Com fim do Inovar-Auto, importadoras de veículos voltam a investir no Brasil

O Estado de S. Paulo

 

As empresas importadoras de veículos vão retomar investimentos e reabrir concessionárias fechadas nos últimos cinco anos, período em que vigorou no País o Inovar-Auto, regime automotivo que prejudicou as importações com imposto extra. O programa que termina no fim do ano estabeleceu alíquota extra de 30 pontos porcentuais de IPI para veículos fabricados fora do Mercosul e do México e, com isso, as vendas de modelos vindos de fora da região caíram de 112,6 mil unidades em 2013 para cerca de 27 mil neste ano. A queda foi acentuada também pela crise econômica.

 

A maior importadora de veículos do Brasil, a Kia Motors, anunciou ontem que pretende investir R$ 165 milhões no País em 2018. O aporte será destinado, em parte, à abertura de 25 concessionárias da marca, o que deve gerar 1,3 mil empregos. A marca coreana chegou a ter 180 lojas em 2011 e hoje tem 90, informa o presidente do grupo, José Luiz Gandini.

 

Até o fim deste ano, ainda sob as regras do Inovar-Auto, a Kia espera vender 8 mil veículos no Brasil. Para o ano que vem, sem a sobretaxação no IPI, a expectativa é chegar a 20 mil unidades. A montadora já encomendou 5 mil, produzidos nas fábricas na Coreia do Sul e no México, para vender no início do ano que vem. “Com isso, a Kia poderá iniciar janeiro com maior volume de veículos em estoque para comercialização, contribuindo, em 2018, com recolhimento de impostos aos cofres públi- cos da ordem de R$ 1,2 bilhão”, diz Gandini.

 

A JAC Motors tinha 70 pontos de venda em 2011 – o grupo SHC iniciou as vendas de carros chineses no País em março daquele ano. Atualmente são 35 concessionárias. “Já estamos negociando a abertura de nove pontos até o próximo ano”, informa o presidente da empresa, Sérgio Habib.

 

As vendas da marca, que no primeiro ano de atividade chegaram a 23,7 mil automóveis, devem somar 4,5 mil unidades em 2017. Para 2018, a projeção, sem o Inovar-Auto, é de atingir 10 mil. “A partir de 2018, a gente volta a vender o que tem competência para vender, e não o que a cota determina”, afirma Habib. Além do imposto extra, as importações estão limitadas a 4,8 mil carros por marca.

 

No caso da chinesa Lifan, que deve vender este ano cerca de 3 mil veículos, a expectativa é de crescimento de 20% a 25% em 2018. A importadora atualmente traz veículos montados no Uruguai, para escapar das regras do Inovar-Auto, mas a fábrica local produz apenas três modelos voltados ao mercado brasileiro. Sem as regras restritivas, será possível complementar a linha com modelos vindos da China e dois deles já estão nos planos da Lifan: os utilitários-esportivos X70 e X80.

 

Fôlego

 

Gandini, que também preside a Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa), diz que há uma demanda reprimida por vários modelos importados, mas aposta em uma retomada gradual das vendas, com projeção de 40 mil unidades para o próximo ano. “Vai ser muito difícil recuperar o volume de vendas que tivemos em anos como 2011 (quase 250 mil unidades)e 2013 (112,6 mi), pois perdemos competitividade nesse período”, afirma Gandini.

 

Os importadores independentes (sem fábricas no País) chegaram a ter 850 revendas há cinco anos, número que caiu para 450. Em 2012, os importados representavam 5,6% das vendas totais de automóveis e comerciais leves, participação que hoje é de 1,3% e num mercado bem menor do que era na época.

 

O Rota 2030, programa que vai substituir o Inovar-Auto, terá prazo de 15 anos de duração. Ele ainda está sendo discutido entre montadoras, importadores, empresas da cadeia automotiva e governo, e deve ser anunciado até o fim do ano. Os 30 pontos extras do IPI serão suspensos, até porque essa regra foi condenada pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas deve conter outra elevação de IPI, de 10 pontos, que poderá ser abatida com o cumprimento de metas como eficiência energética e segurança.

 

Mesmo que essa nova alíquota entre em vigor, Gandini diz que os planos de voltar a crescer nos próximos anos estão mantidos pois, desta vez, “a regra vai valer para todos, montadoras e importadores”. (O Estado de S. Paulo/Cleide Silva e André Ítalo Rocha)