Francisco

de Assis D’Ávila

Seu nome, durante muitos anos, foi sinônimo de “Dana” dentro da Mercedes-Benz e ele tem papel fundamental na conquista deste cliente para a empresa. Durante 36 anos, Chico D’Ávila dedicou-se incansavelmente para o crescimento da Albarus e depois da Dana e fala que para ele, a empresa era uma verdadeira família.

Essa história começa em 1965, quando Franciso D´Avila, o Chico, se mudou de Passo Fundo para Porto Alegre para estudar na Escola Técnica Parobé. “Naquele tempo, escola técnica e universidade no interior do Estado era “mosca branca” – não havia!”, ri ele. Em março de 1968, soube por um colega, Gastão Bangel, que no dia anterior uma turma de 7 colegas havia ido até a Albarus para fazer um teste para a posição de desenhista. Gastão lhe perguntou se não queria ir também – ele já trabalhava na empresa. “Gastão disse para eu ir até lá e procurar por ele para fazer o teste. Cheguei lá no outro dia, e o Erni Koppe não estava – ele era supervisor da Engenharia – o Gastão me apresentou ao Edgar Albarus que me autorizou a fazer o teste”, relembra. Dois dias depois, ele foi chamado. “Na época, o Erni ficou meio preocupado porque não estava no dia do teste, mas fui chamado mesmo assim”, ri ele.

Assim, em 28 de março de 1968, Chico começava sua trajetória como desenhista na então Albarus, que passava por um período de grande expansão devido ao crescimento da indústria automobilística no país. Ele não tinha experiência com desenho mecânico, somente com desenho de engenharia civil, mas desenho é algo já estava no sangue: sua mãe era pintora, sua irmã é arquiteta, e o irmão trabalhava com projeto de edificações. Chico permaneceu neste cargo, como desenhista, até o final de 1969, quando casou com Iara, com quem segue até hoje. Dos seus tempos de desenhista na Engenharia de Produto, ele lembra de um feito importante. “Fizemos a introdução da numeração dos produtos – o produto Spicer era diferente do produto Albarus, e precisamos adaptar a numeração dos produtos Spicer para a numeração Albarus. Eu trabalhei na implantação de todos os nossos desenhos – nisso, fiquei até o final de 1969 ”, relata.
Chico ressalta que, quando ele começou na Engenharia, havia mais do que uma equipe – havia uma família naquele setor. “O setor era composto pelo José Miotti, o Erni Koppe, o Gastão Bangel, o João Carlos Esquivel, o Hermes Linck, o José Nobre, o Edgar Albarus, o Slavko Rozmann, o Martim Aranha, o Altamiro e eu… Em principio, uma vez por mês se fazia churrasco na casa de alguém, e eu acabei sendo o churrasqueiro da turma. É uma família que continua até hoje, firme e forte. Acompanhamos o crescimento dos filhos uns dos outros e criamos um vínculo muito forte”, conta.

Logo depois de casar, Chico recebeu uma mensagem da Petrobrás – em 1967, ele havia feito um concurso na petrolífera e estava sendo chamado dois anos depois. “Fui pra Canoas e voltei para a Albarus para avisar meus chefes que iria sair da empresa. Como eu era o único que trabalhava com nanquim (um tipo de tinta, usado nas canetas especiais de desenho), havia conhecido muito bem o Ennio Moura do Valle: ele era o responsável pelo setor financeiro e administrativo na época, e sempre precisava de ajuda na hora de montar suas lâminas de apresentação para suas viagens para a Dana nos Estados Unidos. Eu desenhava as lâminas para ele, os gráficos todos, e ele fazia slides daquilo. Ficamos muito amigos por conta disso. Quando soube que sairia para ir trabalhar na Petrobrás, ele pediu para falar comigo”, lembra. Ennio, então, disse para Chico que o pessoal havia pedido a ele que “segurasse” o desenhista na Albarus. “Ele me disse, então, que não existia esta possibilidade, que aquele era um novo horizonte se abrindo para mim – ele já havia trabalhado na Petrobrás – mas ressaltou que as portas da Albarus estariam sempre abertas para mim”, relata.

