainda em instalação, não tinha os departamentos todos – almoxarifado, manutenção, os escritórios eram ainda na parte antiga da construção, era um ‘ajuntamento’”, lembra ele. Ele conta que a fábrica, nesta época, estava preocupada em produzir peças – a forjaria, a estamparia, o tratamento térmico, a usinagem, a retífica… Isso tudo funcionava, mas ainda se havia muito por fazer. “Nessa época, a Albarus estava se mudando da Paraíba, do Centro da cidade, para a Joaquim Silveira, que era ainda de chão batido. Não era fácil para os caminhões que faziam a coleta e entrega da produção. Foi uma fase de muito trabalho”, conta.

Miotti afirma que lembra que, nesta época, começou uma grande demanda das montadoras, que começaram a visitar a Albarus para inspecionar o produto que queriam comprar. “A Ford foi a primeira que foi nos inspecionar e pedir amostras de cardans, e o Benedito Santoro (futuro colega) era um dos inspetores da Ford que foi monitorar nossa produção”, conta.

Nesta primeira etapa da carreira, ele era Contramestre e sua função principal era auxiliar o trabalho de Conrado Dalponte – cargo que ocupou até a saída do amigo da empresa, em 1964. Com a nova configuração, Miotti foi promovido a Mestre, sua ocupação ate 1970. “Foi um tempo de trabalho extremo, a indústria estava a todo vapor e precisávamos substituir a importação de autopeças o mais rápido possível”, relata.

Ele lembra que, antes disso, Ennio Moura Valle entrou na Albarus e começou a modificar a área de Recursos Humanos, trazendo inclusive duas psicólogas para a empresa, Dora e Maria Helena. “A função delas era promover um aprimoramento da mão de obra, melhorar a capacitação do pessoal de fábrica. Eu estava sempre fazendo os cursos promovidos pela Albarus, e elas vieram falar comigo… Disseram que eu deveria fazer faculdade, se minha vontade era crescer na companhia”, diz. Assim, Miotti era o novo aluno da Engenharia de Produção da Pontifícia Universidade Católica, com a mesma dedicação que foi sua marca registrada na Albarus, e se formou 4 anos depois.

Na época da sua formatura, Miotti já cuidava de toda a fábrica: a retífica, a usinagem, o tratamento térmico… E, logo, viria a primeira viagem aos Estados Unidos. Em 75, ele viajou com os colegas Valmor Santos e Darci Ramin (já falecido), para ficarem 40 dias visitando as fábricas de componentes de cardan da Indiana e Pensilvânia. “A viagem foi para conhecermos o processo melhor e trazer soluções para nossas fábricas daqui. Eles tinham processos definidos, metodologias, e um vasto parque industrial, mas menos liberdade para trabalhar do que nós”, relata Miotti.

Em 1977, já de volta ao Brasil, ele foi promovido por Levi Brum (já falecido) a Gerente de Manufatura de Gravataí. “Trabalhei subordinado a ele quando chefe da produção durante dois anos, era uma belíssima pessoa, e era o Diretor de Manufatura nessa época”, conta. Ele foi promovido no final de uma Hell Week daquele ano – as reuniões em que se apresentavam os resultados  e planos – e, apesar de ter ido apenas para saber como era, ao final das apresentações, Levi entregou um organograma em que Miotti figurava como Gerente de Manufatura, para sua grande alegria. “Depois disso, um ônibus nos levou até Gravataí para conhecermos um terreno onde se construiria a nova fábrica”, conta. Os 36 hectares de terra estavam sendo terraplanados, e Miotti registrou tudo em fotografias – Slavko Rozmann estava fazendo estudos arquitetônicos e a obra logo começaria.

Em 1978, Miotti foi deslocado para Gravataí para fazer a transferência da fábrica de cruzetas para lá. Paulo Regner era o Diretor do Complexo de Gravataí e seria o novo chefe de Miotti, que ainda cuidava da fábrica de Porto Alegre também. “Eu controlava a instalação da água, energia, planejamento da mudança, cronogramas de produção e ainda fazia estoque para não interromper o fornecimento das montadoras durante a mudança”, relata. Foi um dos projetos mais icônicos da carreira de Miotti e até hoje, ele é lembrado como ums dos que ajudou a cordenar a operação de troca da fábrica – com todo o trabalho e problemas que isso acarretaria.

