Comer bem sem gastar muito

Comer bem sem gastar muito

Transformação de vidas em Caxias do Sul

Alegria e companheirismo. Imagem: Marcos Massa

A Associação Criança Feliz existe desde 1995 e beneficia cerca de 500 crianças, adolescentes e seus familiares residentes no Bairro Fátima Baixo, em Caxias do Sul (RS). A cidade que fica na região da Serra Gaúcha, distante 125 quilômetros de Porto Alegre, é bastante industrializada, com crescimento da região periférica, composta por famílias de baixa renda. O gerente da Associação, Délcio Agliardi, conta que ela atende não só pessoas do bairro Baixo Fátima, mas pessoas oriundas de mais 12 bairros da cidade. “Nossa Associação atende uma população socialmente vulnerável de 12 bairros da área norte da cidade e, em nossas cozinhas, são produzidas quatro refeições ao dia – pensamos, então, em oferecer capacitação para quem manipula os alimentos aqui e também para as mulheres que tivessem interesse no curso”, explica Délcio.

Surgia então a ideia do projeto “Comer bem sem gastar muito”, que visa traçar as bases de um processo educativo permanente, destinado a fazer do ato de produzir, preparar o alimento e de alimentar-se uma cultura promotora de saúde, bem-estar, qualidade de vida, geração de renda, cidadania e desenvolvimento com sustentabilidade, beneficiando as comunidades vulneráveis socialmente.

A Associação, um primor de organização e cuidado, segue as regras do PGQP – Programa Gaúcho da Qualidade e Produtividade e tem implantados conceitos comuns em empresas, como o 5 Ss. Com uma circulação média de 500 pessoas por dia, o local recebe crianças e jovens de seis até 16 anos.

Aluna atenta ao detalhe. Imagem: Marcos Massa
Aluna atenta ao detalhe.
Imagem: Marcos Massa

O curso de formação em cozinha alternativa iniciou em janeiro e previa o atendimento de mulheres que residem na zona norte de Caxias do Sul e ex-atendidas pela organização, o que garantiu uma turma rica em diversidade de idades e interesses. As aulas foram ministradas por três nutricionistas: Patrícia Amoretti, Cassiana Finckler e Mariane Oliveira, que também elaboraram um rico material didático em forma de polígrafo. Délcio explicou que o trabalho educativo abrangeu diversos temas, como aproveitamento integral dos alimentos, segurança alimentar, além de dicas para montar um cardápio equilibrado.

A nutricionista Mariane esclarece que o material didático também serve para guiar as alunas para que saibam diferenciar alimentos ricos em calorias vazias e os realmente nutritivos, além de tirar dúvidas sobre doenças relacionadas a má alimentação, sustentabilidade, temperos naturais e horta orgânica. “Elaboramos bastante material, inclusive sobre temas que abordamos rapidamente no curso, como as funções de cada uma das vitaminas no nosso organismo e leitura e interpretação de rótulos de alimentos industrializados – a ideia era construir um guia que fosse útil no dia-a-dia das alunas”, esclarece.

Mariane ainda relata que as nutricionistas pediram que as alunas trouxessem dicas de receitas que gostariam de aprender e que elas foram adaptadas para que ficassem mais saudáveis, mantendo assim o foco do curso. “Outros assuntos abordados foram dicas de congelamento de alimentos, locais onde podem ser comprados alimentos saudáveis e também hortas e cultivo de alimentos orgânicos”, diz.

O gerente da Associação ainda reitera a importância da reforma da cozinha da instituição, que era a mesma desde a sua inauguração, em 1995. “Nossa cozinha havia sido construída com doações que recebemos e, agora, está adequada à quantidade de refeições que servimos diariamente”. Ao todo, são produzidas quatro refeições ao dia que são servidas no refeitório da Associação.

Claro que o projeto “Comer bem sem gastar muito” também veio numa boa época, quando as pessoas estão consumindo cada vez mais alimentos industrializados e é cada vez mais raro ver alguém preocupando-se com os nutrientes de cada refeição. “Devido à falta de informação e ao hábito de não mais cozinhar em casa, torna-se cada vez mais difícil comprarmos alimentos certos e prepará-los de maneira adequada. Esse curso é importante porque mostra que cozinhar pode ser divertido e ainda melhorar nossa qualidade de vida e de nossas famílias”, ressalta a nutricionista Patrícia.

Entre as receitas repassadas para as alunas, três foram as escolhidas do dia: torta fria com recheio de beterraba, espinafre e cenoura, bolo de aveia com calda de maçã e docinho de cenoura com coco. As alunas, de idades variadas, estavam empolgadas e aprenderam que aproveitar os talos, cascas, sementes, folhas e caules enriquece os pratos nutricionalmente e ainda pode ser uma alternativa para a economia familiar.

Trabalho afinado em equipe. Imagem: Marcos Massa
Trabalho afinado em equipe.
Imagem: Marcos Massa

Francele Quiche Guimarães era uma das 14 alunas do curso, e conta que levou algumas das receitas para casa, para alegria de seu pai, que aprovou. “De início, ele achou que eu estava ‘inventando moda’, mas depois se empolgou e disse para eu levar mais receitas para casa”, conta a jovem. Francele conta ainda que aprendeu bastante e que aprender é muito bom. “Inclusive já repassei algumas dicas para minhas tias, como o molho de tomate e o açúcar derretido, que parece uma rapadura e fica uma delícia como sobremesa”. Sua amiga, Eliane Vieira de Aguiar, também de 15 anos, concorda com Francele. “Aprendi a não desperdiçar alimentos que, antes, eu jogava fora sem pensar, como as cascas de frutas e legumes. A gente pensa que não dá mais para usá-los, mas, com as receitas, aprendemos que não só dá para utilizá-los, dá também para fazer delícias”, afirma.

A sorridente Maria Olga Ribeiro estava agradecida pela experiência e sonhava com uma recolocação no mercado. “A Fátima, Assistente Social da Criança Feliz, foi quem me avisou do curso, e não pensei duas vezes em me inscrever. As professoras são fantásticas e aprendemos muito sobre reaproveitamento de alimentos e refeições mais saudáveis”, conta, animada.

Sobre a Rede Parceria Social

Todos os projetos patrocinados pela Dana na fase 2010/2011 envolvem Segurança Alimentar, como também na fase anterior, e acontecem em diversas cidades do RS: Porto Alegre, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Gravataí, Caxias do Sul e Montenegro. “Apesar do tema da Segurança Alimentar ter sido mantido, é importante ressaltar que agora apoiamos projetos novos, diferentes do ano passado. Estamos alinhados com os objetivos da Rede Parceria Social, que objetiva que, após um ano, as ONGs tenham conhecimento para andar com as próprias pernas”, diz Luis Pedro Ferreira, Gerente de Comunicação Corporativa da Dana.

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