José Duilio

Carnio

Após uma carreira bem-sucedida, boas histórias não faltam no repertório do profissional que passou mais de 50 anos trabalhando na mesma empresa

Era 1963. Enquanto a maioria dos meninos de 14 anos só pensava em jogar bola e se divertir com os amigos, José Duilio Carnio já ensaiava os primeiros passos da sua promissora carreira. Aluno do curso técnico do Senai, o garoto passava seis meses em aula teórica e outros seis meses em aula prática. Encaminhado para estagiar em uma das maiores forjarias do país, hoje sob o comando da Dana após parte das operações serem incorporadas ao grupo, em 2017, Duilio sequer imaginava que sua trajetória profissional seria construída dentro dos muros de uma única empresa. “Na prática foi um processo natural. Você trabalha, estuda, vai assumindo novos cargos e de repente lá se foram 50 anos”, conta. Nesse caso, o tempo de casa citado pelo profissional não é questão de retórica. Foram exatos 50 anos e 7 meses de uma parceria de sucesso.

Além de muita experiência, Duilio traz em sua bagagem a história da evolução da indústria automobilística no país. “As primeiras máquinas em que eu trabalhei, como os tornos mecânicos e as plainas limadoras e de mesa, quase nem existem mais. Com o advento da tecnologia, o processo produtivo mudou completamente”, observa. Seu primeiro trabalho como aprendiz foi na área de matrizaria, mas logo após a formatura foi transferido para o setor de traçagem de matrizes e confecção de chapelonas. “Se hoje você perguntar para o pessoal da fábrica o que é uma chapelona, com certeza eles não vão saber”, brinca.

Depois de quatro anos atuando como traçador, Duilio passou para o cargo de conferente. Sua função era checar as ferramentas antes de entrar nas máquinas para evitar erros de produção. Entre o período de 1972 e 1975, o profissional voltou aos bancos da escola estudando projetos de ferramentas e, posteriormente, especialização em projetos. À galope da nova formação vieram maiores responsabilidades. Duílio foi convidado a treinar os funcionários recém-chegados e até criou um curso específico da área, homologado pelo Senai. “Passei a dar treinamentos três vezes por semana de manhã, à tarde e à noite, acumulando simultaneamente as duas funções. Mas, claro, com os horários devidamente compensados”, destaca.

O trabalho como instrutor era complexo. Duilio ensinava os alunos a fazerem a interpretação dos inúmeros desenhos de forjado. “Um virabrequim, por exemplo, tinha aproximadamente 120 chapelonas, se o funcionário não soubesse visualizar qual delas usar em determinada peça, simplesmente não conseguia fazer ou, na pior das hipóteses, fazia errado. Mas depois de uns dois anos mudou completamente o processo com chegada dos modelos”, diz.

A habilidade na gestão de pessoas renderam ao profissional algumas promoções. A primeira foi em 1975, quando passou a integrar a equipe de Engenharia de Pesquisa e Desenvolvimento e a outra, em 1979, com apenas 30 anos de idade, ao ser convidado a chefiar a Forjaria de Precisão. A ascensão rápida resultou em uma importante condecoração do setor: a eleição como Operário Padrão da Região de Jundiaí, em 1980. “Foi uma honra ser o escolhidos entre 170 profissionais, principalmente porque eu era o mais novo de todos os candidatos. Um dos motivos da minha premiação foi justamente o curso que eu havia criado anos atrás”, recorda.

A fama também lhe trouxe novos desafios profissionais. Em 1984, assumiu a chefia da Produção de Martelos, no momento em que a empresa passou a exportar peças para a Ford nos Estados Unidos. Os bons resultados obtidos nos departamentos sob sua supervisão, fez com que a empresa o convidasse a gerenciar outras unidades do grupo. Em 1988, foi transferido como Chefe de Forjaria para a filial de Campinas e, posteriormente, para a unidade de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. O vaivém diário entre capital e interior durou até 1996, quando retornou como gerente do departamento de Matrizaria e Engenharia de Projetos e Processos. Para Duílio, o trabalho era gratificante, principalmente por conta do reconhecimento e promoções constantes, mas recorda que muitas vezes precisava insistir para as coisas acontecerem. “A gente lutava pela evolução, sempre quis o melhor para o meu setor, mas as verbas não caíam do céu. Era preciso justificar cada centavo a ser investido em uma melhoria.”

Por outro lado, o aprendizado era constante. Foi na gestão de Duilio que a empresa adquiriu a primeira máquina de alta velocidade, conhecida como high speed, e fez a implantação do sistema de gravação de matrizes por meio de soldagem, método usado até os dias de hoje. Com a mudança, a empresa conseguiu aumentar em 30 vezes a vida útil dos blocos da matriz. “Não é milagre, é tecnologia. É claro que o investimento foi grande, mas boa parte do lucro da área até hoje vem justamente da redução de custo com a compra do bloco V.M.O.”, destaca. Sempre fez questão de dividir as conquistas com os outros companheiros de trabalho, lembrando que sempre contou com o apoio da sua equipe, de técnicos de fora da empresa e da diretoria para fazer as mudanças necessárias.

A esposa, Maria Lúcia, lembra que em épocas de implantação de novos sistemas de produção, o marido trabalhava horas a fio, muitas vezes até duas ou três horas da madrugada. Nesses períodos, era ela quem dava o suporte para ele trabalhar com tranquilidade ao cuidar dos cinco filhos do casal: Graça, Cristina, Adriana, Júnior e Tatiane.

Duílio ficou no mesmo cargo até 2007, quando por motivos de saúde precisou afastar-se das atividades por quase um ano. “Fiz três cirurgias e só tenho a agradecer à empresa que compreendeu a dificuldade do momento pelo qual eu passava. Além de me darem apoio e todas as licenças que precisei.” No retorno ao trabalho, assumiu o cargo de Assessor de Diretoria para Melhorias Contínuas. Foi na festa do cinquentenário da empresa, em 2008, que o assessor teve a ideia de lançar-se um desafio: iria aposentar-se somente depois de completar 50 anos de trabalho. Com a crise no setor automotivo, a empresa passou por algumas mudanças e o profissional precisou ser desligado, mas não ficou um dia sequer fora da companhia. “Sai no dia 20 de fevereiro de 2010 e no dia 21 já voltei a trabalhar como consultor técnico.”

A promessa feita nos idos de 2008 foi cumprida à risca. Após 50 anos e sete meses de trabalho, Duilio decidiu que era hora de parar. Hoje, aos 70 anos, carrega a mesma vitalidade dos tempos de menino. As horas de folga gosta passar na companhia dos 11 netos e das duas bisnetas, além de planejar as inúmeras pescarias que faz todos os anos nas represas de Piracaia, no sistema Cantareira, e do Guaraci, situada próxima a cidade de Barretos. Mas curtir a vida de aposentado está longe dos planos do profissional. Recentemente, voltou à ativa como consultor de empresas na área de autopeças. “Quando você passa 50 anos em uma única empresa é impossível dizer que não gostou de trabalhar lá. Todos as conquistas da minha vida, seja profissional ou pessoal, foram feitas por meio da empresa. Sou extremamente grato e orgulhoso de onde consegui chegar.”

Duilio capa

“Quando você passa 50 anos em uma única empresa é impossível dizer que não gostou de trabalhar lá. Todos as conquistas da minha vida, seja profissional ou pessoal, foram feitas por meio da Dana. Sou extremamente grato e orgulhoso de onde consegui chegar.”

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