Ricardo Bruno

Albarus

O fundador da Albarus nasceu na Alemanha e tem uma história de vida marcada pelo espírito empreendedor e visionário. Pioneiro na indústria automobilística brasileira, trabalhou com muita dedicação para ver o seu negócio crescer de uma pequena oficina até a líder do mercado de autopeças em nosso país.

In Memoriam ✩ 16/12/1899 ✝05/01/1995

Ele nasceu em 1899, na Alemanha, na cidade de Eblag (que hoje faz parte da Polônia). Filho de Gottlieb Albarus e Auguste Bércio Albarus. Embora seus pais fossem alemães, eram descendentes de espanhóis, de nome Alvarez, que haviam migrado da Espanha na época da Inquisição Religiosa.

Ricardo Bruno Albarus começou a trabalhar aos 16 anos na fábrica de armas Krupp, em meio à Primeira Guerra Mundial. Nem o trabalho nem a perda do irmão engenheiro durante o conflito impediram-no de seguir realizando seus estudos de Desenho à noite. No início da década de 20, com a crise econômica e social em que a Alemanha estava mergulhada, Albarus, que então morava e trabalhava em uma fazenda, decidiu deixar o País. Seu primeiro destino era o México, mas a escolha de uma irmã pelo Brasil o fez mudar de idéia.

Ele e os pais imigraram para o Brasil em 1922, quando ele tinha 23 anos de idade. Veio no navio brasileiro Bagé, a bordo do qual conheceu a futura esposa, Catharina Sophia Witthöft, que vinha de Esolta, cidade próxima a Hamburgo (mais tarde, os dois tiveram duas filhas, Ivonne e Brunhilde). Chegou no Brasil em 17 de janeiro de 1923, com apenas 24 anos de idade. Trazia habilidades e objetos raros no Brasil agrícola das primeiras décadas do século: conhecimentos de mecânica e desenho e algumas navalhas da marca Solingen, feitas com o famoso aço alemão. Com a venda das lâminas, conseguiu o dinheiro necessário para começar a vida em Porto Alegre.

Seu primeiro emprego no Brasil foi como mecânico numa empresa que ficava no Centro de Porto Alegre – mais especificamente na rua Dr. Flores, onde ele executava serviços de mecânica de precisão. Especialista em desenho e mecânica, o imigrante chegou a Porto Alegre e seu conhecimento técnico lhe garantiu emprego numa oficina de precisão – ramo no qual abriria um empreendimento, ao lado de dois colegas, a oficina de mecânica de precisão Lindau & Cia.

Fundada em 1928, a Lindau & Cia. fabricava artigos de serralheria, como grades, portões e janelas. Em 1936, a empresa blindou veículos para a Brigada Militar que preparava a então resistência à intervenção no Rio Grande do Sul, um prenúncio do Estado Novo, que seria implantado por Getúlio Vargas no ano seguinte. A empresa tinha uma divisão de funções básicas estabelecidas entre os sócios. Lindau cuidava das vendas, Martau respondia pela contabilidade e Albarus acompanhava o trabalho dos operários. Esta prática, aliás, marcaria toda a sua trajetória empresarial. “O nome ficou assim porque o Lindau era o mais velho dos três”, explicou seu Albarus para O Pinhão, em entrevista de 1987. A associação, feita em 1928, durou até 1947, quando Albarus se uniu ao genro e fundou a Albarus & Cia.

Neste período, trabalharam incessantemente na fabricação de materiais de precisão, passando por ferramentas e até chaves, e também prestaram serviços para o Exército Brasileiro e a Marinha. Para estes dois clientes, fabricavam ogivas para granadas. Em 1947, os três adquiriram uma garagem na Rua Paraíba e, em seguida, descontinuaram a sociedade. Ricardo deixou a sociedade, mas manteve a garagem, para onde transferiu as máquinas de precisão e deu continuidade sozinho aos seus negócios. Começava, então, o embrião do que viria ser a Albarus – e a Dana Brasil.

Inicialmente com trinta funcionários, ali nessa garagem nasceu a Albarus & Cia, no dia 10 de julho de 1947. As características que a empresa viria a assumir apareceriam em seguida, conforme o relato de Ricardo Bruno Albarus para O Pinhão. “Um vendedor de uma pequena empresa botou uma cruzeta sobre a mesa e perguntou-me se era possível reproduzi-la na Albarus. Ele encomendou mil cruzetas iguais àquela e, na nossa oficina, já havia uma máquina que permitiria a produção daquela peça. Comprei outra prensa e, depois, fizemos mais três máquinas iguais – e nascia a fábrica de cruzetas”, disse.

A pequena oficina foi descoberta pela Ford – na época, o Brasil ainda importava muitas peças para automóveis – e, em seguida, passou a fabricar para a montadora, produzindo eixos cardans de forma pioneira no país. Como isso foi antes da contratação de engenheiros pela empresa, o próprio Ricardo Bruno Albarus desenhava estas peças. Tanta dedicação e empreendedorismo logo lhe renderiam um novo cliente: a General Motors.

O resto é história: os anos eram de pleno desenvolvimento da indústria automotiva brasileira e a Albarus tinha muito a crescer naquele mercado em ebulição.
Pioneira e única fabricante brasileira de cruzetas – peça do sistema de transmissão dos automóveis –, a Albarus sempre perseguiu o aprimoramento técnico e a elevação da qualidade de seus produtos. Essa propensão levou a Albarus a buscar expertise através de parcerias internacionais. Em 1955, a Albarus firmou um acordo de assistência técnica com a Spicer Manufacturing, uma divisão da Dana Corporation. Era o primeiro impulso para o salto que aconteceria em 1957, quando a Dana adquiriu ações da Albarus.

