José

Nobre

Foram 30 anos de Dana, de 1961 até 1991. José Nobre era um rapazote recém-saído do quartel quando ingressou na então Albarus. “Eu nasci na Fronteira, mas vim para Porto Alegre com 10 anos – comecei a trabalhar aos 14 anos. Do quartel, fui pra Albarus”, conta.

Ele ficou sabendo da oportunidade da empresa através de um dos seus amigos do futebol, Cláudio, que trabalhava no RH da Albarus. “Lembro do dia da seleção, o seu Wolff Zwick era quem escolhia as pessoas que iam entrar de cima de uma estrutura. O Claudio, que era meu amigo, apontou: ‘aquele ali, seu Wolff!’. Assim, entrei na empresa”, lembra, aos risos.

Nobre tinha se formado pelo SENAI – e sentiu já naquela época que a indústria automobilística era onde atuaria pelo resto da vida profissional. “Estava tão empolgado que comecei a trabalhar no terceiro turno. Claro que, depois de uma semana, senti na pele que ia ser complicado. Uma noite, juntei minhas coisas que falei que estava indo embora da Albarus. O Erni Leal conversou comigo e disse: ‘amanhã eu falo com o pessoal e te passamos pro dia’. Eu cheguei a pegar meu cartão ponto pra pedir demissão, e ele me convenceu a ficar”, recorda.

Ele começaria sua carreira como Apontador – a pessoa que controlava o ritmo de produção das peças nas linhas. “No início da empresa, era tudo muito desorganizado, vou ser honesto – daquele jeito, a empresa não estaria preparada para o crescimento que estava por vir”, diz. Haroldo Dreux, então, viajou aos Estados Unidos e aprendeu uma série de técnicas que seriam aplicadas na Albarus para melhorar seu desempenho e produtividade.

Desta viagem de benchmark, Haroldo trouxe uma inovação que foi vista, de início, com incredulidade: a Engenharia de Processo. Para criar este setor na empresa, ele escolheu dez colaboradores, que ficaram durante sete meses em curso na Sociedade Caxiense de Organização Racional do Trabalho. Um deles era José Nobre. “Haroldo era um visionário, uma pessoa muito à frente do seu tempo. Nos formamos em 1962, e começamos a fazer todo o controle manual da produção”.

Assim, começava o trabalho da Engenharia de Processo, que ficava dentro da sala do Controle de Produção. A rotina era puxada: Nobre relata que o relatório de toda a movimentação de produção da fábrica do dia anterior tinha que estar pronto às dez horas da manhã para ser analisado por Levi Brum e José Martins, os Gerentes de Produção da fábrica. A equipe da Engenharia de Processo era composta por Valmor dos Santos (gerente do departamento), Altamiro Santos, José Nobre, Edgar Albarus, Vilmar e Carlos Nitzke… Este time também fazia análise de ferramentas.

Nobre também conta que o começo da Engenharia de Processo foi bastante desafiador. “Nosso departamento foi criado para dar conta da grande demanda de produção que vinha da Ford, GM e Volkswagen – a Albarus não estava conseguindo cumprir os prazos de produção”, relata. A empresa também tinha o objetivo ambicioso de dobrar sua produção e, naquela época, não havia capital suficiente para investir em compra de máquinas mais eficientes. A solução? Capacitar esta equipe para otimizar os processos de produção. Nobre guarda consigo uma série de diplomas de cursos feitos durante este período – todo o time, formado por técnicos da Escola Parobé e do SENAI, precisava se munir de muito conhecimento para encarar o desafio. “Claro que foi difícil, era um setor completamente novo na empresa – mas a satisfação de quando começo a dar certo foi imensa”, afirma.

Nessa época, também, começaram a ser desenhados os layouts da fábrica, para que os processos fluíssem mais harmoniosamente e, assim, a empresa economizasse tempo. “Tu não imaginas a satisfação que era redesenhar os processos da fábrica e vê-los funcionando melhor. Era tudo muito rudimentar antes disso, vibrávamos com cada vitória e eu não via o dia passar”, relata. Nobre conta que nem relógio tinha – não se preocupava com as horas passando, sentia-se motivado pelos desafios que o cotidiano da fábrica lhe trazia. “Eu acho que o segredo do sucesso da Albarus foi o fato dos diretores manterem os funcionários participando de tudo, e se sentindo agentes destas mudanças”.

Em 1978, ele se tornaria Encarregado da Produção de cruzetas. Nobre conta que quem queria vencer e ir adiante na empresa gostava desse dinamismo. “O engenheiro José Miotti era assim, dizia pra gente: ‘hoje, tu estás aqui, mas amanhã, vou precisar de ti em outro lugar da empresa’. Isso nos mantinha sempre alertas e motivados”, diz. Nobre conta que foi designado para o cargo de gerente de produção porque a empresa estava vivendo um momento intenso de expansão e não tinha tempo de treinar novos funcionários para estes cargos. Como Nobre conhecia todos os processos, da sua experiência na Engenharia de Processo, abraçou o novo trabalho. “O pessoal do chão de fábrica me ajudou muito nesta função: Biron Matissek, Enir Leal, Antônio Plentz, Diogo Espinoza e o Claudio Vasconcellos, mais conhecido como Coxinha, Helmuth Baumgarten, Marciano Siereski, Nadir Kras e Carlos Caletti. Além do seu Wallau, de Compras, que me ensinou muita coisa”, afirma.

