Erni Carlos

Koppe

48 anos de dedicação à mesma empresa é coisa para poucos – Erni Koppe trilhou essa trajetória, que iniciou no dia 30 de dezembro de 1960, em Porto Alegre.

Recém-saído da Varig, onde trabalhava como mecânico de manutenção de aeronaves lembra claramente de um fato curioso do seu primeiro dia na Albarus: era véspera de ano novo e, mesmo assim, ele fez cinco horas de “serão” – hoje, mais conhecido como ‘hora extra’.  Erni completaria uma careira de 44 anos como funcionário da empresa e mais quatro como consultor, prestando serviços.

Nessa época, a fábrica da Albarus ficava na Joaquim Silveira, 557 e ele lembra que a rua era ainda de chão batido, sem asfalto – os colaboradores tinham dois pares de sapatos – um na fábrica, outro pra andar na rua. “Quando eu entrei na empresa, nem havia a divisão por células – o garfo, flange, luva não eram linhas divididas e separadas, tudo ficava junto. As peças também não eram ordenadas por numeração de série e produto, tudo era embrionário”, recorda. Até 1963, ele trabalhou no Departamento de Qualidade, reportando-se para o engenheiro Raimundo Castro, gerente de Qualidade, e para Carlos Arndt, gerente geral; e então surgiu uma grande oportunidade em sua vida: um estágio na Alemanha, através de um amigo que também embarcaria para a Europa.

Fazer o pedido de licença para a diretoria da Albarus não seria fácil, mas deu tão certo que ele foi liberado por dois anos da empresa, para aprender alemão que depois seria importante em suas atividades futuras na Albarus. Feliz e cheio de expectativa, deixava sua esposa, Renilda e filho Júnior, no Brasil, e embarcava com estudantes brasileiros, uruguaios, chilenos, todos a convite do Governo da República Federal da Alemanha. A família embarcou seis meses depois. Foram dois anos de escola técnica mais dois anos de estágio dentro da Mercedes Benz. Sua primeira tarefa na Mercedes? Varrer o pavilhão da fábrica…  Depois de muito trabalho, voltaria ao Brasil “cheio de vontade para trabalhar”, como lembra ele. A direção da Albarus tinha mudado nesta época e, ao ser anunciado de volta, José Carlos Bohrer disse: “agora tens que ir para a engenharia”.

De posse da prancheta e da régua de cálculo, estava realocado dentro da empresa. E havia muito o que ser feito – era hora de modernizar a fábrica e construir máquinas dentro da Albarus. “O time era composto por Slavko Rozman, Edgar Albarus, e por mim, responsáveis por melhorar os processos, fazer com que as máquinas compradas de fornecedores externos funcionassem perfeitamente, como esperado – e fomos ganhando espaço aos poucos. Algumas máquinas funcionam exatamente como nessa época, até hoje”, relata.

Logo foi designado para trabalhar em um projeto especial da empresa, que havia sido escolhida para fornecer a junta homocinética do Passat. Ele lembra que, naquele verão escaldante de 1969, passou alguns finais de semana na casa de Edgar para desenvolver o projeto – como iria ser a fabricação, em que máquina as peças seriam produzidas… Um verdadeiro desafio profissional, mas deu tudo certo.

Tão certo que a empresa sugeriu que ele fizesse a faculdade de engenharia no Brasil, já que o diploma do curso que tirou na Alemanha não tinha validade em nosso país. E lá foi Erni prestar vestibular de inverno da PUC do Rio Grande do Sul. Já trabalhando na engenharia, estava em São Paulo quando soube, através de um jornal que chegara no malote vindo do Sul, que havia sido aprovado. Os colegas de Porto Alegre já tinham feito até apostas mas, no final, foi uma festa só! “Meu maior problema eram as faltas. Eu trabalhava em projetos importantes e tinha que cuidar muito para não repetir por causa dessas faltas”, recorda. Ele relembra até que, na hora de entregar a monografia, diversos colegas da empresa ajudaram-no na missão – “Dona Hélia (Cadore, Secretária na Diretoria) datilografou, Chico D’Ávila e Esquivel, Nobre e Gastão também me ajudaram nos layouts para o trabalho, todos feitos à nanquim, só para citar alguns nomes”, conta. Em 1976, após muito trabalho (e algumas tantas faltas), veio a formatura.

