José

Losada

Recém-aposentado da Dana, o engenheiro continua a prestar serviços para a empresa e sente enorme orgulho de fazer parte dos grandes saltos de qualidade conquistados durante as últimas três décadas.

José Losada é um contador de histórias. Cada caso narrado sobre sua trajetória profissional vem recheado de episódios engraçados, situações inusitadas ou fatos melancólicos. “Sou um saudosista”, entrega. Para ele, não dá para falar sobre a Dana sem citar as pessoas com as quais conviveu e admirou ao longo de seus 26 anos de casa. A lista de homenageados é grande e começa por quem o colocou em contato com a empresa pela primeira vez, em 1982: o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e também diretor da Dana, Paulo Nelson Regner. “Em uma época em que praticamente não existia intercâmbio entre as universidades e as empresas privadas, o Regner nos tirou da sala de aula para mostrar como a teoria funcionava na prática. Sempre foi uma mente visionária”, ressalta.

Da rápida visita ao turno da noite até ser contratado como estagiário de engenharia foi um pulo. Ficou um ano na função e ao término do contrato não foi efetivado por conta da crise econômica vivida pelo país. Foi trabalhar, então, na Aço Finos Piratini, siderúrgica hoje pertencente ao grupo Gerdau. Apesar da distância física, Losada manteve contato estreito com os antigos colegas, seja profissionalmente, já que Piratini era fornecedora da Albarus, ou socialmente, ao participar sempre que possível dos encontros e viagens do grupo. Seu concunhado e grande amigo Volnei Dalmas, funcionário da empresa, também trazia notícias frescas durante os churrascos em família nos finais de semana.

O vínculo rendeu vários convites para retornar à companhia. O primeiro foi em 1988, feito pelo gerente da qualidade Edgar Bertinger, mas o engenheiro vivia uma boa fase profissional e declinou. Dois anos depois, o Gilberto Ceratti, gerente da Piratini, foi contratado pela antiga Albarus e pediu ao profissional para engrossar seu time. Novamente o aceno chegou em um momento inoportuno e o namoro a distância se prolongou por mais quatro anos até que, em 1994, Losada rendeu-se aos apelos dos executivos e iniciou sua longa carreira na divisão da Albarus Transmissões Homocinéticas, em Porto Alegre. O Brasil ainda engatinhava em termos de qualidade, mas a empresa já despontava em relação ao mercado. “A fábrica tinha uma equipe fantástica comandada pelo diretor presidente Paulo Regner juntamente com outros profissionais com os quais tive a felicidade de interagir, como o diretor de qualidade Paulo Cirne Lima, o Ceratti , o Juarez Costa , o Gustavo Borges , o Azir , o Getulio e muitos outros. A gente trabalhava com conceitos extremamente inovadores, como Lean Manufacturing, gerenciamento de gargalo, 5S e TPM . O piso da produção era branco e havia altos investimentos em automação”, conta.

Desde momento em que ingressou na Dana até sua saída em abril de 2019, uma palavra esteve sempre presente na vida de Losada: qualidade. “Comecei como Auditor da Qualidade, depois fui promovido a Gerente de Qualidade e Gerente Qualidade Mercosul . Minha vida profissional foi construída nessa área e é onde transito com a maior segurança.” Acompanhar o nascimento de novos processos de trabalho tem suas vantagens, além do aprendizado é possível acumular muitos reconhecimentos. No inventário de suas memórias, Losada registra a conquista ISO 9000, em 1994, como uma grande vitória porque a certificação era extremamente inovadora para a época. “Apesar da tensão envolvendo os preparativos para a certificação, foi um período especial, principalmente porque conseguimos mobilizar os profissionais dos três turnos e implantar diversos processos de melhorias com ótimos resultados em termos de produtividade”, diz.

A ISO foi um marco na trajetória da empresa e intensificou os investimentos em qualidade. Na mesma época da certificação, a empresa implantou o programa Rumo ao Século XXI, com diversas metas de qualidade a serem cumpridas até o ano 2000, incluindo certificações importantes, como a QS-9000, exclusiva para área automobilística, conquistada em 1997.

Para expandir o programa de qualidade em outras unidades, Losada foi transferido, em 1996, para a fábrica de Gravataí, na mesma época em que a empresa consolidava a marca Dana junto ao mercado e clientes. Ele classifica esse período como a primeira grande transformação da empresa, comandada pelos executivos carinhosamente chamados como pioneiros. “Foram os profissionais que começaram a implantar os conceitos de qualidade americanos na nossa produção, como o Paulo Regner, o Gilberto Ceratti, seguindo uma história de sucesso já estabelecida pelo Hugo Ferreira e outros pioneiros.”

Nesta época também ocorreu a transferência das linhas de montagem de cardans em Sorocaba (SP), para o Sul do país. Na mudança, Losada fez questão de destacar três funcionários essenciais para o funcionamento da operação em solo gaúcho: o Geraldo Pereira Nunes, o João de Jesus e o Atairantes.“Eles conheciam tudo da fábrica, não tinha como colocar a linha em funcionamento sem a ajuda deles”, comenta. Um dia que não sai da lembrança do gerente foi quando uma empilhadeira derrubou várias caixas de peças no almoxarifado, misturando tudo. “Jogar fora não fazia o menor sentido, separar e classificar cada uma iria demorar dias. Aí os três apareceram no setor, começaram a mexer nas peças e repartir os itens. Os caras sabiam de cabeça o número de referência de cada uma e arrumaram tudo rapidinho”, diverte-se.

