Ford deixa donos de Fusion esperando meses por reparo em caixa de direção

UOL Carros

 

Receber um aviso de recall não é nada agradável: além de ter que levar o carro a uma concessionária para conserto, em procedimento que às vezes demanda um dia inteiro (se não mais), há também a insegurança de saber que se está rodando com um veículo com potencial de apresentar a falha que motivou a convocação.

 

Mas acredite: dá para ficar pior. Alguns proprietários do Ford Fusion de geração passada, ano-modelo 2011 e 2012, estão sentindo isso na pele – em caso que remete ao que ocorreu no ano passado com clientes de Honda e Toyota, por conta dos airbags da Takata.

 

Em julho do ano passado, a marca iniciou um chamado envolvendo 14.730 unidades para atualização do módulo eletrônico ou, em casos mais extremos, troca de toda a caixa de direção. A razão: uma possível falha poderia levar a assistência elétrica a parar de funcionar, deixando o volante “pesado”, podendo até travar.

 

Passado quase um ano e meio, ainda há exemplares que não passaram pelo reparo (afinal, conforme UOL Carros já contou, menos de um terço dos automóveis em recall no Brasil participam efetivamente das campanhas).

 

Falta de peça

 

O problema é que muita gente que levou seu veículo à loja teve de aguardar (ou ainda está esperando) pela chegada das peças – vindas do México, assim como o próprio modelo – necessárias para solução definitiva do problema.

 

É quase questão de “sorte”: se o mecânico constatar que a direção está funcionando direito, vai fazer só a atualização e em meia hora o cliente está liberado. Se a falha já se manifestou, será necessária a substituição da caixa inteira, algo que tem demorado meses para ocorrer.

 

É nessa última situação que o consumidor fica sem carro e a assistência devida.

 

Direção travada, carro parado

 

Simone Bello, jornalista de Curitiba, está com seu Fusion 2012 parado numa concessionária há mais de 100 dias. Ela só descobriu o problema porque, em agosto deste ano, a direção travou enquanto voltava de uma viagem.

 

“Eles não disponibilizaram carro reserva e levaram 85 dias até me ligar para dizer que estava arrumado”, relata.

 

Arrumou mesmo? Duas horas após recuperar o veículo, a direção voltou a travar enquanto a jornalista levava os filhos à escola e o veículo teve de regressar à oficina, onde segue até hoje. O caso foi parar na Justiça. “Eles colocaram em risco a segurança minha e de meus filhos”, reclama.

 

Cleison Cataneo, funcionário público de Francisco Beltrão, também no Paraná, fez a atualização de software no final de 2015. Em outubro deste ano, contudo, a direção ficou pesada e ele teve de retornar à loja. “Estou aguardando pela chegada das peças há mais de 30 dias e sei de gente que está à minha frente na fila esperando há pelo menos dois meses”, conta.

 

Os casos não são isolados. Antonio Curiel, técnico têxtil em Amparo (SP), teve o problema diagnosticado em 10 de agosto. O reparo só ocorreu em 14 de novembro, 96 dias depois. O mais grave é que, na primeira consulta, o concessionário o autorizou a continuar rodando com o veículo, que só foi recolhido de vez em 2 de outubro, quando a direção travou de vez.

 

Em conversa com UOL Carros, outros clientes relataram que seus Fusion estão parados há 30, 45, 90 dias… No site Reclame Aqui, a Ford é disparada a campeã de reclamações sobre recall entre as montadoras, ficando atrás apenas da Samsung no geral. Além do Fusion, outros clientes relatam demora para o conserto da embreagem do EcoSport.

 

Procurada, a assessoria da montadora não encaminhou uma resposta explicando os motivos da demora até a publicação desta reportagem.

 

Perigo e falta de planejamento

 

Para Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da Proteste (organização de defesa do consumidor), a situação demonstra falta de planejamento por parte da fabricante. “A empresa tem que se preparar antecipadamente para atender à demanda do recall e informar adequadamente ao consumidor sobre procedimentos e prazos”, argumenta.

 

“As pessoas estão correndo riscos, o que é bastante grave. A Ford erra ao liberar a utilização dos carros antes do conserto. Se acontecer algum acidente por causa do problema, a companhia terá de ser responsabilizada”, continua.

 

Segundo Maria Inês, outro erro da montadora está em não oferecer alternativas para quem está com o automóvel parado. “Eles teriam que disponibilizar pelo menos um carro reserva, que é como prevê a legislação”, aponta.

 

O que fazer

 

Carlos Simetta, coordenador do Procon-SP, orienta que, ao constatar que nenhuma esfera administrativa da empresa conseguiu resolver o problema, o consumidor deve levar o caso aos órgãos de defesa do consumidor para ser orientado quanto aos procedimentos judiciais.

 

“Seja quanto à demora no atendimento ou a dificuldades de reparo, o consumidor deve guardar os protocolos de atendimento e documentos que comprovem a irregularidade para formalizar a reclamação”, explica.

 

Maria Inês Dolci completa: “O consumidor precisa denunciar para os órgãos de defesa e também ao Ministério Público. Só assim será possível mensurar a extensão do problema e cobrar institucionalmente algo da fabricante”, conclui. (UOL Carros/Leonardo Felix)