Jorge Alberto

Wallau

Diz-se que ele é o colaborador da Albarus que mais tempo ficou no mesmo setor: durante vinte e dois anos, trabalhou no Compras, em diferentes cargos, desde a sua entrada na empresa até a aposentadoria. Um verdadeiro gentleman, Wallau é um grande mestre nas relações humanas e conta que, acima de tudo, a Albarus era mesmo “uma grande escola”. 

Ele entrou na empresa por convite de Victor Pinto Vieira que, como ele, havia trabalhado na H Theo Möller – uma empresa de ferragens e equipamentos em geral. Porém, apesar daquela ser uma empresa sólida (Wallau trabalhou lá por 11 anos) estava passando por um processo de descapitalização. “O Victor Vieira me telefonou um dia da Albarus e me chamou para almoçar no restaurante Napoleão – neste dia, ele convidou para trabalhar na Albarus. Eu fiquei dividido, mas ele me aconselhou para olhar para o meu futuro”, relembra, “nunca me esqueci deste momento, foi crucial para a minha vida”, emociona-se. Dois dias depois, aceitaria a proposta e iniciaria sua carreira como Comprador. Wallau afirma, categórico: “eu trabalhei em algumas empresas antes de entrar na Albarus, mas ela foi a melhor de todas, sem sombra de dúvidas”.

Na época de sua admissão, ele tinha 32 anos de idade, e lembra daquele 2 de outubro com precisão. No seu primeiro dia, Victor Vieira o levou para conhecer a fábrica, e ele se encantou com tanto dinamismo. Foi apresentado aos diretores da empresa – “naquele tempo, era tudo bem menor”, recorda – e começaria num período de férias coletivas. Sorte dele, que pôde passar semanas mergulhado nos arquivos e fichários da Albarus, estudando ordens de compras e fornecedores.

Naquele tempo, usava-se kardex, uma ficha através da qual controlava-se o estoque, e que seria uma ferramenta de trabalho essencial para Wallau. Ele conta que tinha apenas dois colegas no seu setor – uma secretária que datilografava as ordens de compra e um outro rapaz, que fazia as compras externas. “Aprendi muito com Victor Vieira nessa época, afinal, eu não tinha experiência como comprador – ele foi um chefe exigente, mas muito humano, uma pessoa fantástica”, relata.

O maior desafio que encontrou nestes primeiros tempos? A falta de matéria-prima de qualidade. “Essa era nossa maior luta – nem sempre o mercado oferecia a qualidade que necessitávamos, e isso acabava ocasionando muitos problemas. Ás vezes, o material que nos era fornecido chegava fora da especificação técnica e acabava rejeitado pelo Controle de Qualidade. As chapas para estampar tinham medidas diferentes, o que acabava prejudicando as matrizes. Hoje, tem material para fabricar o que se inventar – mas eram outros tempos”, relata. Outro desafio era a comunicação – uma ligação para São Paulo, por exemplo, demorava cerca de quatro horas para ser completada – às vezes, Wallau esperava mais de um dia para conseguir. E muitos dos fornecedores da Albarus eram de São Paulo, e essa dificuldade de comunicar-se com agilidade dificultava muito o trabalho.

Em outubro de 1975, Wallau foi promovido a Supervisor de Compras. Com o aumento da responsabilidade, sua paixão e dedicação pela empresa só aumentavam. “Era tudo muito bom, e não medíamos esforços, especialmente nessa época de expansão da empresa.”

Os processos foram ficando mais organizados com o passar dos anos, é claro, mas ele recorda de um apelido engraçado para o arquivo morto do setor de Compras desta época. “Chamávamos nosso arquivo morto de Vietnã, que ficava no meio de um mato fechado, ninguém gostava de ir buscar documentos por lá”, relembra, aos risos. Também nessa época, Wallau trabalhava muito em parceria com Erni Koppe, colega da Engenharia, que lhe ajudava quando era necessário desenvolver novos itens que não existiam no mercado. “Ele conhecia tudo sobre os processos e produtos da Albarus, modificava desenhos pra mim, resolvia tudo e mais um pouco, quebrava muitos galhos pra o Compras”, diz.

Era uma época de muita expansão para a indústria automobilística brasileira, e tanto trabalho logo seria recompensado: em novembro de 77, Wallau passaria a ser Chefe de Compras e, em 79, tornar-se-ia Gerente de Compras. “A Albarus foi a melhor empresa que já trabalhei, também porque ela exigia muito dos funcionários – fornecíamos para as maiores montadoras e isso nos obrigava a trabalhar muito, entregar produtos de excelente qualidade e, assim, nos destacarmos no mercado”, relata. Nessa época, quando foi promovido à Chefe de Compras, a equipe aumentou e Wallau já contava com três compradores.