Em determinada ocasião, numa visita aos Estados Unidos para visitar a Ford, Ricardo Bruno Albarus conheceu a Dana. “Eu sabia que a Dana era uma grande empresa e, de imediato, eles se interessaram pela Albarus e associaram-se à nós logo em seguida, em 1954”, afirmou.

A empresa, que ainda levava o nome do fundador, não parava de crescer. Os brasileiros descobriam sua paixão por automóveis e a Albarus crescia nesta onda de otimismo econômico. Em 1960, a empresa fabricava cruzetas, cardans e componentes. Em 1969, adquiriu uma fábrica de elastômeros que ficava em São Leopoldo, a Sul Brasileira, e começou a fabricar este tipo de componente. Em 73 e 74, foi a vez das juntas homocinéticas e eixos diferenciais. Em 1978, mais um importante passo: a produção de embreagens pesadas. No início da década de 80, começaram as exportações e a abertura de mercados. Esta também foi a década em que a Dana assumiu o controle da Racine, que transformou-se em Albarus Sistemas Hidráulicos Ltda, e incorporou a Pellegrino Autopeças.

Ricardo Bruno Albarus parou de trabalhar em 1968, mas acompanhou sempre os movimento da empresa que fundou em 1947. Confira aqui alguns depoimentos de colegas que reconhecem o pioneirismo e garra do fundador da Albarus:

“Ricardo Bruno Albarus, quando imigrou da Alemanha para o Brasil, conheceu sua futura esposa no navio. Ele já conhecia alguns alemães que estavam no Brasil, e se associou com eles antes de começar a Albarus. Eram três alemães – Martau, Lindau e Albarus – e eles fabricavam giroscópios pra submarinos, muito usados durante a guerra. Quando esta chegou ao fim, a sociedade se desfêz e Ricardo Bruno Albarus ficou com algumas máquinas – duas prensas. Com elas, faziam formas para solados de calçados para a indústria. Em 1953, quando o negócio de importação no Brasil ficava difícil, apareceu um cliente na fábrica que nos consultou sobre a possibilidade de fazermos cruzetas”, recorda. Era o começo de uma nova fase. Fui admitido na empresa como vendedor e tinha a missão de tornar a cruzeta conhecida. Minha meta era conhecer clientes e representantes do Brasil todo e, juntos, muito trabalhamos. Foi um grande privilégio aprender com um verdadeiro gênio da indústria automobilística brasileira”.
José Carlos Bohrer

“Conheci o seu Ricardo quando comecei a trabalhar na Albarus, em 1956 – a fábrica ainda era muito rudimentar e todos nos sentíamos prestigiados por ele, o presidente da empresa ne época. Acho que ele tinha apreço pelo meu pai, que era ‘deutsch’ também e tinha um estilo parecido com o deles, então sempre fui considerado como um bom funcionário na empresa, com a mesma ética germânica de trabalho”.
Nelson Tegel

“Ricardo Bruno Albarus era meu tio – quando comecei a faculdade de engenharia, ele foi a minha inspiração. Antes disso, ele me disse que eu poderia trabalhar com ele na Albarus como estagiário. Comecei a trabalhar na empresa em 1960, num período de mudanças importantes para a empresa, depois da construção da fábrica na Rua Joaquim Silveira em 1954 e com a importante participação de Haroldo Dreux, genro do meu tio, o que desencadeou a entrada de muitos jovens engenheiros na empresa. Quando comecei na empresa, trabalhava na Usinagem, dentro da fábrica… muitas máquinas haviam sido construídas pelo meu tio, quando começou a empresa, outras em parceria com Wolff Zwick. Ricardo Bruno Albarus foi um grande pioneiro da indústria automobilística brasileira, um visionário e muito, muito trabalhador. Um visionário que trabalhava sem parar”.
Edgar Albarus

“Além de um gestor brilhante, Ricardo Bruno Albarus era um entusiasta da engenharia. Com uma visão impressionante para sua época, batalhou para que cada vez mais estudantes de engenharia e engenheiros conquistassem credibilidade e espaço dentro da Albarus. Tanto que, na década de 60, a companhia se tornou conhecida por ser a que mais contratava estagiários de todos os ramos da engenharia no estado. Lembro muito bem porque lecionava na faculdade de engenharia e esse intercâmbio entre a empresa e a universidade contribuiu de forma substancial para o desenvolvimento da própria organização e de todo o setor de mecânica no Rio Grande Sul.”

Paulo Nelson Regner

“Perfeccionismo e obstinação pelo trabalho – duas coisas que me vêm à cabeça quando penso em Ricardo Bruno Albarus. Sério e dedicado à empresa, adorava também estar no chão da fábrica ao lado dos operários. Sua coragem e determinação ao aceitar o pedido cruzetas da Ford e o caráter humano de sua relação com os funcionários foram fundamentais para o desenvolvimento da Albarus”.

Johann Wolfgang Limbacher

perfil

Seu primeiro emprego no Brasil foi como mecânico numa empresa que ficava no Centro de Porto Alegre – mas sua visão empreendedora mudaria a vida de muita gente quando criou a Albarus & Cia, no dia 10 de julho de 1947.