Valter

Ferreira Pires

Foram 27 anos, cinco meses e sete dias de dedicação à Albarus e à Dana. A conta exata demonstra quando apego Valer Pires tem pelos momentos que passou na empresa – tanto que, até hoje, seus melhores amigos são os colegas de jornada.

Sua caminhada na Albarus iniciou em 8 de fevereiro de 1961, quando seria aprovado na seleção para Auxiliar de Caixa da empresa. Valter já tinha experiência na empresa Moinhos Brasileiro, onde entrou como Auxiliar de Contabilidade e, apenas três meses depois, assumiria a Contabilidade daquela empresa. Desde começo na Albarus ele lembra de uma grande responsabilidade que já era sua: cuidar da chave do cofre da empresa. “Tinha uma gaveta neste cofre enorme da empresa que era somente do seu Ricardo Bruno Albarus, ninguém mexia nela. Neste cofre, guardávamos tudo de valor da empresa e documentos”, relata.
Em 1968, seria promovido a Caixa. “Trabalhava com Heraldo, Mario Gralha, Cláudio Guterrez (tesoureiro), que mais tarde seria substituído por Gilberto Rodrigues. Sempre tive uma relação de amizade muito próxima com o Gilberto, e tem uma particularidade de nossa carreira: quando ele saía de algum cargo, eu substituía-o ou vice-versa. Sempre tivemos grande afinidade”, conta. Prova disso é que, no dia da entrevista, Gilberto havia telefonado duas vezes já para Valter querendo uma ajuda para identificar fotografias dos tempos de Albarus.

Desta época, também recorda-se do Clube dos Nove, uma iniciativa que reunia casais da Albarus. Esta ideia surgiu em meados dos anos 70, quando o pessoal do setor administrativo da empresa criou o evento com a finalidade de se reunir periodicamente com as esposas num restaurante, clube ou boate para confraternizar. Cada encontro era organizado por um dos casais, que se responsabilizava pelo orçamento e rateio dos gastos e tinha o direito de levar um convidado especial. “O mesmo grupo se reunia sempre, e um dos casais tinha direito a levar um convidado. Nos encontrávamos uma vez por mês e isso durou cerca de oito anos, era muito bom”, relata Valter. Ele afirma que a melhor coisa desta ideia era conviver com os colegas, suas esposas e confraternizar com os albarianos, que se consideravam uma família. Alguns dos colegas que participaram do Clube dos Nove foram Valter, Gilberto Rodrigues, Rubens Abreu, Nelson Mallmann, Enio Garcia, Flavio Moller, Aldir Cesar Alves e Riograndino Dias Soares.

Depois de atuar como Caixa, um novo desafio apareceria na carreira de Valter: seria promovido a Encarregado de Contas a Pagar, em 1971. “Foi a época do começo da expansão da Albarus, quando a Junta Homocinética, que era o filé mignon da empresa, começou a ser vendida… Depois, a empresa começaria sua expansão adquirindo outras companhias, como a ‘Borrachas Sul-Brasileira’, que mais tarde tornou-se a Divisão de Elastômeros…”, relata, “foi uma época de crescimento de que me orgulho de fazer parte”. De sua experiência no Contas a Pagar, só conta coisas boas: “tive contato com todos os fornecedores, eles dependiam do setor para a liberação do pagamento deles – foi muito positivo”, afirma.

Quatro anos depois, em 1975, foi promovido a Controller da Divisão de Elastômeros, quando a fábrica ainda era em São Leopoldo. Desta época, Valter lembra de uma história pitoresca. “Nessa época, eu ainda usava barba. Um dia, o seu Enio Moura Valle me chamou na sala dele e disse que se eu continuasse usando barba, não poderia ser promovido”, ri ele, lembrando das brincadeiras do Diretor. O resultado? No dia seguinte, Valter apareceria na Albarus sem barba, pronto para ser promovido.
Em São Leopoldo, ele diz ter vivido sua época mais rica em aprendizados e desafios. “A fábrica tinha sido adquirida pela Albarus e, como em qualquer processo desses, ainda tinha sua própria cultura – eles tinham uma série de processos que funcionavam como verdadeiros círculos viciosos”, conta Valter. “Não foi fácil. Eu tinha autonomia para fazer meu trabalho, mas não podia passar por cima do pessoal de lá. Mas, no final, deu tudo certo”, diz.
Durante estes anos que trabalharia em São Leopoldo, Valter decidiu mudar-se para lá com a esposa Zilá e os dois filhos, onde ficariam até 1979. Esta disposição, aliás, era uma constante entre os albarianos: pela empresa, faziam de tudo. “Foi uma época muito boa na nossa vida! E eu trabalhava muito: como Controller da divisão, cuidava da contabilidade, custos de produção… Fazíamos muita hora extra, mas tudo valia à pena”.

Sua maior realização ao pensar na divisão de Elastômeros em São Leopoldo foi a criação de um restaurante para os colaboradores. “Quando chegamos lá, percebemos que os colaboradores faziam suas refeições junto as prensas com 40º de temperatura. Falei com o Sr. Ennio Moura Valle, pondo-o a par da situação”, conta. Ennio aprovou imediatamente a construção do restaurante e, assim, as refeições gratuitas começaram a ser servidas nas duas fábricas.

