Wilson

Andrade

Em sua casa no Morro Santa Tereza, cercado pela natureza, Wilson Andrade relembrou com alegria da sua trajetória de dezessete anos de Dana, quando conviveu com ótimos colegas, aprendeu muito e vivenciou experiências profissionais muito ricas e criou um círculo de grandes amigos. “A Dana é uma excelente escola – característica reconhecida no mercado de trabalho – e aprendi muito lá dentro”, diz.

Wilson começou sua caminhada na então Albarus através da Racine Hidráulica (ex Racine-Mensa), empresa criada por Paulo Cirne Lima, que era a principal concorrente da empresa onde ele atuava, em São Paulo. Wilson se formou em Engenharia Mecânica pela UFRGS em 1969 e, logo, foi trabalhar em São Paulo – nove meses depois, surgiria a vontade de voltar a Porto Alegre. “Fui designado para instalar uma filial da Trivelatto aqui e, na época, já conhecia a Racine. Alguns amigos meus estavam trabalhando na instalação da central telefônica na nova fábrica da empresa, sendo construída em Cachoeirinha nessa época”, relata. Um destes amigos comentou da vinda de Wilson ao Sul com Marco Aurélio Caleffi, que já conhecia o jovem engenheiro das feiras da mecânica. “Eles costumavam brincar, dizendo, ‘‘quero conhecer esse gaúcho que está na concorrência’’, e o Caleffi pediu para que eu fosse à Racine conversar com ele”, conta, rindo.

Wilson foi conversar com Caleffi. Ficou tão feliz com a possibilidade da contratação que disse que poderia começar sua trajetória na empresa no dia seguinte. “Eu havia planejado me casar em fevereiro de 1971 e, como estávamos em janeiro, pedi dois meses de férias para viajar”, conta. Ele começaria sua carreira na Racine em março de 1971, já convivendo com profissionais que mudariam sua vida, como Paulo Cirne Lima, de quem se autodenomina “discípulo”.

Na época, a óleohidráulica era considerada a melhor forma de automação e, por isso, a área era considerada muito promissora. Por isso, no início da década de 1980 a Dana estava investindo em óleohidraulica e manifestou interesse em adquirir a Racine, que fazia parte do grupo Rexnord. “Lembro que a Dana queria adquirir apenas a unidade do Brasil da empresa, mas acabou comprando a Racine mundialmente. Como as duas empresas eram americanas, tinham culturas parecidas, por isso não sentimos tanto a diferença”, diz.

Wilson ressalta que a aquisição da Racine no Brasil pela Dana pouco alterou a operação de Cachoeirinha. “Nós não fomos comprados por uma empresa que queria mudar radicalmente tudo. Trabalhávamos de forma muito parecida. Lembro das visitas mensais do Zeca Bohrer e do Hugo Ferreira, tudo muito tranquilo”, relata. A empresa agora se chamava Albarus Sistemas Hidráulicos – ASH – e Wilson atuava como Diretor de Engenharia, Manufatura e Qualidade, trabalhando diretamente com Paulo Cirne Lima e Marco Caleffi, dois profissionais por quem até hoje  tem muito respeito. “Eram duas personalidades completamente diferentes: O Paulo Cirne Lima era extremamente estratégico, visionário e tinha paixão por desenvolver pessoas – lembro dele me dizendo que meu inglês era ‘macarrônico’, e foi graças às críticas construtivas dele que aprendi a língua. O Marco Caleffi era, usando o termo americano, easygoing – não interessava as pedras do caminho, ele ia tirando-as e seguia adiante… ele falava tão bem tecnicamente sobre nossos produtos que havia clientes que achavam que ele era engenheiro, quando não tinha essa formação… uma pessoa diferenciada, dinâmica”, diz.