Ele recorda que, nessa época, existia o CIP – Controle Interministerial de Preços, um órgão governamental que regulamentava e autorizava os reajustes dos preços de matérias-primas como aço, roletes, chapas… Os aumentos de preços nestes itens eram autorizados pelo CIP e, através destas autorizações, os preços eram aumentados. Wallau recorda que era um grande desafio negociar estes preços, buscando sempre um meio termo. “Cuidávamos muito dos preços de matéria-prima, tudo era lançado nas fichas de kardex, analisado manualmente, o que tornava o desafio maior ainda. Posteriormente, seria criada uma área de Análise de Preços, mas na década de 70 ainda era um processo manual”, recorda.

Wallau conta que a primeira coisa que fazia ao chegar na Albarus pela manhã era dar uma volta na fábrica – e explica porque isso era determinante para o sucesso do seu dia de trabalho. “Eu passava pelas máquinas e os próprios operadores comentavam o que estava acabando, que tipo de material deveria ser comprado… E depois, eu ia para a Sala 20, uma sala suspensa, que ficava dentro da fábrica, onde tomava um café e conversava com os outros colegas sobre problemas iminentes e existentes”, lembra. O resultado dessa prática? Quando algum supervisor chegava no Compras para reclamar da falta de algum item, Wallau e seu time já tinham dado o encaminhamento da solução. “Mesmo trabalhando no Administrativo, as pessoas precisam ter um bom relacionamento com os operadores, caminhar pela fábrica, que é o coração do nosso trabalho, isso é essencial”, explica.

Em outubro de 1983, viria a mudança do setor para Gravataí. Em 1984, aposentou-se, mas só parou de trabalhar em 1991. Destes anos as histórias são muitas – viagens, negociações e alguns momentos de descontração. “Lembro que, certa vez, eu estava numa reunião em São Leopoldo e recebi um telefonema da secretária dizendo que eu precisava embarcar imediatamente para o Rio, resolver um problema no fornecedor”, relata. “Só deu tempo de passar em casa e pegar uma muda de roupa antes de embarcar”, lembra, aos risos.
Outro episódio engraçado que ele recorda foi quando Paulo Regner era seu chefe, com quem se dava muito bem. “Ele me levou para trabalhar na sala dele, e avisou o pessoal do Compras que eu iria ficar lá trabalhando com ele, mais tranquilamente”, diz. Wallau tinha sido designado para organizar uma redução de estoque, selecionando o que ficaria, o que precisaria ser vendido – uma tarefa que exigia concentração e silêncio, por isso Regner decidiu realocá-lo temporariamente para a sua sala. Wallau trabalhou sozinho naquele projeto, isolado na sala do chefe. “Certa feita, ele estava em São Paulo e, no horário de almoço, eu estava com os pés em cima da mesa dele, lendo o jornal”, conta, “e ele chegou de repente! Tomei o maior susto, pedi desculpas, ao que ele me respondeu: ‘que é isso, rapaz? Tu tens mais é que mostrar quem é que manda nesse negócio aí!”, conta, rindo muito.

Sobre seus tempos de Albarus, é categórico ao dizer que “a Albarus foi uma escola fantástica. Foram tempos memoráveis e tenho muito orgulho em dizer que trabalhei lá – a empresa foi crescendo a cada dia até chegar ao que é hoje. Posso dizer que contribuí um pouquinho para isso – éramos uma equipe muito motivada, disposta a colaborar”.

Casado há 52 anos com Regina, tem três filhos Jorge Alberto Júnior, Luis Roberto e Janice. Ele curte muito os cinco netos Vanessa, Natália, Luis Roberto Jr., Vinícius e Gabrielle. Nos momentos de lazer, gosta de ir ao cinema com a esposa e curtir a família. “Sempre fiz churrasco para meus filhos, agora, vou à casa deles para que eles assem o churrasco para mim”, sorri. Ele e Regina viajam bastante e Wallau não abre mão de suas caminhadas diárias, e também de trabalhar no escritório dos filhos, para se manter ativo e saudável. E, sempre que pode, frequenta os encontros dos jubilados em Gravataí.

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“Mesmo trabalhando no Administrativo, as pessoas precisam ter um bom relacionamento com os operadores, caminhar pela fábrica, que é o coração do nosso trabalho, isso é essencial.”

Jorge Alberto Wallau