Depois desta etapa, a companhia já tinha outros planos para ele: a administração da fábrica de Eixos Diferenciais, em São Paulo, que ele assumiu em 1980. “Levi Brum ficou administrando toda a Divisão de Gravataí, e Jorge Sangineto me avisou que meu próximo destino seria trabalhar como gerente em São Paulo”, relatou. Miotti lembra que ficava 15 dias em São Paulo, e voltava para ver a família, que estava toda em Porto Alegre. “Não tinha isso de ‘dizer não’: era muito amor à camiseta. A Albarus era assim, e criou isso por causa de suas lideranças, homens de princípios definidos como Zeca Bohrer, que era rígido, mas um chefe muito humano, ao mesmo tempo”, explica.

Miotti lembra que um de seus grandes esforços foi para criar um clima de companheirismo dentro da fábrica, que ficava na Avenida de Pinedo, na capital paulista. “Eu procurava ser um gerente de divisão que estava sempre dentro da fábrica, interagindo com as pessoas. O produto que fabricávamos era muito sofisticado, com acabamento especial, e tivemos muito trabalho até a operação crescer e atingir sucesso”, relata. Miotti acabou se mudando com a família para São Paulo, e administrou a fábrica por 5 anos, sob o comando de Sidney Del Gaudio. Em 1982, ele viajou aos Estados Unidos novamente, para aprender mais sobre eixos diferenciais, e visitou diversas fábricas do produto durante 2 meses; e também fazer alguns cursos na Dana University. Ainda esteve durante mais 20 dias no México para trabalhar – mas a família viajou a tiracolo, aplainando a saudade.

No seu retorno, já de volta ao Sul, Miotti foi designado para cuidar da fábrica de embreagens e da Divisão de Mecânica Avançada (DEMEC), em meados de 85. Ficou neste cargo até 1988, quando assumiu um grande desafio: o projeto de ajudar a erguer a fábrica de anéis de pistão em Gravataí. “E lá fui eu aos Estados Unidos novamente, para ficar 3 meses aprendendo tudo sobre a fabricação deste produto. Foi a fábrica mais difícil de construir – o produto era diferente, o prédio era diferente, tudo era muito novo e extremamente desafiador”, afirma. E, como se não bastasse, o produto ainda encontrava um concorrente no Brasil que detinha quase o monopólio do mercado de anéis. Em 1988, Miotti começou a buscar subsídios para a construção desta nova fábrica, e ela seria inaugurada três anos depois, em 91.

Em 1993, Jader Hilzendeger assumiu a fábrica de anéis, após anos sendo o braço direito de Miotti. Isso porque, antes disso, Hugo Ferreira chegou à sala de Miotti na fábrica de anéis e abriu um desenho enorme na mesa, diante dele. “Era um desenho que devia ter uns 10 metros e mostrava um chassis, que é um elemento estrutural. Ferreira disse, então, que eu deveria ir para a Pensilvânia aprender tudo sobre a fabricação deste novo produto. E lá fui eu, novamente…”, ri Miotti. Depois disso, Miotti ainda foi para o Kentucky e para o Tennessee, onde ficou durante 15 dias. Na volta, redigiu um relatório grande para Ferreira, e a missão estava cumprida.

Quando voltou ao Brasil, em maio de 93, descobriu que a gerência da Divisão de Juntas Homocinéticas havia decidido instalar sua Forjaria de Precisão em Charqueadas. O gerente era Paulo Regner, que designou Miotti para cuidar da obra de construção do novo prédio. “O terreno era um banhado tão grande que ficamos 3 meses drenando aquele pedaço de terra. Nunca esqueço que cheguei lá, e vi um trator afundado naquelas terras – eram 16 hectares de banhado mesmo”, ri ele.

Depois desta drenagem, foi possível fazer as fundações profundas que suportariam as prensas de grande capacidade da forjaria, mais os escritórios, almoxarifado, portaria, recepção, refeitório, vestiário… Além das redes de água e energia para a fábrica. Em janeiro de 95, a fábrica foi inaugurada, com um discurso emocionado de Paulo Regner e a presença do então governador do Rio Grande do Sul, Antônio Britto. Miotti ficou durante mais 6 meses em Charqueadas para terminar a Estação de Tratamento de Efluentes e o prédio da Usinagem de Eixos.

