A reaproximação Brasil-Argentina

O Estado de S. Paulo

 

Trocar desaforos está longe de ser o caminho para as duas maiores economias sul-americanas, sócias no Mercosul, vizinhas e parceiras em acordos comerciais.

 

Trocar desaforos está longe de ser o caminho para as duas maiores economias sul-americanas, sócias no Mercosul, vizinhas e parceiras em dois acordos de comércio recém-concluídos, um com a União Europeia (UE), outro com a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta). Depois de meses de provocações, os presidentes Jair Bolsonaro e Alberto Fernández parecem haver entendido, enfim, aquela obviedade e decidido voltar à sensatez. O encontro marcado para o começo de março em Montevidéu, na posse do novo presidente uruguaio, Luis Lacalle Pou, poderá ser o começo de uma colaboração benéfica para os dois países, para o bloco e também para a região.

 

Em visita a Brasília, o ministro argentino de Relações Exteriores, Felipe Solá, trouxe um discurso diferente daquele consagrado pelo kirchnerismo. “O Mercosul”, disse ele, “deve ser renovado, olhar para o mundo. Apoiamos acordos do Mercosul com diferentes regiões.” Se as ações confirmarem as palavras, o bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai poderá retomar a vocação original, substituída pelo terceiro-mundismo anacrônico da aliança entre o petismo e o kirchnerismo.

 

Mas a prioridade argentina, neste momento, é sair de uma das crises mais longas e mais fundas de sua história econômica, e para isso a colaboração brasileira poderá ser importante. Em Brasília, o ministro Solá pediu apoio nas negociações para renovar o acordo de seu país com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O presidente Bolsonaro prometeu ajudar. Não foi o primeiro a estender a mão. Em Washington, o presidente Donald Trump já havia prometido ao embaixador Jorge Arguello apoiar o esforço de renegociação da dívida externa. Ao contrário do brasileiro, o Tesouro argentino deve muito a estrangeiros.

 

Para ganhar algum fôlego, o governo de Alberto Fernández precisará renegociar o acordo com o FMI, comprometendo-se com um duro programa de ajuste em troca de mais dinheiro e de mais tempo para pagar. A nova diretora-gerente do Fundo, Kristalina Georgieva, já indicou a disposição de conversar e de estender o apoio.

 

Com base no acordo anterior, o Fundo já liberou cerca de US$ 44 bilhões dos US$ 50 bilhões negociados. Não há muita escolha para a nova diretora. Um novo acerto será necessário até para a recuperação do valor já desembolsado.

 

“Não vamos dar calote”, disse em Brasília o chanceler Felipe Solá, ao pedir ajuda nas discussões com o FMI. A frase pode parecer excessiva, mas é um bom indício da ansiedade dos novos governantes argentinos diante do tamanho da crise. A promessa de evitar o calote parece indicar a percepção de um beco sem saída: será inútil menosprezar os compromissos externos e tentar uma retomada do crescimento sem levar em conta as condições externas e, de modo especial, os problemas de financiamento.

 

Se aceitar os compromissos indispensáveis, deve ter concluído a equipe de governo, o sacrifício será compensado por alguma prosperidade nos anos seguintes. Não há, até pelas condições da economia global, como apostar num início de recuperação em 2020 sem o apoio e a tolerância do FMI e dos credores de fora.

 

Para o Brasil, o caminho mais sensato é apoiar qualquer programa exequível adotado pelo governo argentino. Em condições normais, a Argentina é o terceiro maior mercado para as exportações brasileiras. Mais que isso, é um dos principais destinos da produção industrial do Brasil. O mercado argentino deve continuar fraco em 2020, mas voltará a ser muito importante, em breve, se houver sucesso nos ajustes.

 

A discrição mantida até agora pela vice-presidente Cristina Kirchner tem sido bem recebida no mercado. O silêncio contém uma mensagem apaziguadora: ninguém deve ficar inquieto, porque o governo promete ser ajuizado. Essa foi a mensagem de Lula, antes da eleição de 2002 e durante a maior parte do primeiro mandato. Confirmada essa interpretação, haverá boas condições para a cooperação, se o governo brasileiro mantiver o juízo e souber aproveitá-las. (O Estado de S. Paulo)