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Vitória-Régia
Imagem: ilustração de Rodrigo Rosa

Diz-se que nas noites de luar, a Lua desce à terra para casar-se com uma índia. Nas lendas indígenas brasileiras, não existe a diferenciação entre o elemento feminino e o masculino, como sendo o fecundado e o fecundador. Os índios apresentam seus deuses geralmente como a Mãe.

É assim que a Lua, reconhecidamente feminina por uma convenção da sociedade moderna, era para os índios um guerreiro. Audacioso, valente, forte e belo, esse guerreiro era cobiçado por todas as jovens índias. E cada uma que conquistava seu amor, transformava-se em estrela no céu.

Pois houve uma índia chamada Naiá que sonhava em pertencer à Lua, recusando todas as propostas de casamento que os guerreiros de sua tribo lhe fizeram. Naiá estava irremediavelmente apaixonada pela Lua. Passava noites a fio contemplando o luar, fascinada com os raios prateados que banhavam seu corpo como se fossem os braços fortes do valente guerreiro. Muitas vezes Naiá corria pelos campos e matas, com os braços estendidos tentando alcançar a Lua, inutilmente. O guerreiro permanecia lá, indiferente e inatingível.

Imagem: ilustração de Rodrigo Rosa

Imagem: ilustração de Rodrigo Rosa

Conta-se que uma noite, doente de paixão, Naiá estava à beira do lago e viu surgir, com todo o esplendor, a Lua refletida nas águas cristalinas e calmas, bem a sua frente. Quase ao seu alcance.

Imediatamente, entendeu que o guerreiro dono de seu coração aparecia para atender seu chamado. Naiá não pensou duas vezes. Atirou-se para os braços dele, certa de que realizaria os seus sonhos, conquistaria sua paixão.

Naiá, porém, afundando nas águas do lago, encontrou apenas seu trágico destino de morte. A Lua, que não quis fazer de Naiá uma estrela do céu, a tudo assistiu penalizada. Resolveu transformar a pobre indiazinha numa flor tão bela quanto imensa.

Assim é que, transformada em Vitória-Régia, Naiá aguarda todas as noites seu guerreiro amado. E quando a Lua surge alta no firmamento, a Vitória-Régia abre as enormes pétalas de sua flor, oferecendo a corola rosada para receber os raios prateados do amado.

Origem da lenda

Muito comum na região amazônica, a Vitória-Régia é um tipo de planta aquática que chama a atenção pelo tamanho descomunal que pode alcançar, cerca de dois metros de diâmetro. As flores, que inicialmente são brancas, depois tornam-se rosadas, podendo atingir diâmetros de até 40 centímetros.

Imagem: ilustração de Rodrigo Rosa

Imagem: ilustração de Rodrigo Rosa

Na mitologia indígena, a importância das plantas é fundamental, seja curando os males ou desempenhando outros importantes papéis, falando e agindo, independentemente.

A lua, por sua vez, chamada pelos índios de Jaci, é um exemplo da dificuldade que a cultura civilizada tem para entender as razoes e funções dos mitos selvagens. Seu papel no imaginário popular é tão importante que até as próprias índias contam o período de gestação pelas luas no céu. Além disso, são muitas as histórias envolvendo o satélite natural da terra; ela faz as pessoas “perderem” a cabeça (o sujeito está “de lua”); define as noites em que devem surgir os Lobisomens, a Mula-Sem-Cabeça, o Muiraquitã, etc.; pode ajudar a crescer os cabelos; e, às mulheres que, grávidas, dormiram banhadas pelo luar, pode acarretar a infelicidade de dar à luz filhos débeis mentais (aluados). Para os indígenas do Brasil colonial, a lua é senhora dos vegetais e eficiente protetora.

Já a Trindade católica é masculina: Pai, Filho e Espírito Santo. Esse tipo de conceito patriarcal arraigado em muitas culturas não existe para os índios brasileiros. Enquanto as religiões civilizadas costumam classificar seus deuses como sendo “o” deus ou “a” deusa, os indígenas cultuam a maternidade deixando de lado a questão da sexualidade de seus deuses. Os índios têm apenas a mãe – Mãe D’água, Mãe do Fogo –, criadoras e responsáveis pela vida.

> Baixe aqui o painel da exposição

DobraDana

Embarque com seus amigos na lenda da Vitória-Régia! É só baixar o PDF do DobraDana, seguir as simples instruções de montagem e levar no bolso as histórias desta índia apaixonada.

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