É claro que nem tudo foi tranquilo neste processo de aquisição. Alguns contratempos aconteceram no então novo relacionamento e Wilson recorda hoje como histórias engraçadas. Ele conta que, certa feita, algumas máquinas da fábrica de juntas homocinéticas da Albarus quebraram. “Tínhamos máquinas da marca Mazak iguais na nossa fábrica, que ficava em Cachoeirinha, e o Paulo Regner, que era o Presidente da então ATH, enviou um grupo de gerentes e engenheiros para avaliar se aquelas máquinas poderiam fabricar as peças de que eles precisavam. Veio o grupo, avaliou e, um dia depois, quando eu estava trabalhando, vieram me avisar que chegara um caminhão na fábrica para carregar as máquinas Mazak para a ATH. Mandei o caminhão de volta vazio”, lembra, aos risos. Wilson falou com Regner e disse que, se ele quisesse, fabricaria as peças em Cachoeirinha, mas que as máquinas não sairiam da fábrica. Hoje, Wilson se alegra ao contar que Regner é um de seus melhores amigos, e que viveram várias situações hilárias juntos, no decorrer de suas carreiras. “Tivemos alguns casos assim com alguns novos colegas, mas depois tudo se ajustou e nos integramos totalmente a cultura e ao ambiente da empresa”, conta.

Daí em diante, a carreira de Wilson decolaria – segundo ele, também devido ao momento que a indústria gaúcha vivia, num mercado não tão saturado de engenheiros especializados. “Na área de óleohidraulica, eu estava na empresa certa, e isso me ajudou a crescer rapidamente. Com toda a exposição a pessoas como o Paulo Cirne Lima, Marco Caleffi e outros, mais as muitas viagens que fiz pela Albarus, me ajudaram a aprender muito e conhecer muita gente no Brasil e no exterior. Isso me ajudou demais”, reflete.

Ele recorda de outro momento decisivo na carreira: em 1984, José Carlos Bohrer lhe perguntou se havia alguém para assumir seu lugar na ASH. “Na ocasião, disse que havia e perguntei ao Zeca se ele estava planejando me demitir. O Zeca deu uma risada e disse que tinha planos para mim”, lembra. Mais tarde, Hugo Ferreira assumiu a empresa e montou a sua equipe para dirigir a Albarus, em Porto Alegre, que incluía Paulo Cirne Lima, na Qualidade Total, e Marco Aurélio Caleffi, como homem de marketing e vendas da ATH. “Quem sobrou em Cachoeirinha? Eu”, sorri ele.

Ele conta que, nesse tempo, a fábrica de Cachoeirinha tinha vários gerentes. “Nós tínhamos um psicólogo que trabalhava na empresa que dizia que, em Cachoeirinha, tínhamos mais níveis que a Igreja Católica”, ri. Quando Wilson assumiu a fábrica, ela enfrentava uma grande crise. Sua primeira atitude foi reunir os gerentes e falar sobre esta crise. “Pedi que fossem para casa, pensassem sobre o assunto e trouxessem alternativas para tornar a empresa mais eficiente e enfrentar o período”, lembra. “Reduzimos e remontamos a equipe e foi uma época em que estávamos com bastante redução do pessoal de fábrica também – no final, conseguimos fazer a empresa a ter as vendas e produção de volta apesar d de contarmos com a metade do quadro de funcionários que tínhamos inicialmente. Foi uma grande recuperação”, relata.

Em três anos, a crise estaria contornada na empresa – Wilson esclarece que ela havia sido desencadeada pelos problemas que a economia no Brasil enfrentava. “Dependíamos do crescimento da agroindústria e da construção pesada. O Brasil entrou numa grande crise, e pararam as grandes obras estatais e os investimentos para a expansão da agroindústria… Todos os grandes investimentos cessaram, e nós sofremos com isso – 60% dos nossos negócios eram deste mercado”, explicou. A empresa, então, foi sustentada pelos 40% do seu outro mercado, a indústria de construção de máquinas e aplicações industriais de sistemas óleohidraulicos.

O que ficou de aprendizado? Muitos conhecimentos sobre como viver com recursos escassos, trabalho em equipe e a busca incessante por alternativas. “Eu tinha acabado de voltar dos Estados Unidos com o gerente industrial da Albarus Sistemas Hidráulicos, o Vicente Motta, onde fizemos vários cursos de tecnologias mais modernas de produção e, aos poucos, fomos transformando a empresa.. Chegamos a dobrar a produtividade em pouco tempo”, relata. Wilson, na época, era o Vice-Presidente da Albarus Sistemas Hidráulicos. “Nós tínhamos um respeito tão grande pelo Paulo Cirne Lima que ele tinha o cargo de presidente vitalício”, lembra.