Chico foi, mas voltou dois anos e meio depois, em junho de 1972. “Um pouco antes disso, apareceu o Erni Koppe lá em casa, para nos visitar. Ele me falou que a Albarus estava crescendo, e que iria construir uma fábrica de juntas homocinéticas ( que acabou desenhando o primeiro lay-out da divisõa que seria conhecida como ATH, Albarus Transmissões Homocinéticas, a pedido do Edgar Albarus) em Porto Alegre e uma fábrica de eixos em São Paulo, e eles estavam procurando os “albarianos” que estavam fora da empresa para saber se teriam interesse em voltar”, diz. Chico foi fazer uma visita na Albarus e acabou voltando para a empresa. “Eu trabalhava na Petrobrás em turnos, e queria fazer faculdade de engenharia, o que seria impossível com estes horários. A possibilidade de cursar engenharia me atraiu de volta à empresa”, conta. Em 6 de junho de 1972, Chico voltava à Albarus, de onde só sairia aposentado.

Chico voltou como Analista de Produto e Processo dentro da Engenharia, onde ficaria até 1980. “Em 78, a Albarus fechou uma uma parceria com a Walterscheid ara cardans agrícolas, e o Erni Koppe foi cuidar deste novo projeto. Fui promovido a chefe da Engenharia de Produto – fiz a faculdade de Engenharia Mecânica durante este período, também e me formei em 79, pela Pontifícia Universidade Católica – PUC”, relata.

Em junho de 1980, Paulo Regner e Marcelino Perlott convidaram Chico para assumir a manufatura da fábrica de Sorocaba. A montagem de cardans recém havia sido transferida de São Paulo para Sorocaba. “A fábrica foi construída em uma fazenda que virou o distrito industrial e foi comprada pela Dana. Nessa época, tinha só o alambrado na parte da frente, e no resto uma cerca de arame farpado. Eu aceitei o desafio mesmo assim”, diz.

Quando Chico chegou em Sorocaba, também estava já envolvido com a transferência da linha de montagem de cardans industriais e agrícolas de Gravataí para Sorocaba e mudou-se para um hotel. “Eu cheguei lá, tinha meia dúzia de paulistas, que tinham experiência, e o resto dos operadores era novato, todos de Sorocaba. Naquele tempo, haviam apenas cinco ou seis fábricas no Distrito Industrial da cidade, eles não tinham muito treinamento em industria”, conta. Com o tempo e trabalho Chico, junto e o time oriundo da fabrica de São Paulo conseguiram montar uma boa equipe para a nova fábrica. Até o final de 81, Chico ficou em Sorocaba, tocando a nova fábrica. Para ele, a experiência, apesar de difícil, foi recompensadora e representou um grande desafio. “Tivemos que trabalhar muito para treinar os operadores, foi um desafio, mas todo o esforço valeu à pena”.

Foi quando Paulo Regner lhe avisou que a empresa tinha outro desafio em mente para Chico: a área Comercial. “Fui trabalhar com Vendas do mercado original, respondendo para o Sidney Del Gaudio, que eu já conhecia dos meus tempos de engenharia. Como eu conhecia muito bem sobre o produto cardan, avaliamos que seria um bom movimento de carreira trabalhar com Vendas mercado original, baseado na fábrica do bairro Santo Amaro em São Paulo”, afirma.

Chico cuidaria dos clientes de menor porte, espalhados por todo o Brasil. “Perambulei por todo esse país. Tínhamos uma representação de cardans pesados da linha GWB, andei do Chuí até o Amapá, … visitamos fábricas de máquinas de todos os tipos. Isso me deu muita experiência”, diz.

