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Katia Suman
A turma do Sarau: Katia, Moreno, Claudia e Fischer. Imagem: Cynthia Vanzella

Katia Suman não é desconhecida, nem artista revelação. Criou o Sarau Elétrico, um dos poucos espaços para debates contemporâneos culturais que existem em Porto Alegre; apresenta o Camarote TV COM; e são 25 anos de rádio na resistência pela boa música. Agora ela desbrava novas fronteiras para as ondas sonoras com a Rádio Elétrica, que opera via web.

A sua apresentação no livro “Prezados Ouvintes”, do Mauro Borba, começa dizendo que você é baiana. Quando e como você veio parar no RS?

Eu nasci em Salvador, na Bahia, meio que por acidente. O meu pai foi jogador de futebol, nos anos 50. Jogou aqui em Porto Alegre, no Renner. Depois foi pro Flamengo do Rio, Náutico de Recife e encerrou a carreira, aos 25 anos no Vitória da Bahia, por problemas no menisco. Naquele tempo a medicina esportiva não era tão desenvolvida. Então voltou pra Porto Alegre. Eu vim pra cá com meses, sou baiana só na certidão.

E a história com rádio começou de que forma?

Eu sempre gostei de rádio. Sempre ouvi rádio. Com 18 anos fui morar em São Paulo e lá acompanhava com muito interesse a cena musical, a chamada vanguarda do Lira Paulistana. Depois de 7 anos lá, trabalhando em publicidade e depois em teatro, voltei pra Porto Alegre, meio desiludida com a vida, sem saber bem o que fazer. De certeza só que o meu lance não era nem publicidade, nem teatro. E o rádio sempre ligado. Então descobri a Bandeirantes FM, embrião do que depois viria a ser a Ipanema. Fui até lá, apresentei o projeto de um programa (o nome era Lado B) e enfim, comecei a fazer rádio. O então diretor da Band FM, Nilton Fernando, foi muito receptivo e devo a ele a minha entrada para o rádio.

Causos da Ipanema aparentemente é o que não falta, não é? Conta algum dos mais memoráveis.

A rádio tinha uma interação muito forte com os ouvintes, muito antes da era da interatividade. Os ouvintes eram muito participativos, mandavam discos – naquele tempo demorava pra chegar um lançamento internacional – criticavam, vibravam com a rádio. Eram ouvintes militantes. Acho que posso mencionar também que a Ipanema foi a primeira rádio aqui do RS a ter um site na internet. E a segunda no Brasil. Nos anos 90 a gente tinha uma webcam dentro do estúdio. E nenhuma outra rádio tinha sequer um site.

O Sarau em efervescência no Ocidente. Imagem: Cynthia Vanzella.

O Sarau em efervescência no Ocidente.
Imagem: Cynthia Vanzella.

Você acompanhou a evolução do chamado rock gaúcho, e da cena musical do RS em si, nos últimos 30 anos. Em sua opinião, o que foi mudando até os dias de hoje, e qual o papel dos veículos de mídia em relação à música?

Hoje a música não depende mais do rádio, os artistas são realmente independentes, no sentido de que se pode construir uma carreira sólida só através da internet. Isto é muito legal, porque acabou com essa palhaçada de jabá. Acho que a tecnologia só tem auxiliado os artistas.

Como foi a transição, ou a soma, do trabalho com a TV?

Nos anos 90, fizemos, eu e o pessoal da Ipanema, durante um ano e meio, o programa Folharada Ipanema na TV, na Band. Era bem experimental e foi o programa de maior audiência da Band naquele tempo. Depois apresentei Crônicas do Tempo na TVE. Portanto, não é assim uma coisa nova na minha vida. A novidade é eu estar na RBS que sem dúvida dá muito mais visibilidade pra qualquer profissional.

O projeto do Camarote é seu? Ele foi aceito prontamente ou houve adaptações? 

Não. O projeto era do Raul Costa Júnior, que agora está na Sport TV. Achei o máximo: um programa itinerante, cada dia de um lugar da cidade.

É um sem número de artistas e temas que já passaram pelo Sarau Elétrico, e sem dúvida uma das grandes iniciativas culturais da cidade. Conta um pouco dessa história.
Bem o Sarau surgiu de um desejo meu de criar um ambiente pra ler e comentar literatura. Um ambiente nada formal, sem nenhum pingo de academicismo. Um encontro pra celebrar a palavra escrita. Estamos agora em pleno processo de criação de um livro que vai documentar essa história do Sarau Elétrico, que começou assim como quem não quer nada e está prestes a completar 12 anos de atividade. Muitos artistas, músicos e escritores, passaram pelo Ocidente.

Como foram se definindo as parcerias fixas do Sarau (Fischer, Moreno, etc..)?

Quando a idéia pintou na minha cabeça já veio com a parceria e o local: pensei imediatamente no Fischer, que tinha conhecido há pouco tempo e no Frank Jorge, que nesta época estava fazendo pequenas crônicas na rádio Ipanema. Pensei também no bar Ocidente. Achei que a mistura ia dar certo: um intelectual do gabarito do Fischer, grande professor de literatura, escritor e cronista, um músico que destila ironia por todos os poros, também escritor (aliás dá pra dizer que o Sarau obrigou o Frank a escrever, e quando ele viu já tinha um livro pronto!) E aquele local, que é emblemático na cena cultural da cidade. E ainda com aquela vista pra Redenção. O Moreno foi um dia pra assistir e adorou. Na semana seguinte fez uma pequena participação, contando histórias da mitologia grega. E nunca mais deixou de ir, até que institucionalizamos a “coluna grega”. Ele está na trupe há 11 anos. Em 2006 o Frank deixou o Sarau por conta de compromissos profissionais, e um pouco depois a Claudinha Tajes completou o quarteto.

E então surge a Rádio Elétrica. Por que você resolveu criar uma rádio web?

Eu adoro rádio e tava ficando muito deprimida porque estava fora do ar. Então usando as maravilhas da tecnologia inventei esta rádio. Comecei em dezembro. Pra mim é como um hobby. Aos poucos amigos foram se juntando e quando vi, já tenho uma programação de mais de 12 horas por dia. São pessoas bacanas, que conhecem muito som. É uma delícia fazer e ouvir esta rádio.

Você pretende comercializar o espaço da rádio como numa rádio convencional?

Não, claro que não. Não faz sentido uma rádio web ter espaço comercial como numa rádio convencional. Aliás, este é um dos pontos que os ouvintes mais gostam: finalmente uma rádio sem break comercial.

Além da liberdade, como funciona a questão do feedback na Internet?

É uma rádio pequena. Pra amigos. O feedback é ótimo e é imediato. É uma rádio colaborativa.

Quais os sons que não saem do teu playlist em 2011?

Nunca deixei de ouvir os sons dos anos 60 e 70. Gosto de muita coisa da música brasileira, de Cartola a Ná Ozzetti. Gosto de jazz, música clássica. De rock do século 21 conheço pouca coisa: gosto de Arctic Monkeys, Racounteurs e Kasabian.

Existe aposentadoria pra quem trabalha com cultura?

Olha, acho que não. Bom é estar vivo e ligado. E aprendendo.