Mário José

Ferreira

Ele se criou na Vila Ipiranga, caçando passarinho em terrenos baldios da vizinhança, numa Porto Alegre mais rural do que urbana. Sempre brincava nos terrenos que ficavam na Vila Aliança – mais especificamente onde, um dia, seria construída a fábrica da Albarus. “Num dos jantares dos jubilados, contei isso ao Zeca Bohrer, que ficou bastante impressionado, já que ele foi responsável pela compra daqueles terrenos”, conta ele.

Depois, mais velho, Mário conta que sempre dizia à esposa, Sueli, que um dia trabalharia na Albarus. Só não tinha ideia de que teria uma carreira de 25 anos na empresa.

O jovem Mário se formou pelo SENAI como Torneiro Mecânico e, depois, pelo Parobé. Antes de entrar na Albarus, já havia atuado em empresas como a Micheletto, Elevadores Sür e a Madef. “Quando eu estava na Micheletto, o Johann Wolfgang Limbacher apareceu lá e começamos a conversar sobre a Albarus. Tratei de investigar se era uma boa empresa, mesmo que eu gostasse da Micheletto, que foi uma grande escola, onde comecei como inspetor de qualidade”, diz. Depois, quando já estava na Madef, soube que havia aberto uma vaga para a Albarus e, mais do que depressa, se candidatou.

Ao lembrar dos detalhes desta história, ele se emociona. “Olha aqui, me arrepio todo ao contar isso. Lembro que tinha vinte e cinco candidatos para a vaga do Controle de Qualidade, mas acabei entrando. Foi uma alegria muito grande”, conta Mário. O ano era 1969 e a Albarus estava funcionando a todo vapor, com novos clientes entrando a toda hora e numa época em que a qualidade começou a ser muito mais exigida. “Entrei já fazendo muita hora extra, trabalhando aos finais de semana, mas sem me importar – era um sonho muito antigo estar na Albarus”, afirma. Ele conta que estava noivo de Sueli nessa época e eles estavam comprando vários eletrodomésticos, então, as horas extras remuneradas caíram como uma luva. “Paguei tudo e mais um pouco de tanto que trabalhei nessa época”, relata, aos risos.

Mário ficou até 1975 trabalhando como Inspetor de Qualidade com Cleto Coimbra, que inclusive foi seu padrinho de casamento. “Tínhamos muita amizade naquela época. Os supervisores da qualidade eram o Gibrail Posenato e o Otávio Palmas, e criamos vínculos duradouros de cumplicidade e companheirismo”, relata.

Mário esteve na Qualidade durante muitos anos, crescendo dentro do setor e passando pelos cargos Inspetor de Primeira, de Segunda, de Terceira e, depois, Líder do Controle de Qualidade. “Na época, nosso trabalho era muito diferente, sem essa tecnologia que existe hoje. Usávamos o altímetro, e era uma luta para fazer as medições – hoje, tudo é mais fácil”, relata.

Em junho de 1982, Marcelino Perlott precisava de alguém para iniciar o Departamento de Treinamento na Divisão de Juntas Universais (DJU), e achou que Mário seria a pessoa perfeita para isso, devido à sua grande circulação na fábrica e sua amizade com os operadores.  E assim iniciava mais uma etapa de sua carreira na Albarus: a de instrutor. “Os alunos eram pessoas, em sua maioria, de origem simples, sem estudos. Foi muito emocionante fazer parte de uma iniciativa que, efetivamente, mudou a vida destas pessoas para melhor”, recorda.

Mário era o responsável por pesquisar cursos de treinamento específicos para o pessoal da Albarus, além de dar aulas de matemática, controle de qualidade e desenho. “Não pense que eram aulas aprofundadas – era uma introdução, mas tenho certeza de que significava muito para quem assistia”, afirma. Mário confeccionava as apostilas para que pudesse dar aulas, e esse foi um período de grande satisfação para ele. “No primeiro dia, dei aula para seis pessoas e tremia de nervoso. Logo, perguntei quem era gremista e quem era colorado. Pronto, quebrou o gelo e, daí, foi um pulo”, explica, sorrindo. Ele ressalta que, durante todos estes anos, também foi aluno de muitas e muitas aulas na Albarus: ao todo, participou de vinte e dois cursos técnicos e dois comportamentais dentro da empresa.

