Em efeito cascata, disparada do diesel afeta a economia global

O Estado de S. Paulo

 

Os agricultores estão gastando mais para manter os tratores e as colheitadeiras funcionando. As empresas de transporte marítimo e rodoviário de cargas estão repassando os custos maiores para os varejistas, que estão começando a repassá-los aos consumidores. E os governos locais estão pagando centenas de milhares de dólares a mais para abastecer os ônibus escolares. As despesas do setor de construção também podem aumentar em breve.

 

O motivo é o aumento repentino no preço do diesel, que silenciosamente prejudica a economia mundial, forçando a alta da inflação e pressionando as cadeias de suprimentos, das fábricas ao varejo. É mais um efeito da guerra na Ucrânia. A Rússia é um grande exportador de diesel e de petróleo bruto, a partir do qual o diesel é produzido nas refinarias.

 

Os donos de automóveis nos EUA ficaram chocados com os preços da gasolina a mais de US$ 4 o galão, mas houve um aumento ainda maior no diesel, que tem papel fundamental na economia global, pois abastece tanto veículos quanto equipamentos. Um galão de diesel está sendo vendido por US$ 5,19 em média nos EUA, ante US$ 3,61 em janeiro.

 

Os postos de combustíveis na Argentina começaram a racionar diesel, colocando em risco um dos principais produtores agrícolas do mundo, e analistas de energia alertam que o mesmo pode acontecer em breve na Europa, onde algumas empresas relatam estar gastando duas vezes mais com diesel agora do que no ano passado.

 

A disparada dos preços está colocando uma pressão imensa nas empresas de transporte rodoviário, principalmente nas menores, que já sofriam com a escassez de motoristas e de peças de reposição. Muitas delas podem repassar o aumento dos custos com o combustível para seus clientes somente depois de algumas semanas ou meses.

 

Impacto no consumo

 

Mais cedo ou mais tarde, os consumidores sentirão o efeito dos preços mais altos em todos os tipos de mercadorias. Embora seja difícil de mensurar, a inflação será mais perceptível em produtos caros, como automóveis ou eletrodomésticos, segundo os economistas.

 

“Na verdade, tudo que compramos pela internet ou em uma loja passa por um caminhão em algum momento”, disse Bob Costello, economistachefe da Associação Americana de Transporte Rodoviário.

 

Os fabricantes também usam bastante o diesel, levando a preços mais altos para seus produtos. O preço dos alimentos aumentará porque os equipamentos agrícolas normalmente são à base de diesel.

 

“Não se trata apenas do combustível que usamos em picapes, tratores, colheitadeiras”, disse Chris Edgington, produtor de milho de Iowa. “Também há o custo de transportar esses produtos para a fazenda e para outros lugares.”

 

No início da pandemia, o preço do diesel caiu vertiginosamente à medida que a economia global desacelerou, as fábricas interromperam as atividades e as lojas fecharam. Mas, desde o começo de 2021, houve uma recuperação conforme o tráfego de caminhões e trens foi retomado. Os preços, que aumentaram quase sem parar em 2021, ficaram ainda mais altos desde janeiro, quando a Rússia reuniu tropas perto da Ucrânia antes da invasão. Os baixos estoques do combustível, sobretudo na Europa, aumentaram a pressão sobre os preços.

 

“O diesel é o produto mais suscetível e cíclico da indústria do petróleo”, disse Hendrik Mahlkow, pesquisador do Instituto Kiel para a Economia Mundial, na Alemanha. “A alta dos preços será distribuída por toda a cadeia de valor.”

 

As refinarias, que transformam petróleo bruto em combustíveis, tentaram ficar em dia com a demanda em ambos os lados do Atlântico nos últimos meses. Mas não foram capazes de produzir mais diesel, gasolina e combustível de aviação com rapidez suficiente. Isso se deve em parte porque refinarias foram fechadas na Europa e na América do Norte nos últimos anos, e a maior parte dos combustíveis do mundo agora está sendo refinada na Ásia e no Oriente Médio.

 

A Europa está vulnerável por depender da Rússia para cerca de 10% de seu diesel. A própria produção de diesel da Europa também depende da Rússia, grande fornecedora de petróleo bruto para o continente. Alguns analistas dizem que a Europa talvez tenha de racionar diesel a partir deste mês.

 

Crescimento revisado

 

O diesel e a dependência da Alemanha da energia russa estavam entre os fatores que levaram o Conselho de Especialistas Econômicos da Alemanha, na quarta-feira, a reduzir sua projeção de crescimento para 2022 em mais da metade, para 1,8%.

 

O diesel russo continua chegando à Europa mesmo após a invasão da Ucrânia, mas comerciantes, bancos, seguradoras e transportadoras estão se afastando cada vez mais do diesel, do petróleo e de outros produtos exportados pelo país.

 

Várias petrolíferas europeias anunciaram que estão deixando a Rússia. A Totalenergies, gigante petrolífera francesa, disse em 22 de março que deixaria de comprar diesel e petróleo russos até o fim do ano.

 

O mercado de petróleo e diesel é global, e as empresas geralmente podem encontrar outra fonte se seu principal fornecedor não puder atendê-las. No entanto, nenhuma petrolífera ou país pode compensar de forma rápida a perda da energia russa. (O Estado de S. Paulo/Jack Ewin e Clifford Krauss, tradução de Romina Cácia)