Bruxa Nicácia

Bruxa Nicácia

O feitiço virou contra a feiticeira: restou apenas a risada fina e tétrica da bruxa má

Lendas brasileras
Imagem: ilustração de Rodrigo Rosa

Como condenadas a provocar a repulsa e o medo naqueles que delas se aproximam, as bruxas vivem espalhadas por todo o Brasil. Muitas histórias dão conta da existência dessas velhas, geralmente magras e enrugadas, que moram sozinhas ocupando-se de seus feitiços e maldições, mantendo constantes encontros com o Diabo. A lenda da Bruxa Nicácia é uma delas.

Segundo os registros, Nicácia teria vivido há muitos anos no sítio das Limeiras, às margens do rio Corrente, no sertão do Piauí. Como todas as outras bruxas, ela também era a sétima filha consecutiva de um casal. Durante a Quaresma transformava-se para cumprir seu fado de sugar o sangue das crianças com menos de sete dias.

Os homens jamais se aproximavam de seus domínios. Por isso, Nicácia passava o tempo todo conversando com os monstros do rio, acompanhada de sua horrorosa coruja, que tinha cabeça de gente e corpo de ave. A terrível companheira sempre assistia aos rituais malditos, empoleirada na cumeeira da choupana.

magem: ilustração de Rodrigo Rosa
Imagem: ilustração de Rodrigo Rosa

Algumas vezes Nicácia desaparecia da cabana. Nessas épocas era possível ouvir o pio rouco e horroroso da coruja dentro da mata, o que significava que a velha estava visitando o Diabo. Quando voltava desses encontros, Nicácia preparava as mais diferentes poções, fazendo subir da chaminé de sua choupana um fio de fumaça negra que desenhava no céu as mais fantasmagóricas figuras.

Outras vezes, era surpreendida na floresta à cata das ervas e cogumelos que faziam parte de suas receitas mágicas. Dizem que, das relações sexuais que as bruxas mantêm com o Diabo, nascem apenas sapos.

A Bruxa Nicácia fazia sempre terríveis predições. Uma delas afirmava que um dia o rio Corrente sairia de seu leito, causando uma enchente que afogaria a todos e mudaria os contornos da região. Apavorados com os poderes da bruxa e crentes no conhecimento de quem tem tratos com o Diabo, os moradores das redondezas rezavam fervorosamente, atemorizados com a possibilidade de serem engolidos pelas águas, até então calmas, do rio Corrente.

Passou o tempo, seguiram-se os dias e as noites, até que a previsão se cumpriu. A maior tempestade de que se teve notícia caiu pesadamente sobre a região. Durante toda a noite o céu parecia desabar. As árvores mais fracas eram vergadas pela ventania e quebravam com estrondo. Os clarões dos raios e o ribombar dos trovões iluminavam e faziam tremer a terra, inundando a alma de todos de pavor. Nicácia estava certa, a profecia estava se cumprindo.

magem: ilustração de Rodrigo Rosa
Imagem: ilustração de Rodrigo Rosa

Debaixo de tanta água e confusão, os pobres moradores, apavorados, permaneceram em vigília esperando o momento em que seriam carregados com suas casas para dentro do rio. Mas, horas depois, a chuva passou.

O vento transformou-se em brisa, as nuvens abriram-se deixando entrever tímidos raios de sol que foram, aos poucos, tomando conta da terra encharcada.

Timidamente, os pássaros voltaram a espalhar seus cantos pela mata, enquanto as pessoas sujavam os pés no barro para examinar as casas semidestruídas e avaliar os estragos. A previsão, afinal, não se cumprira. As casas ainda permaneciam ali e, exceto alguns prejuízos, tudo parecia bem.

Mas no sítio das Limeiras alguma coisa realmente acontecera. A Bruxa Nicácia, a cabana tétrica e a horrorosa coruja haviam desaparecido. Era como se essas criaturas jamais tivessem existido.

magem: ilustração de Rodrigo Rosa
Imagem: ilustração de Rodrigo Rosa

Contam alguns que, durante a tempestade, Nicácia foi arrebatada por demônios e levada para o mais escuro poço do rio Corrente. Lá, foi transformada em horrendo animal. Unhas e dentes alongaram-se como presas, o corpo cobriu-se de pelos grossos, os cabelos cresceram até tocar o chão e os pés e mãos transformaram-se em barbatanas. Teria o feitiço virado contra a feiticeira?

Só se sabe que o grotesco animal foi visto algumas vezes, preguiçosamente deitado sob os raios do sol da manhã, aquecendo-se e afiando as presas antes de sair em busca de alimento.

Desde então, o monstro aparece Iá pelas bandas do rio Corrente, e parece ter prazer especial em assustar as lavadeiras com seus urros. Dizem que esse terrível som foi um dia a risada fina e tétrica da Bruxa Nicácia.

Origem da lenda

Originaria do sertão do Piauí, esta lenda é apenas mais uma entre as várias que descrevem atividades de bruxas no Brasil. Sua origem, porém, é européia, tendo sido trazida para o Brasil via Portugal.

As bruxas que fazem parte do fabulário brasileiro respeitam em muitos pontos o estereótipo consagrado pela literatura mundial: são velhas enrugadas e horrorosas que vivem acompanhadas de animais ou monstros, e dedicam-se a espalhar o terror, principalmente entre as crianças.

Imagem: ilustração de Rodrigo Rosa
Imagem: ilustração de Rodrigo Rosa

Dizem que a sétima filha consecutiva de um casal, se a parteira não toma determinados cuidados quando nasce o bebê, invariavelmente transforma-se, já aos sete anos, em borboleta. O inseto entra nos quartos em que dormem crianças recém-nascidas e chupa-lhes o sangue pelo umbigo, matando-as. Ao envelhecer, essas crianças-borboletas tornam-se bruxas.

Devido à forte influência do cinema e das literaturas européia e norte-americana no Brasil, as histórias de bruxas tipicamente brasileiras vêm desaparecendo gradativamente. Hoje, elas se confundem com as personagens popularizadas por Walt Disney ou pelos livros de histórias infantis, que apresentam contos universais como João e Maria, Branca de Neve e A Bela Adormecida.

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