Wilson conta que, em 1993, Ferreira chamou-o para uma conversa sobre os rumos de sua carreira. “O Zeca Bohrer, antes de sair, já havia me perguntado se eu estava preparando algum substituto para o meu cargo, dizendo que tinha planos. Desta feita, comentei com o Ferreira que andava cogitando ir para os Estados Unidos, na unidade de óleohidraulica da Dana que ficava em Wisconsin. Ele, então, me disse algo tão engraçado quanto inesquecível: ‘tu estás pensando que teu destino é overseas, eu te digo que é overriver‘”, relembra, aos risos. Ele se referia ao rio Gravataí, que passa por Cachoeirinha. O passo seguinte, então, foi assumir, no início de 1994, o cargo de Mauro Aurélio Caleffi na ATH – que, na época, assumia o Marketing de todo a empresa. Assim, Wilson foi transferido para a Porto Alegre e reportava diretamente ao Presidente da ATH, Paulo Regner. “O Regner é um cara muito bacana – ele conhece muito de muita coisa. Ele é o eterno professor e faz questão de ensinar o tempo todo”, explica, “aprendi muito com ele”. Seu trabalho no marketing da ATH era voltado para relacionamento com clientes, vendas e orçamentos em geral.

Dois anos depois, Regner seria designado para assumir a planta de Gravataí, e Wilson assumiu a ATH como Vice-Presidente – “mas na função de presidente interino”, ri ele. Em 1997, Wilson assumiu a presidência, oficialmente. E com grandes desafios, como o Plano Real, que forçou a drásticas reduções de preços do produto, com boa parte negociado em dólar. “A lucratividade despencou e as reuniões com a GKN Driveline (sócia na Joint Venture com a Dana) e a Dana eram terríveis – especialmente com os ingleses, muito detalhistas nas suas análises financeiras”, conta. Wilson ressalta que foi um período muito desafiador, de aprendizado imenso.

Em 99, a Dana estudava sair do negócio das juntas homocinéticas, e focar seus investimentos nos cardans. Após uma série de estudos – Wilson fez parte do comitê mundial montado pelo então Chairman Woody Morcott, a Dana acabou comprando os negócios de cardans da GKN e transferindo as operações de Juntas Homocinéticas para a GKN Driveline. Wilson participava ativamente de reuniões na GKN. Nessa época, em uma dessas reuniões em Frankfurt, recebeu proposta para ficar na GKN. “Mais tarde, o Ferreira comentou que havia planos para mim na Dana, mas eu aceitei a proposta para ser o Presidente da GKN para a aAmérica do Sul na hora em que recebi o convite da GKN, então, minha história na Dana chegava ao fim. Eu estava feliz pelo desafio e por gostar do estilo gerencial dos britânicos, detalhistas ao extremo mas muito eficientes”, relata.

Dos 17 anos de empresa, ficaram grandes memórias e excelentes amigos. “A Dana foi uma grande escola, que me proporcionou muito conhecimento e oportunidades fantásticas. Quando penso naquela época, sinto saudade de trabalhar num ambiente tão bom. Naquela época, não queríamos ir embora da empresa, mesmo que já tivesse passado das 18h. Para mim, foi uma grande oportunidade de vivências ricas e de muito conhecimento – viajei muito e fiz uma quantidade invejável de cursos pela empresa”, relata.

Hoje, Wilson curte os filhos, Milene e Alan e, especialmente, os dois netos, Lucas, de 12 anos, e Théo, de 7. “O Regner costuma dizer que o que faço hoje é curtir o ócio sem remorso”, ri Wilson. Ele é apaixonado por carros antigos, e guarda duas preciosidades na garagem – dois Alfa Romeo, um 1972 conversível, e um Ti4 1986. Apaixonado por cinema, costuma reunir os amigos em casa para ver filmes. Todavia, ele estuda uma possível volta ao mercado de trabalho. Mas sem pressa – a ordem, agora, é aproveitar a vida plenamente.

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“A Dana foi uma grande escola, que me proporcionou muito conhecimento e oportunidades fantásticas. Quando penso naquela época, sinto saudade de trabalhar num ambiente tão bom. Naquela época, não queríamos ir embora da empresa, mesmo que já tivesse passado das 18h. Para mim, foi uma grande oportunidade de vivências ricas e de muito conhecimento – viajei muito e fiz uma quantidade invejável de cursos pela empresa”