Quando a fábrica de Elastômeros de São Leopoldo estava prestes a se mudar para Gravataí, Valter seria convidado para assumir como Controller da Divisão de Cruzetas, na recém-inaugurada fábrica de Gravataí. Isso aconteceu em janeiro de 1979, e ele ficou feliz com a mudança. “A renovação é essencial numa carreira, a mudança faz bem. Termina um ciclo vicioso, de achar que sabe-se tudo, e começa um novo desafio”, afirma. A família voltaria para Porto Alegre, e ele fazia a viagem de 21 quilômetros todos os dias até a fábrica. “Eu ia com o Levi de Araújo Brum, que eu pegava na Albarus em Porto Alegre para ir até Gravataí. Nunca me esqueço que ele me mandou uma carta quando eu saí, fiquei muito feliz porque ele sempre foi uma referência pra mim”, conta.

Em janeiro de 1981, um novo e maior desafio: Valter foi promovido a Controller de todo o grupo em Gravataí. A fábrica tinha duas divisões: Cruzetas, Elastômeros e a Forjaria. “Sob a minha supervisão, ficava toda a Contabilidade da Albarus – Caixa, Financeiro, Contas a Pagar… além dos departamentos de Recursos Humanos e Ambulatório”.

Em 1982, convidado por Tito Lívio Goron, faria parte do time da fazenda comprada pela Albarus, que queria diversificar seus investimentos. “Como sou missioneiro, descobriram que eu entendia de campo, de lavoura. Então, o Goron me chamou para ajudar na compra das terras da fazenda que a Albarus teria em parceria com a Renner”, relata. Mas sem abandonar a função de Controller da fábrica de Gravataí. “Minha equipe era muito boa. Pra mim, um líder bom é o que capacita seu time, cria lideranças. Medo tem aquele que não tem capacidade de trabalhar – eu sempre criei equipes que trabalhavam até melhor sozinhas, sem a minha presença”, afirma.

Ele e Goron andaram por todo o estado até comprar as terras em Osório onde seria a fazenda da Albarus. Na maioria do tempo, Valter ficava em Gravataí, mas ajudou muito Goron nas andanças pelo Rio Grande do Sul também porque ele não tinha familiaridade com o campo. “Ele tinha muita vontade de aprender. Montamos uma baita estrutura lá, mas não ia dar lucro. Tínhamos 800 hectares de terra lá, infraestrutura excelente, mas era complicado”, relata. Valter cuidava da equipe da fazenda (“uma equipe no nível de Albarus e Dana”, diz), e gostava da função de campo, da lida da fazenda.

Ele recorda de outra grande realização da sua carreira na Albarus: ter ajudado no projeto de criação do Galpão Crioulo, um espaço de convivência dos colaboradores que ainda é muito utilizado na empresa, até hoje. “Me orgulho ao dizer que o Galpão foi um trabalho de minha iniciativa com a colaboração do pessoal da fábrica. O Goron, o Hugo Ferreira auxiliaram na parte financeira e Edison Serres foi meu braço direito nesta empreitada”, relata. Outra alegria sua é ver como a divisão de Gravataí é arborizada hoje – uma iniciativa que começou com este grupo de albarianos. “Foram tantas árvores plantadas que daria pra dar o nome de cada um dos colaboradores da empresa. Neste quesito, tivemos o incentivo do Paulo Regner e do grande amigo de Bojuru, Levi Araujo Brum”, diz.

Em 1983, assumiria como Gerente de Investimentos. Em 1984, retornaria a ser Gerente Administrativo, mas agora em Porto Alegre. “O Darci Otero não estava mais na Albarus, e o Goron me indicou para assumir esta função”, relata. Desta época, lembra que ajudou a implantar a informática, que desencaderaria uma verdadeira revolução nas telecomunicações da empresa. Valter também controlava as despesas de todos os setores. Mas sentiu que já não era mais a mesma paixão de sempre. “Quando fiquei na fazenda, me sentia livre. Viajava, ia de um lado a outro do Estado, era tudo mais dinâmico. Eu senti essa diferença quando voltei, era o começo do final da carreira”, relata. Em 15 de julho de 1988, chegava a hora de se aposentar.

Ele aproveitou a aposentadoria para ficar bastante tempo na sua propriedade do interior, que ficava em Tapes. Ele e a esposa criavam de tudo. “Era muito divertido, mas vou te contar algo: quando tu tens propriedade pequena, é uma alegria quando tu compras, mas outra maior ainda quando te desfazes dela”, ri ele, sob o olhar cúmplice da esposa. Os dois tem três filhos – Gislaine, Cleber (que trabalhou na Albarus) e Daniele – e seis netos – quatro meninas e dois meninos. Eles adoram curtir a família, a casa cheia, e viajar para a praia, em Tramandaí, mais especificamente.

Sobre todos seus anos de Albarus, é taxativo: “Eu conhecia todos os colaboradores da Albarus, não importava o cargo, por nome e número. Eu paguei eles toda a minha vida, no período que eu exerci a função de caixa, fazíamos o pagamento semanal. Se eu tivesse que escrever um livro sobre minha trajetória na empresa, não teria uma crítica sequer para fazer, insatisfação, discussões ou brigas sérias… Não tive nenhum inimigo dentro da empresa. E não me arrependo de nada!”

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“Eu conhecia todos os colaboradores da Albarus, não importava o cargo, por nome e número. Eu paguei eles toda a minha vida! Se eu tivesse que escrever um livro sobre minha trajetória na empresa, não teria uma crítica sequer para fazer, insatisfação, discussões ou brigas sérias… Não tive nenhum inimigo dentro da empresa. E não me arrependo de nada!”