{"id":54894,"date":"2024-09-04T14:55:00","date_gmt":"2024-09-04T17:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dana.com.br\/veteranos\/?p=54894"},"modified":"2024-09-04T14:55:00","modified_gmt":"2024-09-04T17:55:00","slug":"vicente-perbelini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dana.com.br\/veteranos\/vicente-perbelini\/","title":{"rendered":"Vicente Perbelini"},"content":{"rendered":"<p>Se tem uma coisa que muda o dia de Vicente Perbelini \u00e9 quando chega um comunicado da equipe de veteranos da Dana. Participar dos eventos, rever amigos, e lembrar os tempos do ch\u00e3o de f\u00e1brica \u00e9 uma de suas alegrias. \u201cA Dana merece os parab\u00e9ns por proporcionar esses momentos. Motiva demais saber que a gente nunca \u00e9 esquecido\u201d, elogia. O desejo de pertencer e se sentir acolhido tem a ver com a trajet\u00f3ria de vida dif\u00edcil de um homem simples, que sonhou ser padre e acabou abra\u00e7ando a f\u00e9 como uma arma para vencer in\u00fameros desafios.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando do in\u00edcio: Vicente Perbelini nasceu no Hospital Dr. Francisco Ribeiro Arantes, tamb\u00e9m conhecido como col\u00f4nia-asilo de Pirapitingui, na cidade de Itu, um dos maiores lepros\u00e1rios do Brasil.\u00a0Seus pais estavam no hospital sob tratamento. L\u00e1 se conheceram, casaram e tiveram cinco filhos. Como mandavam as medidas restritivas para os doentes de hansen\u00edase naquela \u00e9poca, os filhos logo que nasciam eram transferidos para abrigos infantis. Assim, Vicente e os irm\u00e3os, ainda beb\u00eas, foram transferidos para o Orfanato Igreja Santa Tereza, em Carapicu\u00edba, na grande S\u00e3o Paulo. Os pais tinham direito de visitar os filhos eventualmente por alguns minutos, por causa do risco de cont\u00e1gio. Vale um par\u00eantese para lembrar que hoje a hansen\u00edase tem cura, o tratamento \u00e9 oferecido gratuitamente pelo SUS, seja por meio das Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade (UBS) e muitos dos estigmas relativos \u00e0 doen\u00e7a, felizmente, ficaram para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Mas voltando \u00e0 inf\u00e2ncia do Vicente, os anos de orfanato chegaram ao fim quando ele completou 11 anos. Seus pais j\u00e1 estavam curados e conseguiram uma casa em Jundia\u00ed para reunir a fam\u00edlia. S\u00f3 ent\u00e3o Vicente pode desfrutar de uma vida familiar, frequentar uma escola e iniciar o processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. A entrada no mundo profissional come\u00e7ou cedo, como acontecia naqueles tempos nas fam\u00edlias com poucos recursos. As confec\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o terceirizavam o acabamento de roupas, sapatos, uniformes e fardas para costureiras da vizinhan\u00e7a. Essas, por sua vez, buscavam crian\u00e7as pelo bairro para ajudar nos ajustes e colagens. Vicente tinha 12 anos e j\u00e1 engatou na jornada do trabalho. Aos 14 foi admitido em uma loja de m\u00f3veis, como office-boy; aos 16, em uma serralheria. O ent\u00e3o patr\u00e3o, Nelson Facchini foi respons\u00e1vel por uma guinada na vida incerta de Vicente. Vendo sua habilidade no manejo das serras e soldas, conseguiu para ele uma vaga de aprendiz no Senai e mais tarde batalhou para que Vicente chegasse a uma das maiores empresas da cidade na \u00e9poca, a Sifco. E l\u00e1 foi Vicente, viver o melhor cap\u00edtulo de sua hist\u00f3ria. \u201cO seu Nelson foi meu segundo pai, me encaminhou na profiss\u00e3o, sou muito agradecido a ele\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>Aos 17 anos, ele entrou para a Matrizaria, como mec\u00e2nico de ajustagem. Fez curso de desenho t\u00e9cnico, torno e em pouco tempo conseguiu uma vaga no setor de Dispositivo, onde ajustava os calibradores e cuidava com todo zelo das caixas de prensas, cabe\u00e7as de eixo e sapatas. Nunca faltou, jamais chegou atrasado, foi cipeiro por mais de 10 anos e um funcion\u00e1rio caprichoso do come\u00e7o ao fim de cada turno. Ficou na Sifco por 32 anos, at\u00e9 decidir que estava na hora de se dedicar integralmente ao pai, que idoso, inspirava muitos cuidados.