Serviço de assinatura de carro não traz vantagem para o bolso

O Estado de S. Paulo

 

O serviço de assinatura de veículos – onde se paga uma mensalidade pelo uso de um carro novo ao longo do ano – dá seus primeiros sinais de vida. Já existem duas empresas de porte nacional no ramo, a Porto Seguro e a Unidas, que para ganhar o consumidor apelam para simulações que, puxando daqui, esticando dali, apontam vantagens financeiras na comparação com a aquisição de um automóvel zero quilômetro na concessionária. Mas a realidade é que, na calculadora e levando em consideração taxas atualizadas de retorno na renda fixa, a migração ainda não se justifica economicamente.

 

“O serviço é interessante, mas ainda é caro”, sacramenta o especialista José Luiz Masini, da Planejar. Ele refez as contas e não viu vantagens na assinatura, mesmo considerando os custos de depreciação, taxas e impostos embutidos na compra de um carro. “O benefício, neste momento, fica com a comodidade da assinatura. Ou se você juntar duas ou três pessoas para dividir os custos do serviço e a utilização do carro”, afirma.

 

Juros maiores

 

A Porto Seguro foi a primeira companhia de peso a anunciar um produto do gênero, o Carro Fácil, lançado há um ano e meio. Hoje, para sair dirigindo um Chevrolet Ônix novo, motor 1.0, o mais em conta do portfólio da empresa, o preço do contrato anual é de R$ 17.700, pouco mais de 38% do valor total do carro, que na tabela é R$ 43.700. “O cliente arca apenas com os custos da assinatura. Todo o resto, seguro, manutenção e revisões são pagas por nós”, conta o gerente da Carro Fácil Marcelo Rosal.

 

Mas, na projeção de gastos, o produto ainda perde no custo para a tradicional compra. Ao mês, o Ônix da Porto Seguro cobra juros de 2,84% do motorista, taxa acima da média praticada pelos cinco principais bancos do mercado para o crédito automotivo (Banco do Brasil, Caixa, Bradesco, Itaú, e Santander), hoje de 1,88% , segundo dados atualizados pelo Banco Central.

 

“Mesmo com os custos de depreciação no primeiro ano e os gastos iniciais com seguro, licenciamento e demais gastos, fica mais barato trocar de carro todo o ano do que renovar uma assinatura anualmente”, destaca Masini.

 

Conforto

 

Para além da planilha financeira, as empresas também exploram a comodidade do serviço. Na Unidas, por exemplo, o usuário consegue sair com o carro no ato da assinatura do contrato. “Enquanto estamos preparando o carro para o cliente, colocando os acessórios, ele tem a opção de pegar um veículo provisório pagando o mesmo valor. Algumas vezes a pessoa precisa do carro para o mesmo dia e damos essa opção”, conta o diretor executivo da Unidas, Levi Fonseca.

 

Para o executivo de tecnologia José Estevam da Silva Júnior, que desde julho deste ano adota o modelo de assinatura para a utilização de um Ônix, motor 1.6, a facilidade foi considerada o ponto central. “Ter um carro dá trabalho. E tem os custos iniciais, além de IPVA e seguro todo ano. Ninguém contabiliza isso”, diz ele, que também vê no serviço uma vantagem na hora da declaração do Imposto de Renda. “Uma coisa é eu dizer para o governo que tenho um bem de R$ 56 mil. Outra coisa é falar que não tenho esse bem e, ainda por cima, tenho uma despesa mensal de R$ 1,6 mil. São coisas bem diferentes e que também precisamos levar em conta”, diz. (O Estado de S. Paulo/Renato Jakitas e Jéssica Alves)