Brasil passa a ser 4º maior destino de investimento, mas incerteza política é ameaça

O Estado de S. Paulo

 

Contrariando a tendência internacional, o Brasil sobe no ranking dos principais destinos de investimentos do mundo e, em 2017, passa a ocupar a quarta posição entre os maiores receptores. Mas a incerteza das eleições presidenciais pode afetar esse desempenho em 2018, com uma possível estagnação ou mesmo queda do fluxo.

 

Dados publicados nesta quarta-feira pela Conferência da ONU para Desenvolvimento e Comércio da ONU apontam que apenas EUA, China e Hong Kong superaram o Brasil no ano passado.

 

De uma forma geral, os investimentos no mundo caíram em 23% em 2017, em comparação a 2016. No total, o fluxo chegou a US$ 1,4 trilhão. O principal motivo foi a redução em casos de aquisições. O tombo apenas não foi maior por conta dos países emergentes. Nas economias ricas, a contração foi de 37%.

 

Nos EUA, a redução foi de 40%, contra 92% no Reino Unido. Hoje, os emergentes já absorvem 47% de todo o fluxo de investimentos do mundo e, dos dez principais destinos de aplicações, cinco são emergentes.

 

Os EUA continuam como os maiores receptores de investimentos, com US$ 275 bilhões. A China vem em segundo lugar, com US$ 136 bilhões. Na terceira posição, Hong Kong aparece com US$ 104 bilhões.

 

Mas a quarta posição passou a ser do Brasil, superando Cingapura e Holanda. No total, o Brasil somou US$ 63 bilhões, contra US$ 58 bilhões em 2016. A alta de 8% permitiu que o País passasse da 7a para a 4a posição no ranking. Em 2017, portanto, nenhum país europeu recebeu o mesmo volume de investimentos que o Brasil.

 

No total, a América Latina ainda somou investimentos de US$ 151 bilhões, a primeira alta em seis anos. Ainda assim, os níveis ainda não atingiram a marca de 2011.

 

Mesmo no Brasil, o patamar de 2017 ainda não foi sequer o que o País havia obtido em 2015, com US$ 64 bilhões em investimentos e outros US$ 73 bilhões em 2014.

 

Mas, depois de uma queda em 2016, o fim da recessão no Brasil foi um dos motivos da volta dos investimentos, além do fluxo de recursos para o setor de energia.  No ano passado, nove das dez maiores aquisições estrangeiras na América Latina ocorreram no Brasil. Sete delas envolveram chineses, principalmente no setor de eletricidade, petróleo, infraestrutura e empresas do agronegócio.

 

A chinesa MNE State Grid pagou US$ 4,4 bilhões pela CPFL Energia SA e, no setor de energia, o volume mais que triplicou, para US$ 12,6 bilhões. No setor de transporte e armazenamento, o volume de investimentos quadruplicou para US$ 6,6 bilhões, contra US$ 3,2 bilhões no setor químico.

 

De acordo com a ONU, esses “grandes aumentos foram em parte compensados por quedas na indústria extrativista, com queda de 33%, financeira, imobiliária (-25%) e automotivo (-40%)”.

 

No petróleo, o País atraiu um total de US$ 3,7 bilhões em 2017, com uma queda de 12% em comparação a 2016. Mas, ainda assim, a ONU estima que o setor “vai ter um papel chave na recuperação econômica”.

 

Projeção

 

Para 2018, as estimativas apontam para incertezas causadas pelo clima político no Brasil e as eleições presidenciais. Na avaliação da entidade, o crescimento económico da América Latina terá “muitos riscos, incluindo as incertezas políticas e econômicas associadas com eleições na Colômbia, México e Brasil”.

 

Para 2018, a previsão é de um crescimento frágil também em todo o mundo. Se houver uma expansão do fluxo de investimentos, ela será de apenas 10%, abaixo da média mundial dos últimos dez anos. Incertezas policias e maior tensão comercial podem afetar ainda os planos de empresas e a reforma fiscal nos EUA também deve ter um impacto no destino dos recursos das multinacionais.

 

No caso da América Latina, a projeção é de que esse cenário terá um preço e o volume de investimentos caia para US$ 140 bilhões em 2018.

 

Outra constatação da ONU é que o investimento de empresas brasileiras no exterior continua sendo negativa, em US$ 1,4 bilhão. Isso significa uma retração da exposição internacional das companhias nacionais, depois de anos de aquisições e investimentos no exterior.

 

Também pesou a retração das empresas brasileiras que ateavam na América Latina, depois da onda de escândalos de corrupção afetando as construtoras nacionais. Em 2016, o desinvestimento brasileiro no exterior chegou a ser de US$ 7 bilhões. Agora, a retirada das empresas brasileiras do cenário internacional poderia estar começando a perder força. (O Estado de S. Paulo/Jamil Chade)