Logo, seria a hora de uma outra mudança importante – a transferência da fábrica de Porto Alegre para Gravataí, que representaria a única chance da empresa crescer. Na época, Erni passou a reportar para Hugo Ferreira e foi designado para projetos importantes, como os do Opala e do Chevette.

Após esta primeira fase como chefe de engenharia já trabalhando em Gravataí, houve uma reorganização da empresa e decidiu-se que ele atuaria fazendo a exportação de OEM. Outro desafio – mas Erni tinha a vantagem e conhecer muito sobre os produtos. “Passei a cuidar da exportação de Cardans, Diferenciais, Elastômeros e Embreagens – nunca tinha trabalhado em vendas, e logo comecei a viajar sem parar, correr o mundo, reportando ao Paulo Regner. Eu tive vários passaportes diferentes”. Ficava dois, três meses fora de casa. No primeiro ano, a venda de originais (OEM) ficou com Erni, e a Reposição com Trombelli (já falecido), em Santo Amaro. Os dois venderam, em 1981, U$ 11 milhões e 200 mil de dólares em um ano – a meta era de 8 milhões. “O telex era a única forma de comunicação desta época – lembro deste número chegando através do telex da dona Hélia, em 1983, um marco!”, recorda.

Em 1982, dividiram os mercados em regiões, e Erni passou a ser responsável pelas vendas para clientes OEM e Reposição na Europa, o diretor responsável de Exportação era Vitor Vieira. Nessa época, foi criado a equipe do GOI – Grupo de Operações Internacionais, composto por sete gerentes. “Todos nós começamos a ‘girar’ na empresa, fazíamos de tudo . Um dia, estava num cliente em Birmingham, já em 83, e pediram que eu fosse visitar a Spicer Driveshaft UK., operação de cardans no Reino Unido, em North Hampton, na Inglaterra.  O gerente de produção e qualidade foi me buscar no hotel e, logo, já estavamos solucionando um problema num Terminal de lá, que estava causando devoluções da Renault. Resolvemos os problemas e… me convidaram para trabalhar com eles na Inglaterra”. Num mês, 28.500 Cardans foram entregues para o mesmo cliente. Em setembro de 83, já havia fixado residência na Europa, na Alemanha, mais precisamente – em seguida, a família o acompanharia. Mas não seria o fim da sua vida “nômade” – ele recorda que, nesta época, fez 92 voos no período de seis meses. “Ao todo, contando minhas mudanças todas dentro da Dana, fiquei 23 anos fora do Brasil”. Mas seu período mais longo distante do Brasil ainda estava por vir.

Em 1984, voltou ao país e dois anos depois, foi designado para ir para a Alemanha novamente. Desta vez, ficariam 14 anos no país. Nesta época, fez a interface com a Mercedes, e começou a criar outras oportunidades de negócio do mercado – especialmente o de Cardans. “Todo o equipamento comprado de 1968 para cá era de primeira linha. Já tínhamos linhas de extrema produtividade, tínhamos a noção de que o maior ativo da empresa era o tempo rápido de fabricação de peças com qualidade”, esclarece. As mudanças nessa época foram tantas que, primeiro, Erni reportava para Paulo Regner, em 82 para Vitor Vieira, depois para depois para Sidnei Del Gaudio, depois para Paulo Nunes, depois voltou novamente para o Regner…

E, já de volta ao Brasil, Erni decidiu que era o momento para se aposentar. E o fez – no dia 1 de julho de 2005 – mas permaneceu como consultor até agosto de 2008. Depois de 44 anos e meio como colaborador, conclui: “A Albarus foi uma grande escola. Eu chorei, ao me despedir da empresa – antes de ir embora, passei por todos os setores com um aperto no peito e chorei pra mim mesmo. Lembrei de toda aquela equipe que transformou essa empresa… E foi criado esse espírito de equipe. Era uma empresa que premiava a integridade do funcionário, e isso vale demais”.

Erni participa sempre que possível dos encontros trimestrais do grupo de Jubilados.

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“A Albarus foi uma grande escola. Eu chorei, ao me despedir da empresa – antes de ir embora, passei por todos os setores com um aperto no peito e chorei pra mim mesmo. Lembrei de toda aquela equipe que transformou essa empresa… E foi criado esse espírito de equipe. Era uma empresa que premiava a integridade do funcionário, e isso vale demais”

Erni Carlos Koppe