Em 1987, surgiu um projeto que seria uma de suas marcas registradas na Dana: o da Mercedes Benz. O projeto era de veículos leves e Vitor Pinto Vieira o designou para cuidar da conta da Mercedes dentro da Dana, no que dizia respeito à engenharia e depois os temas comerciais. “Apesar de ter sido um projeto muito trabalhoso, sempre acreditei que daria certo. Numa reunião de Mid-Year (revisão do plano anual e resultados), apresentei esse projeto de cardans Spicer para veículos leves da Mercedes e o Zeca Bohrer me disse que não acreditava que fosse dar certo, porque já haviam tentado isso no passado, sem sucesso. Hoje, entendo que ele falou isso para justamente incitar este desafio em mim. Funcionou”, ri ele.

Chico conta com orgulho que a empreitada acabou dando certo, culminando com a Dana obtendo o reconhecimento do Prêmio Interação da Mercedes Benz pela primeira vez em 1993. Ele relata que em 86, em outra reunião de Mid-Year, Hugo Ferreira comentou que a Dana teria que “mercedar”, já que esse era o cliente que não tinha 100% de fornecimento de cardans. “Ele cunhou o termo e fiquei com isso na cabeça”, ri ele. Depois, a Dana entraria nos cardans médios da Mercedes, e a empresa ganharia o segundo Prêmio Interação em 1996. No final de 1998, os cardans pesados da Dana conquistaram a Mercedes, e o sucesso da parceria estava selado com o terceiro Prêmio Interação em 1998, e praticamente 100% do fornecimento de cardans.

Depois destes 18 anos morando em São Paulo, Chico manifestou a vontade de voltar para o Sul. “Tentei voltar duas vezes antes, mas o Ferreira “não queria” que eu deixasse de atender a Mercedes – era uma conquista importante demais para ser colocada em risco”, diz. Em 1997, quando Hugo Ferreira foi transferido para os Estados Unidos, o Paulo Regner assumiu Gravatai, Gilberto Ceratti assumiu a fábrica de cardans de Gravataí e convidou Chico para voltar. Paulo Loureiro assumiu, então, a conta da Mercedes, mesmo estando em Gravataí – ele viajava para São Paulo para atender o cliente.
Na volta para Gravataí, Chico passou a cuidar do Mercado de Reposição, fazia todo o contato com o time de Vendas em São Paulo e também dava apoio ao pessoal que atendia a Mercedes-Benz. “Afinal, foram 11 anos de Mercedes e eu tinha muito vínculo lá dentro, conhecia muitas pessoas. Em 1998, Ferreira voltou dos Estados Unidos e disse que Chico só havia voltado para Gravataí porque ele estava fora do Brasil e que a Mercedes não era só cardans. “Falei pra ele que agora era tarde demais”, brinca Chico.

Até 2006, a Dana em Gravataí foi a casa de Chico, que seguiu fazendo o meio-de-campo entre a engenharia e a reposição, além de cuidar do desenvolvimento de fornecedores de componentes para reposição e da montagem de cardans industrias em Caxias com terceiros. Mas ele sabia que era chegada a hora de se aposentar – e não quis continuar prestando serviços. “Eu falei que, quando fosse parar, era de verdade, e assim foi”, diz.

Para Chico, o que ficou de toda essa vivência foi um forte vínculo afetivo e memórias de muito trabalho e luta. “Um das razões dos nossos grandes sucessos foi essa grande família que nós éramos. Era um diferencial nosso”, relata. Hoje, ele divide-se entre a praia de Itapema em Santa Catarina e a praia de Peruíbe em São Paulo, onde tem residências, para ficar perto dos filhos Letícia e Leandro, e dos cinco netos Fernanda, Alessandra, Gabriel, Felipe e Elza. E, claro, aproveita a companhia de Iara, sua esposa que acompanhou suas mudanças pela Albarus, depois Dana, com tanta boa vontade e parceria. Seus hobbys são andar de bicicleta, caminhar na praia e usar a Internet.

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“Um dos nossos grandes sucessos foi essa grande família que éramos. Era um diferencial nosso.”

Francisco de Assis D'Ávila