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Marta Penter
Marta trabalhando em seu ateliê. Imagem: Roberta Borges

Marta Penter nasceu em Porto Alegre, em 1957. Desde muito cedo se vinculou ao mundo das artes, frequentando várias escolas e centros de arte. Atualmente, tem se dedicado a pintura em aquarela e óleo sobre tela. Com uma linguagem realista contemporânea explora o tema do inconsciente coletivo, através de imagens de objetos antigos de uso pessoais e da figura humana numa relação tempo e espaço. Ícones vindos da forte influência de sua formação em Psicologia, que adquirem força e expressão em seus trabalhos. Suas pinturas, geralmente, em tamanhos muito grandes, caracterizam-se por valorizar os efeitos de luz e sombra criando uma atmosfera intimista típica em suas obras.

Como foi sua infância? Havia incentivo em casa para que você desenhasse, criasse coisas novas?

Fui uma criança muito feliz, criada entre o interior e Porto Alegre. Minha avó Dinda morava numa chácara perto de Montenegro, e eu pude aproveitar o silêncio, a sabedoria da simplicidade dela, aprendi a dar valor às pequenas coisas e desenvolvi uma sensibilidade muito grande com isso, essas memórias pequenas. Eu morava com meus pais e minha outra avó, Mema, muito afetuosa também. Meu pai, Danilo, desenhava muito bem e minha mãe, Noêmia, era a minha referência porque também pintava, embora fosse um hobby para ela. Meu pai contava muitas histórias, gostava de astrologia, nos ensinava sobre as estrelas, ajudou bastante a incentivar minha imaginação. Desenvolvi na infância essa característica proustiana de descrever tudo através da percepção que nasce dessa simplicidade. Eu sempre gostei de desenhar. Meu grande sonho era ter uma caixa de lápis de cor que abria como uma sanfona, caríssima. Lembro de passar as tardes desenhando…

E você fez algum curso de desenho, oficinas?

Quando eu tinha 15 anos, comecei a frequentar o Ateliê Livre, que era formado por um grupo de artistas revolucionários que se reuniam no andar de cima do Mercado Público. Lembro que se formavam filas enormes do lado de fora do Ateliê para que se conseguisse participar de uma aula de desenho deles. Era um grupo contemporâneo, jovem, que representava uma quebra de paradigmas, e aquilo me fascinava. Eu adorava as aulas de lá, e fui querendo fazer faculdade de Artes Plásticas, mas acho que aconteceu uma espécie de auto-boicote porque eu não passei no vestibular.

Trabalhando na série "Intimidade Compartilhada" Imagem: Roberta Borges

Trabalhando na série “Intimidade Compartilhada”
Imagem: Roberta Borges

Você é formada em Psicologia. Isso interfere no seu trabalho?

Eu fiz vestibular para Artes Plásticas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e não passei – fui muito mal, inclusive. Um semestre depois, tentei Psicologia na PUC e, não só passei, como fiquei em 7 lugar na colocação geral. Acredito que ganhei muito mais cursando psicologia do que artes plásticas. Naquele tempo, a faculdade de artes plásticas não era como hoje, tinha muitas cadeiras teóricas de história da arte. Com a psicologia, aprendi sobre todo um universo do comportamento das pessoas. Também por isso, a minha arte é totalmente projetiva, não consigo dissociar obra de artista. Eu entro numa vernissage minha e me sinto nua, porque minha arte sou eu, é uma coisa muito autêntica.

Durante este período da faculdade, você desenhava, pintava?

Não. Esse lado ficou abandonado, foi um hiato de 6 anos, porque a faculdade me consumia bastante. Eram muitas leituras, muito estudo, e a arte ficou em latência. Eu estava empenhada em aprender a escutar as pessoas. Fiz estágios e acabei trabalhando na área organizacional. Mas sentia falta de alguma coisa. Fui para São Paulo, num Congresso no Maksoud Plaza, e notei que os quadros na parede do hotel me instigavam mais do que o que era dito nas palestras. Segui trabalhando depois de formada em São Paulo, porque meu marido, Leo Penter, trabalhava na Dana (naquela época, ainda Albarus) e foi transferido para lá.

Como a arte voltou para a sua vida?

Depois que tive minhas duas filhas, voltamos para Porto Alegre. Em 87, o Leo me deu de presente um estojo de aquarelas profissional. “Uma caixinha pequena, mas muito valiosa”, me disse ele. Continuei trabalhando como psicóloga, mas com uma condição: às quartas-feiras, eu fazia um curso de aquarela. Tentei produzir algo sem fazer o curso, mas foi um horror (risos). Pensei, então: “esse estojo de aquarelas não vai me vencer!”. Desde então, me apaixonei pela aquarela, pelo papel, pela transparência. Quando noite, minha mesa da sala estava cheia de aquarelas minhas. Tive que transferi-las para outro cômodo. E, depois, a produção era tanta que troquei de casa para construir meu ateliê!

E a vontade de deixar o emprego convencional e trabalhar só com arte, como surgiu?

Eu percebi que, pintando, eu havia entrado em contato com a minha essência novamente. Acho que é vocação, mesmo. Claro que desenvolver a técnica é outra coisa, e sou muito perfeccionista. Um artista precisa tempo para trabalhar como qualquer outro profissional. E eu tinha certeza de que, se me dedicasse exclusivamente à arte, seria boa naquilo, por causa desse perfeccionismo aliado à vocação. Conversei com minha família, e eles apoiaram a minha decisão. Era disso que eu precisava para seguir adiante. Foi uma escolha difícil, mas depois que ela aconteceu, comecei a trabalhar muito para que eu fizesse o meu melhor.

Como é seu processo criativo?