Ele lembra que, nessa época, o novo foco da empresa começou a ser em qualidade – criou-se a cultura de que, na Albarus, não adiantava bater recordes de produção se não houvesse qualidade. E ele não estranhou voltar para o chão de fábrica porque nunca havia saído de lá, mesmo na engenharia. “Passávamos de manhã na nossa sala da Engenharia de Processo, botávamos o jaleco branco e íamos para a fábrica, onde passávamos o dia”, esclarece. Os Mestres de Produção participavam muito do trabalho da engenharia de processo, por isso, ele já conhecia todos.

Foi um período de muito trabalho – ele lembra que, nessa época, parou de bater o cartão ponto. “O engenheiro Miotti me falou para fazer isso – estranhei no começo, mas ele me disse: ‘não interessa o horário – a produção no teu turno é responsabilidade tua”, afirma. Nobre conta que seu aparelho telefônico de casa ficava ao lado da sua cama. “Eu vivia na fábrica – me telefonavam quando alguma máquina estava com problema, eu ligava pro Luiz Carlos de Oliveira, e íamos para a Albarus”, conta. Nobre conta que aprendeu na fábrica o que nortearia seu trabalho: não existe ‘não’, nem ‘não pode’.

Paulo Regner era o gerente de Suprimentos nessa época. “Eu discutia muito com ele, quando eu estava na engenharia de Processos. Um dia, ele disse que gostava de mim, porque eu tinha certeza do que fazia”, ri. O chefe de Programação de Produção nessa época era o Luis Tessaro – Nobre também se desentendia com ele porque achava que Tessaro ia pouco à fábrica. Em 1983, Luis Tessaro seria transferido para São Paulo, Geraldo Encke assumiu a função por um tempo, e depois Nobre seria nomeado por Regner para assumir, então, o Controle e Planejamento da Produção da fábrica. “Aí eu me apavorei. Não tinha ideia do que era receber pedidos de vendas, atender os clientes e planejar a produção. Trabalhávamos com o ‘folhão’, onde toda a programação era dividida por linhas de peças”.

No dia 25 de cada mês, Nobre começava a programar a produção da fábrica – até o dia primeiro ela tinha que estar pronta. “Foi uma das melhores épocas da minha vida profissional. Comecei a conviver com pessoas diferentes, e desenvolver novos reacionamentos na empresa”, afirma. Trabalhava muito com o pessoal de Compras, com a equipe da Qualidade de São Paulo, de Vendas… Nobre diz que essa foi uma oportunidade de muito aprendizado para ele.

Sua rotina, nessa época, começava com uma reunião na fábrica, entre o Planejamento, Manutenção, Produção, Compras, Montagem, Expedição e o Chefe da Produção. “Era uma reunião simples: cada um dizia o que precisava para trabalhar e vencer o dia, mas aquilo era o que me motivava e me dava segurança”, relata. “Tomei um baile no início, não foi nada fácil”, diz, rindo. Nobre ficaria durante cinco anos neste cargo.

Ao contrário de muitos, Nobre comemorou o início da informatização da empresa e o fim do “folhão” que usava para programar a produção. O responsável pela implantação do sistema foi Jorge Schertel, e cada setor tinha um responsável por isso. Nobre era responsável pelo setor da Programação de Produção. “Ficou tudo muito mais fácil – as informações e dados foram transferidas para os IBM’s, e tudo ficava num lugar só, uma barbada!”, lembra, aos risos.

Em 1987, Nobre assumiria como Chefe de Departamento de Produção. Seriam mais dois anos dentro da fábrica fazendo o que mais amava. Nessa época, a responsabilidade era tanta que ele ia todos os dias para Gravataí. “Minha política era não ir em Natal, Ano Novo e na Sexta-feira Santa. De resto, eu provavelmente estaria lá. Éramos assim, todos nós éramos muito dedicados e apaixonados pela empresa”, relata.

Em 1989, Alceu Albuquerque reuniu uma turma que estava prestes a se aposentar na empresa para decidir onde seriam melhor aproveitados antes da aposentadoria definitiva. Neste grupo, estavam Nobre, Telmo Oliveira, Luiz Carlos Oliveira, Diogo Haro… Nobre foi designado para atuar como Comprador Técnico, fazendo contato direto com fornecedores. “Fomos designados um para cada área para ensinar a gurizada nova da empresa, passar nosso conhecimento adiante. Conhecíamos as necessidades da fábrica, então era hora de passar essa experiência adiante”, conta.

Em 1991, Nobre se aposentou. Mas não parou: foi trabalhar em outra empresa, depois comprou um táxi…. Só parou por um problema de saúde. Tentou até morar na praia, mas durou pouco tempo: acabava vindo todos os dias para Porto Alegre. Parou de trabalhar em 2013 e, hoje, curte a esposa, Lucinha, com quem é casado desde 1964, e os três filhos: Luiz André, Alexandre e Débora. Nobre tem dois netos: Leonardo, de 20 anos, e Guilherme, de 8 anos, os xodós do vô.

Sobre todos estes anos de Albarus e Dana, Nobre é categórico. “Eu aprendi demais nessa empresa. Se eu pudesse, ainda estaria lá! Ficaram muitas histórias, algumas impublicáveis, muitas histórias de luta. A empresa me deu muita coisa, e uma delas não tem preço: é a lição de vida. A nossa união foi o que levou essa fábrica para frente. A gente vestia a camiseta e abraçava qualquer desafio que fosse”, conclui.

jose-nobre

“Eu aprendi demais nessa empresa. Se eu pudesse, ainda estaria lá! Ficaram muitas histórias, muitas histórias de luta. A empresa me deu muita coisa, e uma delas não tem preço: é a lição de vida. A nossa união foi o que levou essa fábrica para frente. A gente vestia a camiseta e abraçava qualquer desafio que fosse.”

José Nobre