Belmiro

Formis

Belmiro lembra com carinho dos bons tempos em que trabalhava como operador da forjaria, profissão que aprendeu na juventude e exerceu até a aposentadoria.

Logo no começo da entrevista, Belmiro Formis exibe orgulhoso um recorte de revista onde aparece à frente de um enorme forno. O antigo anúncio de uma das maiores forjarias do país, adquirida pela Dana em 2017, não tem data de veiculação, mas revela o quanto o processo de produção industrial mudou ao longo dos anos. É o próprio Belmiro quem chama a atenção para os detalhes. “Na década de 1960, os equipamentos de proteção eram bem diferentes, a gente usava apenas um avental e luvas curtas. Depois as empresas foram aprimorando os cuidados com os funcionários e incorporando novos itens de segurança dentro da fábrica. É a história da evolução da indústria no Brasil”, conta.

Belmiro começou a trabalhar cedo. Aos 15 anos, já dava expediente em uma fábrica de porcelana e aos 18 anos, mais precisamente no dia 2 de junho de 1961, entrou na forjaria na função de ajudante, separando o material a ser moldado. Logo depois passou a fazer a lubrificação das matrizes e aproveitou o tempo passado ao lado das máquinas para observar as tarefas do operador. Não demorou muito tempo para ser promovido e recorda com carinho que a primeira peça que fez foi um virabrequim para a Willys. “Naquela época não tinha treinamento, a gente aprendia olhando ou com as pessoas nos ensinando a mexer no forno, corrigir defeito da peça, o posicionamento correto do material em cima da gravação, como evitar as dobras”, observa Belmiro.

Foi no cargo de operador de máquina que Belmiro passou a maior parte dos seus 22 anos na empresa. Trabalhava em três turnos diferentes, que mudavam a cada semana. “O turno da manhã era das 5h às 13h30. À tarde, eu entrava às 13h30 e saía às 22h e à noite das 22h às 5h. Eu gostava mais do turno da noite porque a temperatura era mais baixa e a gente ganhava o adicional noturno”, diz. O difícil da constante mudança de horários era adequar o sono e os compromissos sociais. Belmiro destaca que perdeu muita festa de aniversário e casamento por conta do trabalho. Mesmo que desse tempo de dar uma passadinha, não ia. Comenta que sua atividade exigia muita concentração e responsabilidade. “No domingo quando eu pegava o turno da noite, procurava nem conversar com as pessoas depois do almoço para não ficar agitado”, lembra.

 

Tanta dedicação não passou em branco. Belmiro diz que era considerado o melhor operador da forjaria, tinha salário alto, compatível com ferramenteiro da matrizaria, e quando quis sair da empresa para trabalhar em uma fábrica de máquinas de costura a chefia não deixou. “Pediram para eu ficar e eu aceitei. Naqueles tempos não era difícil arrumar emprego, não tinha testes, você chegava na empresa e era contratado na hora. Sabia que eu podia sair qualquer hora”. Mas a mudança de emprego nunca aconteceu. Belmiro aposentou-se bem cedo, aos 40 anos. “Era moço, forte e eles me ofereceram uma vaga de encarregado na unidade de Campinas, mas não queria viajar todos os dias”.

O novo cargo iria demandar mais tempo longe da família, principalmente por conta da viagem entre uma cidade e outra. Acostumado a ir ao trabalho de bicicleta, Belmiro achou que era hora de parar. Depois de três anos parado e cansado na monotonia, resolveu voltar a ativa. Dessa vez em uma forjaria em São Paulo. Ficou lá por dois anos, mas a crise econômica da década de 1980 o fez ser dispensado.

Decidiu que era hora de desfrutar um pouco das benesses da vida. Casado com a Mary há 50 anos, pai do Clayton e da Claudine, e avô da Amanda, Sofia, Davi, Ana Beatriz e Guilherme, Belmiro, hoje aos 76 anos, Belmiro tem uma vida bem regrada ao lado da família. Só não dispensa seus para passeios quase diários de bicicleta e a visita semanal ao clube para fazer sauna e ir na piscina. Ali encontra amigos e joga conversa fora. “Se não for assim, a gente só vê as pessoas no supermercado e em velório. No clube é bem mais agradável”, brinca.

DSCN1722
“Na década de 1960, os equipamentos de proteção eram bem diferentes, a gente usava apenas um avental e luvas curtas. Depois as empresas foram aprimorando os cuidados com os funcionários e incorporando novos itens de segurança dentro da fábrica. É a história da evolução da indústria no Brasil”