Acredito que o meu processo criativo é semelhante ao processo psicoanalítico. Da mesma forma que se dá o processo analítico por associação livre, a criatividade também acontece nas mesmas bases. Por exemplo, as sessões de análise, em que são necessários encontros de no mínimo 3 vezes por semana, porque q o fluxo de pensamento sofra menos com as defesas. Além disso, eu penso que, ao trabalhar uma idéia ou um conceito plasticamente, estamos de certa forma, nos colocando no trabalho e eu não nego esta projeção. Alguns artistas não veem a criação desta forma, já eu, penso ser impossível separar a arte do artista.

Da série "Cruzamento de tempos" Imagem: Reprodução

Da série “Cruzamento de tempos”
Imagem: Reprodução

Quando aconteceu sua primeira exposição?

Em 92, na Galeria dos Arcos. Pensei, na minha ingenuidade: “vou fazer a metade dos trabalhos bem comercial, para que o dono da galeria fique satisfeito com as vendas, e a outra metade será o que eu quero da minha exposição”. O resultado? Os quadros que eu havia feito pintando malas, que era o propósito não-comercial da exposição, foram todos vendidos muito rápido. Isso me provou que eu estava apta para fazer o que queria fazer. Nesta exposição, eu decidi pintar malas porque me apaixonei pela simbologia delas, e viajei pelo Estado todo em busca de malas antigas para pintar. Era a representação da bagagem que todos trazemos conosco. Além de representar que viajamos por nós mesmos.

Qual foi seu trabalho seguinte?

Foi a série de aquarelas sobre marionetes. Adorei o tema, fui à Praga em 97 para pesquisar material. Descobri que as marionetes que eu buscava estavam guardadas nos museus por serem peças raras, mas não deixei de comprar outras e as trouxe – todas tinham uma história para contar. Um exemplo é uma marionete de madeira, feminina e feita todas por mulheres de uma mesma família, passada de geração em geração, O que me fez não levar a série adiante, foi o fato de que não consegui passar a idéia original, que era a da manipulação social, o que viam era algo pueril, quase infantil, mas ainda quero voltar ao tema.

Qual foi sua primeira série com pintura à óleo?

Foi “Memórias”. Voltei a mil da viagem, pintei algumas malas, tentei as marionetes, mas decidi que queria trabalhar com objetos que fazem parte de um inconsciente coletivo. Tudo com um significado adjacente – não eram objetos, apenas. Pintei cabides, cadeiras (que, para mim, representam o ego, o que nos mantêm presos ao chão), máquinas de escrever, câmeras fotográficas, discos de vinil. Foi um grande trabalho de pesquisa e garimpagem destes objetos antigos, viajei para várias cidades e países diferentes. Para montar uma exposição, é preciso esse investimento, um grande cuidado. Isso resultou na exposição “Memórias”, de 2002. Foi quando me senti mais bem-resolvida enquanto pintora, falando de mim, da minha essência através de ícones que também dizem coisas às outras pessoas.

Da série "Cruzamento de tempos" Imagem: Reprodução

Da série “Cruzamento de tempos”
Imagem: Reprodução

Então, surgiu o “Cruzamento dos tempos”…

Isso mesmo. Depois de “Memórias”, senti a vontade de trabalhar com fotografias antigas. O instante congelado, que se transformaria na exposição “Cruzamento dos tempos”. Comecei com fotos pequenas – algumas tão diminutas que eu precisei de uma lupa para trabalhar. A fotografia é uma lembrança, e eu queria trazê-la para o presente, por isso passei a pintar as fotografias em tamanho natural, em telas enormes. Para mim, esta exposição é a prova de que não existem estanques dentro de nós e que passado, presente e futuro são uma coisa só, dentro das pessoas. São coisas dinâmicas, acontecendo sempre ao mesmo tempo e até mesmo interagindo. Comecei a “cortar” pedaços das fotos e reproduzir apenas pedaços delas nas pinturas, porque percebi que estes pedaços diziam até mais do que o todo. Isso me deu uma ideia para outra exposição, “A intimidade compartilhada”.

Esta é a sua exposição mais recente, certo?

Ela aconteceu em 2008, na Bolsa de Arte de Porto Alegre. Minhas filhas estão na casa dos 20 anos, cercadas de amigas que vivem neste mundo ágil, repleto de informação, globalizado. Pensei em fazer algo que compartilhasse a intimidade, o detalhe, que às vezes acaba se perdendo em toda essa confusão. É a valorização do tempo de contemplar, de ter esse encontro consigo mesma, diante de um espelho por exemplo, ou com os outros. Dividir. Fotografei minhas filhas e suas amigas nesses momentos preciosos de intimidade compartilhada. De que, quando percebemos que estamos disponíveis para nós mesmas, somos infinitas. Usei os recortes novamente, e tirei as fotos com ótica de criança, de baixo para cima. Depois, recebi retornos de que a exposição tinha conotação sexual. Não era essa minha idéia inicial. Queria mostrar um grupo de meninas, soltas, espontâneas e o resgate da intimidade delas consigo mesmas e enquanto amigas.

Quais são seus artistas favoritos, suas influências?

Todos com quem estudei foram grandes influências. Além dos mestres mortos, claro (risos). Aprendi muito observando pelos museus, tive a oportunidade de ir ao MoMa, ao Metropolitan, para ver ao vivo trabalhos incríveis. Me identifico com Edward Hopper, Andrew White, Reimbrandt, Francis Bacon, Gustav Klimt, Gehard Ricther, Andrew Wyeth, Lucien Freud (neto do Freud), mas tenho certeza que ainda faltam muitos nomes nesta lista… Também sou influenciada por cinema, adoro ver filmes. Recentemente, me apaixonei pelo trabalho do diretor Wong Kar Wai e pelo Wim Wenders.