Ele ri ao lembrar que Perlott, antes de ser seu chefe, chamava-o de “Murrinha” porque era um inspetor de qualidade rigoroso. Apesar da “fama”, tinha inúmeros amigos dentro da fábrica. “O Diocarino Nunes dos Santos, na época, era operador e meu amigo – até hoje, nos encontramos nas jantas dos jubilados. Na época, minha esposa estava grávida e eu não tinha dinheiro para comprar um berço pro meu filho. O Diocarino foi até a loja e comprou o bercinho no nome dele, nunca esqueço disso”, conta.

Mário ficou por um ano e meio trabalhando com Treinamento, até que uma grande crise o realocou dentro da companhia. “O Carlos Nitzke era o Supervisor da Divisão de Juntas Homocinéticas e me ensinou tudo sobre isso, fomos até fazer treinamento em São Paulo. O Paulo Regner era o chefão de tudo, e decidiu que o Carlos ficaria com o Treinamento e, nesse meio tempo, o Otávio Palmas me levou de volta à Qualidade”, explica. Mário voltou como Líder da Qualidade, e enfrentou algumas missões bastante desafiadoras e recompensadoras.

Em julho de 1986, fez um curso que mudaria sua vida: o de Círculo de Controle da Qualidade (popularmente conhecido como CCQ), uma iniciativa em que os colaboradores, juntos, buscam soluções de produtividade, ergonomia, segurança e qualidade para a empresa. “Depois de ter feito este curso junto com o Otávio Palmas, a missão era disseminar este conteúdo dentro da fábrica, para que essa cultura se difundisse dentro da Albarus. Foi recompensador fazer parte disso”, relata. Mário formou estes grupos, de linha em linha, dentro da fábrica, de forma então pioneira.

Logo, chegava a hora da mudança da fábrica de cruzetas para Gravataí – Otávio Palmas foi transferido para ser Supervisor de Produção da nova fábrica, e começou a levar Mário junto com ele. “Até parece engraçado, lembrando hoje, mas claro que ele acabaria convencendo Alceu Albuquerque, meu chefe nesta época, de que eu precisava ir para Gravataí com ele”, ri.

Mário foi para o Controle de Qualidade e, de início, encontrou alguma resistência dos colegas que já estavam por lá – “mas foi passageiro”, reitera ele. Logo, ele estaria no seu lugar favorito da empresa: a fábrica. “O Otávio foi realocado para a produção e, claro, quis me levar com ele, como responsável de produção”, ri. Durante cinco anos, Mário atuou como Contramestre de produção – posição que ocupou até 1990, quando foi promovido a Mestre.

Depois disso, ficou atuando como supervisor de produção no terceiro turno, para substituir os colegas que precisavam fazer cursos pela Albarus. “Eu me alternava com os colegas e, nessa brincadeira, fiquei seis anos. O terceiro turno, no final de semana, é cansativo… Parece que as horas não passam”, diz.

Mário ainda conta que passou pela Montagem e Retífica de Cruzetas, Tornearia, Montagem de Cardans Agrícolas… Até se aposentar, em 1994. Hoje, sempre que pode, vai aos encontros dos jubilados e brinca: “agora, é Ferreira pra lá, Regner pra cá, seu Bohrer… Antes, nos tempos de Albarus, eles eram tipo deuses pra nós, quase não tínhamos coragem de falar com eles”, ri. Depois de sair da Albarus, Mário trabalhou com Jorge Haro prestando serviços para a empresa, foi eleito vereador de Cachoeirinha mas, hoje, dedica-se exclusivamente à famíla e a sua criação de passarinhos. Casado com Sueli há 45 anos, tem dois filhos, Sandro e Patrícia, e quarto netos, Matheus, Victor, Valentina e Davi.

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“Olha aqui, me arrepio todo ao contar do período em que entrei na antiga Albarus. Lembro que tinha vinte e cinco candidatos para a vaga do Controle de Qualidade, mas acabei entrando. Foi uma grande alegria!”