Indústria vê vendas de máquinas agrícolas fortes mesmo com impasse no Plano Safra

Portal Forbes/Reuters

 

O agronegócio se prepara para a chegada do próximo Plano Safra, possivelmente, sem grandes avanços no crédito rural, mas a indústria de máquinas acredita que isso não deve inibir a forte demanda por tratores e colheitadeiras que paira sobre o setor e tende a perdurar ao longo do ano.

 

Representantes da indústria ouvidos pela Reuters afirmam que o volume de recursos para financiamento de máquinas e equipamentos pela linha Moderfrota se esgotaram no fim do ano passado. Mesmo assim, produtores mais capitalizados pela alta das commodities seguem com avidez nas compras.

 

“O recurso próprio aumentou porque a supersafra (de grãos) e o câmbio favoreceram. O ‘barter’ também está crescendo… Mesmo que venham adversidades no Plano Safra… quem quiser comprar máquinas vai comprar”, disse o diretor-executivo da Abag (Associação Brasileira do Agronegócio), Eduardo Daher.

 

Ele afirmou que “qualquer brasileiro já sentiu que existe um tremendo déficit fiscal no governo”, em função dos gastos decorrentes da pandemia da Covid-19, por isso o setor agrícola já está atento a outras formas de arcar com os investimentos.

 

“Acho que vão procurar enfatizar alternativas de financiamento, isso está absolutamente claro”, acrescentou.

 

O momento é de incertezas para o Plano Safra, uma vez que o Congresso Nacional aprovou a Lei Orçamentária Anual (LOA) com cancelamentos de recursos que totalizam R$ 2,5 bilhões. A medida resultou em diretriz do Ministério da Economia para a suspensão, pelos bancos, de novas contratações de financiamentos subvencionados do programa 2020/21, além de atrapalhar as discussões do programa 2021/22.

 

Na indústria

 

O presidente da AGCO América do Sul, Luis Felli, disse à Reuters que além do alto nível de capitalização do agricultor, muitos negócios têm sido fechados com o auxílio da linha de crédito rural do BNDES.

 

“Estamos sem Moderfrota desde o ano passado e acho que isso (Plano Safra) não deve impactar a demanda”, afirmou o executivo da companhia dona das montadoras Valtra e Massey Ferguson.

 

Fundamentado pela safra recorde de grãos do país e a visão de um ambiente “supercompetitivo” no comércio dos produtos agrícolas, o cenário é bastante promissor para aquisição de máquinas no ano inteiro.

 

“Se houver oferta suficiente, o mercado de máquinas agrícolas pode crescer até 30% no Brasil em 2021”, estimou, lembrando que a falta de peças durante a pandemia ainda tem limitado a entrega dos equipamentos.

 

Felli contou que a empresa tem todas as vendas fechadas com programação de entrega até outubro e precisou fechar a carteira de pedidos temporariamente, para poder atender a demanda.

 

Agora, a expectativa é que novos pedidos possam ser feitos somente a partir de julho, para entrega entre novembro e janeiro de 2022.

 

Na concorrência, o vice-presidente da New Holland Agrícola para América do Sul, Rafael Miotto, disse que o Moderfrota foi utilizado até novembro de 2020 e a partir de então as vendas seguiram por meio de consórcio, crédito direto ao consumidor e muitos negócios fechados com recursos próprios do produtor.

 

“A tendência é que o próximo Plano Safra cubra ainda menos do que o atual cobriu… Estimamos um mercado maior (em vendas), mas se o recurso que vier para 2021/22 for similar (ao de 20/21), ele pode acabar em outubro, durar menos tempo.”

 

Ainda assim, segundo Miotto, a companhia deve crescer entre 10% e 15% em volume de vendas neste ano, em linha com o avanço esperado para o mercado.

 

Ele alertou, porém, que o setor precisa estar preparado para um Plano Safra sem aumento no volume de recursos ou com juros mais elevados, e mesmo que o cenário seja promissor para a venda de tratores e colheitadeiras, em alguma medida, há preocupação com o tamanho do próximo Moderfrota devido à importância da linha para o financiamento dos produtores.

 

“Acho muito difícil não ter nenhum impacto que venha do Plano Safra, mas também acho muito difícil quantificar qual será esse impacto”, avaliou o diretor de vendas da John Deere Brasil, Marcelo Lopes.

 

Ele acrescentou que existem bases fortes para o mercado se manter aquecido, mas o financiamento sempre é um fator muito importante para a definição do cliente no mercado de máquinas.

 

A John Deere não divulga projeções específicas para o Brasil, mas espera que, na América do Sul, as vendas da indústria de tratores e colheitadeiras subam cerca de 20% em 2021 – acima da expectativa para vendas mundiais de equipamentos agrícolas, que devem aumentar de 10% a 15%.

 

Dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) mostram que as vendas de máquinas agrícolas já subiram 22,26% no Brasil no primeiro trimestre, impulsionada pelo desempenho favorável das commodities no país. (Portal Forbes/Reuters)