<\/p>\n<p><strong>Um atalho para o futuro<\/strong><\/p>\n<p>Nessa jornada aconteceu um fato crucial para os anos p\u00f3s aposentadoria. Um colega de trabalho da Matrizaria, Roberto Corr\u00eaa, pedia para que Vicente lhe ensinasse o of\u00edcio de serralheiro. Quase todos os dias, depois do turno do trabalho, eles seguiam para a casa de Corr\u00eaa e ali Vicente acabou se revelando um professor dedicado. Sem cobrar nada do amigo, seguiu ensinando t\u00e9cnicas, truques e macetes por meses a fio, at\u00e9 que Corr\u00eaa se sentisse seguro para montar a pr\u00f3pria oficina.<\/p>\n<p>Muitos anos depois, quando Vicente atravessava uma crise de depress\u00e3o pela perda do pai, ocorrida em 2009, Corr\u00eaa apareceu para uma visita de condol\u00eancia. Encontrou Vicente sozinho, tristonho, descuidado. A essa altura, o amigo de Sifco era um homem pr\u00f3spero, sua pequena serralheira tinha crescido, era uma empresa lucrativa e dado origem a mais dois neg\u00f3cios que hoje fornecem pe\u00e7as e insumos para v\u00e1rias ind\u00fastrias da regi\u00e3o. Consternado com a situa\u00e7\u00e3o do amigo, Corr\u00eaa o convidou para trabalhar. Vicente relutou quanto pode, mas acabou cedendo. Hoje \u00e9 o bra\u00e7o direito do patr\u00e3o. O primeiro a chegar na empresa e a deixar tudo preparado para a entrada dos trabalhadores. At\u00e9 do caf\u00e9 ele cuida, mesmo que para isso tenha que pular da cama ainda na madrugada.<\/p>\n<p>Durante o dia, a bordo do furg\u00e3o da caminhonete da empresa, corre de um lado a outro, de uma cidade a outra, entregando pe\u00e7as, atendendo clientes e apoiando Corr\u00eaa em todas as demandas. A parceria da juventude deu lugar a uma amizade de muita confian\u00e7a de lado a lado.<\/p>\n<p>Depois de muitas curvas perigosas e obst\u00e1culos na estrada da vida, Vicente se sente um homem realizado no volante do pr\u00f3prio destino. N\u00e3o se casou porque a namorada de anos n\u00e3o aceitava que o pai de Vicente morasse com o casal depois das bodas. Entre a futura noiva e o pai, ele preferiu a segunda op\u00e7\u00e3o e jamais se arrependeu de ter cuidado com todo amor do seu Ant\u00f4nio Perbelini at\u00e9 os 94 anos. Sim, ele desafiou todos os riscos da hansen\u00edase e teve vida longa e saud\u00e1vel. J\u00e1 m\u00e3e de Vicente, dona Deolinda, faleceu aos 58 anos de idade, mas de outras causas que nada tiveram a ver com a hansen\u00edase.<\/p>\n<p>Cercado de muitos amigos e vizinhos carinhosos, Vicente gosta do lugar e da casa onde mora com todo conforto. S\u00f3 n\u00e3o conseguiu realizar o sonho de ser padre, mas \u00e9 sacrist\u00e3o na par\u00f3quia Nossa Senhora Concei\u00e7\u00e3o, onde d\u00e1 total assist\u00eancia ao padre Jair e \u00e9 festejado pela comunidade por ser uma pessoa de luz, que distribui carinho e ora\u00e7\u00f5es por onde passa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele venceu a dist\u00e2ncia dos pais, a doen\u00e7a na fam\u00edlia e colocou toda sua energia no trabalho para garantir uma vida digna, com conforto, afeto e muita disposi\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":31,"featured_media":54913,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"class_list":["post-54894","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-veteranos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dana.com.br\/veteranos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54894","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dana.com.br\/veteranos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dana.com.br\/veteranos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dana.com.br\/veteranos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/31"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dana.com.br\/veteranos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54894"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/dana.com.br\/veteranos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54894\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54912,"href":"https:\/\/dana.com.br\/veteranos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54894\/revisions\/54912"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dana.com.br\/veteranos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54913"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dana.com.br\/veteranos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54894"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dana.com.br\/veteranos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54894"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}