A disparada do petróleo

O Estado de S. Paulo

 

Os preços do petróleo voltaram a galopar. Desde junho de 2017 subiram 56%. Ontem, as cotações do barril tipo Brent (do Mar do Norte) ultrapassaram os US$ 80, embora fechadas a US$ 79,30. O gráfico ao lado dá noção da evolução dos preços.

 

Essa disparada só em parte tem a ver com a decisão da Opep, tomada em outubro de 2016, de cortar em 1 milhão de barris as exportações do cartel. São dois os fatores novos que a produziram. O primeiro é a denúncia pelo presidente Trump do acordo nuclear dos Estados Unidos com o Irã, que deve voltar a impor bloqueio comercial e, portanto, suspender exportações de cerca de 2,5 milhões de barris diários por parte do Irã. E o outro, a quebra de produção de petróleo pela Venezuela em consequência dos graves problemas enfrentados pela economia e dificuldades da PDVSA (a estatal petroleira do país).

 

O consumo mundial se aproxima dos 100 milhões de barris diários e a quebra de 2,5% na oferta global tende a produzir enorme desequilíbrio no mercado, pois produz corrida à formação de estoques.

 

A escalada tem potencial inflacionário nos Estados Unidos e no resto do mundo, pelo seu impacto não só nos combustíveis, mas, também, nas tarifas de energia elétrica, uma vez que mais de 40% da matriz de energia elétrica global ainda depende da queima de derivados de petróleo e gás.

 

Do ponto de vista da economia brasileira, essa alta vem com sinais antagônicos. Algum impacto inflacionário parece inevitável, tanto pelo aumento dos preços dos combustíveis (e do transporte) quanto por alguma transmissão da inflação externa para dentro do País, por meio das importações.

 

Mas do ponto de vista fiscal é positiva, por duas razões: valoriza as reservas de petróleo do Brasil e deve aumentar os prêmios dos próximos leilões de áreas; e, segunda, porque o aumento de preços eleva não só o valor dos royalties aos Estados, mas também a arrecadação, na medida em que o ICMS sobre os preços dos combustíveis tem grande peso nas receitas estaduais.

 

Não dá para prever até onde vai essa alta nem a partir de quando deverá reverter-se. Depende muito de como evoluirá a crise dos Estados Unidos com o Irã, país que produz cerca de 5 milhões de barris diários, dos quais apenas 2 milhões vão para consumo interno.

 

A médio prazo preços tão elevados tendem a colocar em produção não só poços desativados antes considerados não competitivos, mas, também, novos campos de produção de petróleo de xisto, especialmente nos Estados Unidos.

 

A atual política da Petrobrás consiste em repassar ao consumidor os preços internacionais em dólares convertidos em reais. Isso significa que os derivados do petróleo sofrem duplo impacto altista: o das cotações do petróleo e o das cotações do dólar no câmbio interno.

 

Já começou a gritaria dos caminhoneiros, que queimam óleo diesel todos os dias. Pretendem que a Petrobrás volte a subsidiar os preços. Trata-se de um pleito inviável, porque sangra o caixa da estatal e ainda impede a obtenção de novos sócios para as refinarias que têm de ser construídas. Outra opção seria derrubar os impostos, principalmente o ICMS. Mas aí, os principais prejudicados seriam os Estados. (O Estado de S. Paulo/Celso Ming)