A indústria emperrada

O Estado de S. Paulo

 

O precário estado de saúde da economia brasileira foi mais uma vez confirmado pelo novo recuo da produção industrial em maio. Nesse mês, o quinto do governo Bolsonaro, o volume produzido foi 0,2% menor que o de abril e 1,4% inferior ao de dezembro. A continuada fraqueza da indústria combina com o desemprego muito alto, num país com 13 milhões de pessoas, ou 12,5% da força de trabalho, em busca de ocupação. Os números do consumo familiar em maio serão divulgados na próxima semana. Em abril, o comércio varejista vendeu 0,6% menos que em março, depois de dois meses de estabilidade em nível muito baixo. Os dados do mês seguinte dificilmente devem ter sido muito melhores, a julgar pelo número de pessoas desocupadas, subempregadas e desalentadas, cerca de 25 milhões.

 

Em maio, 18 dos 26 segmentos pesquisados produziram menos que em abril. O cenário da indústria geral continua feio quando as comparações envolvem períodos mais longos. O volume acumulado de janeiro a maio foi 0,7% menor que o total de janeiro a maio do ano passado. O acumulado em 12 meses ficou estável, isto é, com variação zero, no confronto com os 12 meses anteriores. Há um dado positivo, no entanto, quando a base de comparação é maio de 2018.

 

Nesse caso, há uma variação positiva de 7,1%. Mas a base é um mês fortemente afetado pela paralisação do transporte rodoviário, mais conhecida como greve dos caminhoneiros.

 

O balanço da atividade industrial em maio também confirma o diagnóstico do Banco Central (BC): a recuperação econômica iniciada em 2017 e mantida ainda em boa parte de 2018 foi interrompida. A interrupção se manteve depois do desastroso primeiro trimestre deste ano, quando o Produto Interno Bruto (PIB) foi 0,2% inferior ao dos três meses finais, já muito fracos, de 2018.

 

A trava na recuperação seria menos preocupante, talvez, se a economia houvesse recuado menos durante a recessão de 2015-2016, ou, no caso da indústria, no longo período iniciado já antes da recessão. Só na fase recessiva, no entanto, o PIB diminuiu cerca de 7%, e nem essa rampa foi escalada de volta pela economia brasileira a partir de 2017.

 

Números muito ruins aparecem quando se comparam os dados do trimestre móvel encerrado em maio deste ano com alguns períodos de pico da atividade industrial. No caso da indústria geral, a produção do último trimestre móvel ficou 17,5% abaixo do pico da série histórica, encerrado em maio de 2011. Falta um difícil trajeto para o mero retorno a um patamar alcançado no primeiro ano do mandato inicial da presidente Dilma Rousseff.

 

No caso dos bens de consumo duráveis, como eletrodomésticos, móveis e carros, a diferença entre o último trimestre examinado e o mais alto da série, terminado em junho de 2013, é de 25,6%. A queda acelerou-se a partir dos meses finais de 2014 e o fundo foi atingido no começo de 2016. A partir daí houve recuperação, interrompida já em 2018.

 

O maior tombo ocorreu na produção de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos. No trimestre findo em maio deste ano o volume fabricado ficou 32,9% abaixo do registrado na fase do recorde, terminada em setembro de 2013. É preciso levar em conta essa queda considerável, antes de avaliar os números do período de recuperação. A produção de bens de capital cresceu 0,5% em maio. No ano, foi 1,9% maior que a de janeiro a maio do ano passado. Em 12 meses, acumulou expansão de 4,2%, mas, apesar desses dados positivos, o quadro ainda é muito ruim. A trajetória a partir de 2013 mostra um enorme recuo na ampliação e na renovação do parque produtivo.

 

Sem a reversão desses dados, a capacidade de produção e de crescimento continuará muito limitada. Isso equivalerá a um poderoso freio imposto à economia, a seu poder de competição internacional e à sua capacidade criadora de empregos decentes. O investimento verificado nos últimos dois anos só pode ter sido para a reposição inadiável de bens de produção. Será preciso muito mais para dinamizar o País. (O Estado de S. Paulo)