O trabalho em mutação

O Estado de S. Paulo

 

O protecionismo econômico apenas raramente não foi um erro. O defendido agora por tantos dirigentes mundiais está ainda mais errado porque se baseia no pressuposto de que uma indústria superprotegida garante os empregos que tendem a migrar para outros países.

 

É o que prega, por exemplo, o presidente eleito dos Estados Unidos. Ele pressiona as montadoras de veículos a não se transferirem para o México e imagina que, se intimar a Apple a transferir para os Estados Unidos subsidiárias que mantém na Irlanda, também abrirá postos de trabalho para trabalhadores americanos: “Serei o maior criador de empregos que Deus já criou” – declarou Donald Trump dia 11, em sua primeira entrevista à imprensa depois de eleito.

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Na condição de empresário, Trump deve saber que, especialmente nos Estados Unidos, a retomada da atividade econômica se fará com enorme dispensa de mão de obra. Não são os chineses que estão roubando postos de trabalho em todo o mundo. A dispensa de mão de obra é consequência da nova arrumação do sistema produtivo. Não acontece apenas porque a indústria está se robotizando. Acontece, também, porque a tecnologia de quarta geração é altamente poupadora de mão de obra.

 

As operações dos bancos são cada vez mais eletrônicas, com menos agências e menos pessoal. Não é à toa que o prefeito de São Paulo quer transformar antigas agências bancárias em creches. O comércio eletrônico está dispensando lojistas e almoxarifes. Nos Estados Unidos, caminhões começam a rodar sem motorista e as próprias montadoras preveem que, em quatro anos, os veículos sem condutor estarão disseminados.

 

Essa é uma tendência sem volta, especialmente no Brasil, onde as encrencas trabalhistas e a arbitrariedade da Justiça do Trabalho vêm empurrando o empresário à maior automação.

 

Há nove dias, o reconhecido especialista italiano em trabalho Domenico de Masi advertiu em entrevista ao jornal Valor que, em apenas dez anos, o trabalho humano estará sendo substituído pelas máquinas, pelo computador, pelos aplicativos e pela inteligência artificial.

 

A revolução do trabalho produzirá consequências graves que não poderão ser enfrentadas apenas com impulsos protecionistas e secreções hepáticas.

 

Entre essas consequências está o desmantelamento das atuais formas de financiamento dos sistemas de previdência, hoje quase inteiramente baseadas no emprego. Outra será o forte aumento do tempo de ociosidade do cidadão e, outra ainda, a inevitável perda de importância dos sindicatos.

 

Quarta consequência: ficarão desmontados os mecanismos de apropriação e distribuição de renda, que hoje se fazem majoritariamente pelo trabalho. Para enfrentar esse problema, a Finlândia passou a testar uma política de renda básica. São 560 euros mensais a pelo menos 2 mil finlandeses. A cidade de Utrecht, na Holanda, começou em 2016 a distribuir salário mínimo de 900 euros a 1,3 mil euros para cada cidadão. No ano passado, a Suíça rejeitou em plebiscito proposta parecida. Soluções desse tipo exigirão receitas tributárias adicionais.

 

Enfim, estamos diante de um mundo novo que, no entanto, vem sendo ignorado tanto pelas nossas elites dirigentes quanto pelos sindicatos.

 

A revolução do sistema produtivo deverá provocar profundas alterações na ética do trabalho. No passado, o trabalho foi tarefa relegada a servos e escravos ou, quando executada por homens livres, encarada como castigo: “Comerás teu pão com o suor do teu rosto” – disse o Senhor depois do pecado de Adão e Eva (Gênesis, 3).

 

No Ocidente, as ordens religiosas encararam o trabalho como ascese e desenvolvimento espiritual: “Ora et labora” é o lema dos beneditinos.

 

A Reforma Protestante produziu uma reviravolta. O enriquecimento produzido pelo trabalho passou a ser visto como parte do acordo entre Deus e o crente. Foi o que impulsionou o capitalismo, como explica o sociólogo alemão Max Weber, em ‘A Ética Protestante e o Espírito Capitalista’.

 

Mas esta não é característica puramente ocidental. Quem no Brasil convive com japoneses, coreanos e outros imigrantes sabe que valor transformador dão eles ao trabalho.

 

Esse ethos estará sujeito a profundas transformações quando o trabalho perder a importância que hoje ainda tem. (O Estado de S. Paulo/Celso Ming)