Com um time de primeira, a unidade de Gravataí não tardou a apresentar bons resultados. O primeiro deles foi a conquista da novíssima ISO 14.000, em 1999. “Fomos a quinta empresa brasileira a obter a certificação e este ano estamos comemorando 20 anos da aquisição deste certificado. Hoje é um requisito mandatório, mas naquela época foi algo realmente inovador.” Outro destaque foi o Prêmio Nacional de Qualidade, recebido em 2003, marcando um período de oito anos consecutivos de crescimento e lucratividade, um feito histórico, principalmente pelas diversas crises econômicas ocorridas durante o período. Losada atribui a conquista a uma gestão de excelência, conduzida por pessoas como o Gilberto Ceratti , Jader Hilzendeger , Harro Burmann, Julio Oliveira e Carmen Piccini. Prêmios e reconhecimentos de clientes também marcaram esta época, onde o foco no cliente sempre foi um valor importante para a Dana. Do longo aprendizado na área de relacionamento com os clientes, Losada destaca a colaboração do mestre Benedito Santoro, que facilitou seu acesso às montadoras contribuindo para a solução de problemas mesmo diante de situação tensas.

Além das certificações padrão, a Dana criava seus próprios projetos de qualidade e investia pesado no treinamento dos funcionários. Dois programas são extremamente relevantes, seja pelo caráter inovador seja pelo seu trabalho como instrutor. O primeiro é o Dana Quality Lidership Process, que avaliava a saúde da gestão da empresa e o outro é o Agentes da Melhoria conduzido pela Carmen Piccini. O mérito de ambos é não apenas a qualificação técnica, mas aportar também uma mudança comportamental. “Com o DQLP desenvolvemos um programa de produtividade, baseado no prêmio Malcolm Baldridge, muito famoso nos Estados Unidos e que serviu de base para os critérios do Prêmio Nacional da Qualidade no Brasil nos anos 90 e 2000. Foi uma fase muito produtiva onde conseguimos implantar mudanças em termos de qualidade, que deram sustentação para o crescimento e a solidificação da marca no país.”

As andanças de Losada pelas fábricas da Dana estavam apenas começando. No período de 1997 a 2001, Losada dividiu seu tempo entre a unidade de Gravataí e a fábrica da Dana na Argentina. “Tinha dia que eu começava a trabalhar no Brasil, na hora do almoço pegada o avião para Buenos Aires e terminava o expediente na fábrica Loma Hermosa”, lembra. Também registrou passagens pelas fábricas de Osasco, em São Paulo, e Campo Largo, no Paraná.

Em 2003, com o processo de produção de cardans totalmente azeitado, a Dana percebeu que a logística de enviar as peças para as montadoras localizadas primordialmente no eixo São Paulo-Rio-Paraná não era produtiva e resolveu retornar a linha para Sorocaba. Encarregado pela transferência, Losada ganhou uma missão adicional: levar a esposa Angêla e a filha Larissa para uma cidade totalmente desconhecida. “Sou muito determinado e tomo decisões rapidamente. Vim para Sorocaba, comprei uma casa e em três meses já estávamos morando aqui onde estamos até hoje”, constata. O gaúcho não teve problemas de adaptação em terras paulistas, já que conhecia grande parte dos funcionários e também contou com o suporte de uma equipe vinda de Gravataí. “O Marcio Oliveira, o Juliano Lima e o Edgar Martins também foram transferidos para Sorocaba onde, longe de casa, formamos uma grande família”, explica. Já a família levou um tempo extra para se habituar ao novo estilo de vida.

Com a fábrica de Sorocaba funcionando a pleno vapor, Losada foi designado para ajudar a produção da unidade de Diadema, que enfrentava alguns problemas técnicos e de qualidade. “Numa noite o presidente da Dana na região, Harro Burmann, ligou pedindo para eu ver o que estava acontecendo por lá. Fui um dia, depois outro e assim se passaram 30 meses até que eu pedi para voltar”, recorda.

De volta a Sorocaba, Losada viveu a segunda revolução da Dana, com a chegada do presidente Mike Burns, que trouxe importantes conceitos de qualidade usados nos Estados Unidos e na General Motors, em 2006. O programa ganhou maior projeção com as melhorias incorporadas pelo presidente sucessor, Garry Convis, que implantou o Dana Operational System (DOS), baseado no estilo Toyota de produção. “Ele participou do projeto NUMMI, a primeira joint venture entre a General Motors e a Toyota, e promoveu uma verdadeira troca cultural, incorporando conceitos americanos e japoneses ao nosso jeito brasileiro de trabalhar. Um período muito rico em termos de aprendizado.”

Perto de sua aposentadoria, Losada soube do interesse do Diretor de Engenharia e Qualidade Cezar Montenegro e do Diretor de Recursos Humanos Paulo Cesar em continuar a prestar serviços para a Dana. Não deixou a proposta esfriar e rapidamente, abriu sua empresa. “Foi muito engraçado porque eu estava fazendo a minha rescisão no sindicato e o pessoal me ligando para esclarecer dúvidas”, conta. Seus planos para futuro incluem continuar atuando como consultor para a Dana, porém num ritmo mais leve. “Quero finalmente priorizar a minha família, me dedicar a um trabalho voluntário que ainda não decidi o que vai ser e viajar”, completa. Colecionador de objetos e carros antigos, como um Opala 70 e uma Variant 71, além de máquinas fotográficas e rádios, Losada guarda com carinho um logo da Dana esculpido em madeira feito para a visita do então presidente Woody Morcott. A peça resgatada do lixo ganhou um pedestal feito à mão e é guardada com muito carinho pelo engenheiro.

 

Capa

“Quando comecei na Dana a fábrica já adotava conceitos extremamente inovadores para a época, como o Lean Manufacturing, gerenciamento de gargalo, 5S e TPM. O interessante da área de qualidade é que a gente nunca para de aprender e implantar melhorias.”