Aliança com Renault “não está em perigo” pela prisão de Carlos Ghosn, diz presidente da Nissan

Revista Auto Esporte/ Agência AFP

 

A aliança entre a Renault e a Nissan não está em perigo por conta da prisão de Carlos Ghosn, garantiu Hiroto Saikawa, presidente da Nissan, em entrevista nesta segunda-feira (7). O brasileiro Ghosn era presidente e criador da aliança que reunia as duas montadoras e a Mitsubishi, quando foi preso em 19 de novembro em meio a investigações de crimes financeiros no Japão.

 

Na entrevista à agência de notícias AFP, Saikawa não quis, porém, falar sobre o futuro de Ghosn, que foi seu mentor. Detido em Tóquio por suspeita de fraude, Ghosn comparecerá pela primeira vez à Justiça, nesta terça-feira (8).

 

Tanto a Nissan quanto a Mitsubishi afastaram Ghosn da presidência, após sua detenção. Já a Renault decidiu mantê-lo como conselheiro, por enquanto, invocando a presunção de inocência. “O sistema judicial japonês segue seu curso. Não tenho nada a dizer. Quero apenas me concentrar na estabilização da companhia e fazê-la avançar passo a passo”, disse Saikawa, na primeira entrevista a um veículo de imprensa estrangeiro desde que o caso explodiu.

 

O presidente, de 65 anos, um dos homens de confiança de Ghosn, surpreendeu com suas duras palavras após a prisão, em 19 de novembro passado. Saikawa garante estar em contato “quase diário” com a Renault, apesar das tensões.

 

Já Anthony Ghson, filho de Carlos Ghosn, afirmou ao jornal francês Journal du Dimanche que a justiça japonesa ofereceu a liberdade ao seu pai, contanto que ele assine uma confissão em japonês. Anthony assegurou que seu pai está “disposto a se defender” perante um tribunal de Tóquio na próxima terça-feira.

 

“O paradoxal, é que a confissão está escrita apenas em japonês”, enquanto “ele não fala este idioma”, reclamou o filho. Ele pode “dizer ao promotor que rejeita as acusações contra ele, ou confessar e ser libertado. Há sete semanas, sua decisão é bastante clara”, ressaltou.

 

“Não tenho nenhuma notícia direta dele, tenho apenas por meio de seus advogados japoneses. Está em boa forma. Está disposto a se defender energicamente, e está muito focado em responder às acusações contra ele”, disse o jovem de 24 anos, que falou pela primeira vez com a imprensa.

 

A audiência “será muito importante”, acrescentou. “Pela primeira vez, poderá falar sobre os fatos da acusação, expressar sua visão. Acho que todos ficarão muito surpresos ao ouvir sua versão da história. Até agora, só ouvimos a acusação falar. Terá dez minutos para falar e não vai desistir”, acrescentou Anthony Ghosn.

 

Na sexta-feira, os advogados de Ghosn fizeram um pedido especial para que seu cliente pudesse comparecer à corte e tomar conhecimento por parte da Procuradoria, publicamente, dos motivos de sua detenção. O pedido foi feito com base em um dispositivo especial do artigo 34 da Constituição japonesa. O tribunal não pode rejeitá-lo.

 

Segundo o seu filho, “ele resiste, ainda que tenha perdido cerca de dez quilos comendo três bowls de arroz por dia. As condições não são muito saudáveis. Mas ele assume tudo isso como um desafio e lê livros que enviamos quase todos os dias”.

 

Detido em 19 de novembro e ainda preso, Ghosn está obrigado a se manter em silêncio, e seus advogados não podem assistir aos interrogatórios, nem têm acesso às provas do caso. Na última segunda, o tribunal de Tóquio decidiu prorrogar sua detenção por mais dez dias, até 11 de janeiro, no âmbito de um novo mandado de prisão por suspeitas de fraude.

 

Ghosn é acusado de ter feito a Nissan acobertar “perdas em investimentos pessoais” durante a crise financeira de outubro de 2008, o que ele nega, segundo seus advogados citados pela imprensa japonesa. A quantia em jogo chega a cerca de 16,6 milhões de dólares, o equivalente a R$ 61,4 milhões.

 

Para resolver este problema financeiro, teriam conseguido que um amigo da Arábia Saudita o avalizasse e teria feito transferências por uma quantia equivalente na conta deste último, partindo de uma conta de uma filial da Nissan.

 

Este tipo de delito normalmente prescreve ao fim de sete anos, mas a lei permite suspender o correr do relógio durante as estadas no exterior – várias no caso de Ghosn, que passava apenas um terço do tempo no Japão.

 

Segundo a imprensa, a Procuradoria também suspeita de que Ghosn tenha movimentado cerca de R$ 166 milhões (cerca de 45 milhões de dólares) da Nissan para seus “contatos” no Líbano e em outros países. Ghosn também está detido por uma primeira acusação de suspeita de sonegação de renda nos relatórios anuais da Nissan entregues às autoridades financeiras.

 

Sua mão direita, o executivo americano Greg Kelly, administrador da Nissan, detido em 19 de novembro no Japão junto com Ghosn, foi solto no dia de Natal. Em paralelo, a administração da aliança Renault-Nissan se encontra em dificuldades. (Revista Auto Esporte/ Agência AFP)