Logo, sua nova missão já estava definida: em Gravataí, Miotti foi escalado para ajudar Gilberto Ceratti na administração de toda a fábrica. “Eu estava fazendo isto há 3 meses, quando Paulo Nunes me avisou que a Dana estava fazendo um investimento com a Chrysler e que ia começar a fabricar a picape Dodge Dakota no Paraná”, lembra. A Chrysler, então, seria instalada em Campo Largo e a Dana foi escolhida como a fornecedora de um subconjunto da caminhonete – o chassis já montado. O contrato com a Chrysler previa a construção de uma fábrica da Dana em Campo Largo. E quem mais adequado – e experiente – que Miotti para construir uma fábrica do zero? Ele foi uma escolha quase intuitiva da empresa.

Então, em 1996, recomeçaria a vida dele na estrada: Miotti ia para Campo Largo na segunda-feira e voltava na sexta para ficar com a família. “A equipe era a seguinte: eu cuidava da construção da fábrica; Diogo Rossi, da Logística, enquanto Raul Germany ficou responsável pelo produto”, diz. Miotti começou a busca pelo terreno da fábrica e, depois, licenciamento ambiental e todos os trâmites burocráticos. Tudo isso em um ano – em fevereiro de 1997, o escritório para a construção já estava funcionando e, em agosto, a obra começou. Em 8 de julho de 1998, a fábrica foi inaugurada oficialmente. “Foi mais um grande orgulho para a carreira. Mas não tive tempo de descansar: quando estava fechando minha conta no hotel, no mesmo dia em que a fábrica foi inaugurada, o Paulo Granja me falou que havia sido designado como encarregado da fábrica de eixos fora-de-estrada, em Gravataí, e eu seria a pessoa para ajudar na construção da nova fábrica”, diz Miotti.

Oito dias depois, ele já estava embarcando com Marco Berti, para a Itália, a fim de conhecer as fábricas de eixos fora-de-estrada da Dana que ficavam lá; depois, iriam para a Inglaterra, para a Bélgica e para os Estados Unidos, pelo mesmo motivo. Na volta ao Brasil, Miotti começou a obra na fábrica de Cachoeirinha, que já tinha uma boa estrutura devido à fábrica de hidráulica que ficava ali. A nova fábrica foi inaugurada em 1999. Poucos meses depois, a fábrica de hidráulica de Cachoeirinha seria vendida para a Parker.

Miotti conta que o então presidente da Dana para Veículos Pesados, Nick Cole, decidiu que a fábrica de eixos fora-de-estrada seria, então, transferida para Gravataí, e que ele seria responsável pela mudança. “Construímos um pedaço da fábrica e usamos outro da Matrizaria, que estava subutilizado, e rapidamente erguemos esta fábrica nova, gastando muito pouco”, relata. Em 2001, a nova fábrica de eixos fora-de-estrada já seria inaugurada.

Quando terminou o projeto de Campo Largo, Miotti aposentou-se como funcionário e montou a Miotti e Brina Projetos e Planejamento e seguiu prestando serviços para a empresa por mais 10 anos, que incluíram todo este trabalho com as fábricas de eixos fora-de-estrada e também uma grande reforma no prédio administrativo da fábrica de Gravataí.

Miotti, hoje, mora em Garopaba (SC), acompanhado da esposa Hercília, companheira de toda sua trajetória como albariano – eles são casados desde 1958. É pai de Bernardete, Márcia e Úrsula, e avô de Vanessa e Valesca. Hoje, ele gosta de cuidar da casa – ainda gosta de trabalhar com obras de melhoria, sua grande paixão – e cuidar de todos os bichos que o cercam – ao todo, são 8 cachorros e 4 gatos, todos resgatados da rua.

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“Não tinha isso de ‘dizer não’: era muito amor à camiseta. A Albarus era assim, e criou isso por causa de suas lideranças, homens de princípios definidos como Zeca Bohrer, que era rígido, mas um chefe muito humano, ao mesmo tempo.”

José Domingos Miotti