Nova rota

O Estado de S. Paulo

 

Fundador da startup TruckPad, Carlos Mira conhece bem os vários entraves do mundo do transporte de cargas – antes de dar início à empresa, criada em 2012, ele trabalhou na transportadora de sua família por três décadas. “Eu não sou um startupeiro tradicional. Tenho diesel na veia”, diz o executivo de 52 anos. Inicialmente concebida como um “Uber dos caminhões”, ajudando profissionais autônomos a encontrar cargas, o TruckPad quer agora resolver outro problema do setor: o pagamento. A partir desta semana, começa a testar o TruckPad Pay, seu serviço de carteira digital.

 

Já certificada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a carteira será toda operada via aplicativo e poderá ser usada tanto para o recebimento dos fretes como para pagamento de serviços, o que inclui abastecimento de gasolina, refeições e manutenção dos caminhões. “Hoje, o caminhoneiro recebe uma série de cartões pré-pagos e não tem ideia do saldo ali presente. Com o TruckPad Pay, ele vai poder saber quanto vai receber, quanto tem de adiantamento e até mesmo incluir o saldo dos outros cartões”, explica Mira, com exclusividade ao Estado.

 

Segundo o executivo, o serviço não terá custo para o caminhoneiro. O modelo de negócios por trás do TruckPad Pay se baseia em dois outros pilares. Quem contratar uma carga pagará uma comissão sobre o frete à startup – segundo Mira, o valor deve girar em torno de 1%. A empresa também pretende cobrar uma comissão dos comerciantes que aceitarem receber pagamentos por meio do serviço. Mas haverá uma vantagem: o TruckPad Pay funcionará sem maquininha. Tudo será via celular, com pagamentos via QR Code, com o dinheiro caindo diretamente na conta do vendedor.

 

“Já temos uma rede com 13 mil estabelecimentos parceiros do TruckPad, oferecendo descontos para os caminhoneiros do app. Esperamos conseguir bastante adesão”, diz o presidente executivo da startup. Além disso, a empresa pretende ampliar seu serviço de inteligência de negócios, hoje já ativo em parcerias com empresas como Shell, Michelin, ZF e Mercedes Benz – esta última, inclusive, é uma das acionistas do TruckPad. “Hoje, enviamos uma notificação para o caminhoneiro falando sobre promoções de pneus no app. Com o TruckPad Pay, vamos fechar o ciclo e poder afirmar que a compra veio das notificações”, diz Mira, que espera receber comissões dos parceiros pelas vendas.

 

Para o consultor Edson Santos, especialista em meios de pagamento, a criação de uma rede de clientes e estabelecimentos é o maior desafio do TruckPad no momento. “Muita gente tem olhado para pagamentos como uma forma de ajudar a monetizar um negócio. A chance de sucesso do TruckPad Pay depende de desenvolver os dois lados do mercado, dando valor a caminhoneiros e lojistas”, diz. “É um bom negócio, mas há risco enorme para que ele seja viável.”

 

Passo

 

No primeiro mês de operação, o TruckPad Pay estará presente em apenas algumas rotas específicas e será testado por um grupo de até 2 mil caminhoneiros, pertencentes a uma rede de uma transportadora parceira da startup. Por enquanto, o serviço é tocado por apenas oito pessoas, mas a contratação vai crescer nos próximos meses. Após encerrar 2019 com 150 funcionários, o plano do TruckPad é chegar a pelo menos 600 pessoas até o fim do semestre, ocupando todo um prédio de 12 andares na região da Avenida Paulista, em São Paulo.

 

A empresa pretende ainda triplicar as operações com seu negócio principal, o de marketplace de fretes – em 2019, a empresa movimentou R$ 700 milhões em fretes. Este ano, quer saltar para R$ 2 bilhões.

 

Com os bons números, a empresa também pretende negociar sua primeira rodada de investimentos com fundos de capital de risco. Até aqui, só captou com parceiros institucionais, como a já citada Mercedes

 

Benz, a aceleradora Plug and Play e a startup chinesa First Truck Alliance, que tem negócio parecido na Ásia. Com a rodada, que deve ser fechada em 2020, é bem possível que a empresa chegue ao status de unicórnio – negócio avaliado em pelo menos US$ 1 bilhão. Mas essa não é a meta de Mira. “Não quero ser unicórnio. Não deixei minha carreira na transportadora para fazer voo de galinha”, diz ele, em referência a negócios que alcançam avaliações altas e depois quebram.

 

Aceleradora

 

Outra empresa do setor do transporte de cargas que é cotada como futuro unicórnio é a CargoX. Fundada pelo argentino Federico Vega, a startup tem funcionamento um pouco diferente do TruckPad – seu foco está em ajudar as pequenas transportadoras, em vez do caminhoneiro autônomo. Além disso, ela vai além do papel de marketplace, também se responsabilizando por aspectos de segurança ao longo do trajeto, monitorando o transporte.

 

“Nosso sistema de geolocalização avisa ao motorista, por exemplo, se um posto é perigoso por ter atividades ilegais como prostituição ou tráfico de drogas”, explica Vega, que trabalhou no mercado financeiro e decidiu criar a empresa após viajar pelo Brasil de bicicleta. De 2013 para cá, a CargoX juntou ao seu redor nomes de peso: o banco Goldman Sachs, a gestora Blackstone e o fundo do bilionário George Soros são investidores. No conselho, há assentos para Oscar Salazar, ex-diretor de tecnologia do Uber, e Paulo Veras, cofundador do primeiro unicórnio brasileiro, a 99.

 

Para seguir em frente, a empresa agora aposta num sistema de aceleração de transportadoras. “Hoje, a vasta maioria das transportadoras brasileiras tem até cinco caminhões, em um sistema pouco profissionalizado e constantemente com dificuldades de fechar as contas”, explica Vega. A ideia é fornecer capital de giro, acesso à tecnologia e benefícios como descontos em um clube de vantagens para essas pequenas empresas – hoje, a startup afirma ter cerca de 20 mil companhias do tipo em sua rede de contatos.

 

Para a professora Priscila de Souza Miguel, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o desafio da CargoX será mostrar às parceiras que o que tem a oferecer é valoroso. “Este é um mercado superpulverizado, mas quem contrata está muito mais de olho em custos. É preciso saber o quanto a CargoX vai conseguir agregar de valor para essas empresas no final do dia”, diz ela.

 

A expectativa é de que a aceleração consiga ajudar a CargoX a dobrar seu valor em cargas movimentadas este ano – em 2019, foram R$ 13 bi. Hoje, a empresa tem 400 pessoas e quer chegar a 650 até o fim do mês. Mas Vega não liga para ser um unicórnio. “Lá na Patagônia, não tem disso não”, brinca. “Só ovelhas mesmo”. (O Estado de S. Paulo/Bruno Capelas)