Johann Wolfgang

Limbacher

Em mais de 100 entrevistas do projeto Veteranos Dana, não houve um só entrevistado que não mencionou seu nome. Alegre, festeiro, extremamente competente e trabalhador, Johann Wolfgang Limbacher não só marcou a trajetória da empresa – ele deixou uma marca tão forte que é unanimidade entre os colegas que trabalharam com ele.

In Memoriam ✩ 28/5/1934 ✝04/07/2010

Limbacher trabalhou durante 34 anos como colaborador da Albarus e da Dana e, mesmo depois de aposentado, visitava regularmente a fábrica para alegrar todos com seu senso de humor peculiar e colocar a conversa em dia. O jovem Limbacher foi admitido no dia 1 de janeiro de 1963 no Departamento de Qualidade, onde trabalhou durante toda sua trajetória profissional na empresa.

Na época, Limbacher estava prestes a se graduar pela faculdade de Engenharia Metalúrgica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – já no ano seguinte, ele conquistaria seu diploma. Mas, antes disso, durante um ano, ele adquiriu experiência como Inspetor de Qualidade em uma empresa que crescia à olhos vistos e com uma rapidez impressionante. De personalidade forte e marcante, Limbacher não demorou a se destacar no quadro de colaboradores albarianos.

No início de 1964, Limbacher formou-se e já foi alçado a um cargo de liderança, algo inato para ele, que foi criado com todo o rigor germânico e sabia como poucos o significado da expressão “liderança por exemplo”. “Em janeiro de 1964, me tornei gerente de Controle de Qualidade Metalúrgica na Albarus, logo depois da minha formatura em Engenharia Mecânica e Metalúrgica, que havia acontecido em dezembro de 1963, na UFRGS. Naturalmente, tive que me adaptar a minha nova função rapidamente mas me senti muito grato pela oportunidade – tinha apenas 30 anos e já era chefe de pessoas mais velhas que eu, o que gerou algum desconforto”, disse numa entrevista ao jornal O Pinhão em 1997.

Ainda na mesma entrevista, concedida na época da sua aposentadoria iminente, Limbacher relembrou quais foram seus maiores desafios em relação à produção da Albarus naquela época. “Naquele tempo, não havia tanta diversidade de atividades na empresa, como hoje. Nós produzíamos cardans e seus componentes, principalmente para as montadoras, onde éramos exclusivos. A produção andava em torno de 2.500 a 3.000 cardans, além de peças para o mercado de reposição. Nessa época, a maior dificuldade da área de Qualidade era que ainda não tínhamos grande experiência e equipamentos para a fabricação das peças”, relatou.

Limbacher sempre fez questão de contar que a Qualidade sempre foi algo muito exigido dentro da empresa, mesmo “No tratamento térmico, por exemplo, a gente trabalhava com banho de sal, que era uma mistura de cloreto de sódio e cloreto de cálcio com o cianeto de sódio, que funcionava como material cementante. A têmpera das ponteiras do cardan era feita uma a uma, no calor de chamas. O aquecimento de uma ponteira do F-600 demorava um minuto e meio. Hoje, com o processo de indução, não leva mais do que 15 segundos”, comparou na entrevista ao jornal O Pinhão quando lembrou dos seus primeiros anos de Albarus. “Mesmo nas condições em que trabalhávamos, seu Ricardo Bruno Albarus queria qualidade, fosse como fosse. Em geral, ele era amistoso, especialmente com pessoas que falassem em alemão com ele, como eu fazia. Mas quando ele descia as escadas com os braços abertos e as mãos espalmadas, era sinal de que vinha ‘chumbo grosso’! Ele tinha uma enorme experiência em mecânica e fabricação de peças, e sempre estava disposto a repartir o que sabia. Mas o grande ensinamento que ele deixou foi o compromisso com a Qualidade. Para o Albarus, essa era a única forma para entregarmos sempre o melhor produto e conquistarmos a confiança do cliente. E assim foi, dia a dia”, afirmou.

Em 1974, a Albarus abriu sua nova fábrica de Juntas Homocinéticas, que se tornaria a “menina dos olhos” da empresa durante os próximos anos. Mas, 2 anos antes, Limbacher, junto com outros profissionais experientes em Qualidade como Otávio Palmas e Gibrail Posenato, foi realocado dentro da empresa para desenvolver e cuidar do Departamento de Qualidade e do Laboratório Dimensional antes mesmo da empresa começar a funcionar. “Foi uma época de grande desenvolvimento para a Albarus e a equipe precisava unir forças para que a empresa crescesse, como de fato aconteceu”, disse ao jornal O Pinhão.

O primeiro passo para a equipe da novíssima Albarus Transmissões Homocinéticas foi viajar à Alemanha para aprender tudo sobre o processo de fabricação da peça. Albarianos de diferentes setores de Produção foram convidados a viajar numa imersão de 4 meses, e Limbacher foi designado para liderar o time – ele havia nascido na Alemanha e não precisava de visto de permanência, além de ser o mais experiente do time. Byron Matissek era o Líder de Produção que viajou com o time, e disse que Limbacher foi essencial durante os 4 meses de projeto – e também na volta ao Brasil, quando os planos foram colocados em prática. “Ele nos liderou durante todo o processo com maestria e pulso firme pois sabia que o novo momento estratégico da empresa estava em nossas mãos – e o sucesso da Junta Homocinética começou com essa dedicação dele”.

Durante 34 anos, Limbacher atuou como Gerente de Qualidade. Durante todos estes anos, colecionou amigos, colegas, a admiração de clientes e fornecedores e não é exagero algum dizer que tornou-se uma das figuras mais icônicas da Albarus e, mais tarde, da Dana. Reunimos ao final deste texto alguns depoimentos de colegas que conviveram e trabalharam com ele – eles dão o tom do legado de Limbacher na empresa, algo que não pode ser mensurado com números ou dados. Basta perguntar a qualquer pessoa que o conheceu uma história e, imediatamente, um sorriso se abre. Eficiente, rígido, trabalhador incansável e amigo são os adjetivos mais comuns a estes depoimentos – não deixe de conferir.

Em 1991, depois de tanta experiência na Qualidade, seu conhecimento vasto sobre os processos da Dana o levou a atuar como chefe no Planejamento, Programação e Controle de Manutenção (PPCM). Em 1993, passou a Chefe da Expedição da fábrica de Gravataí e, no final do ano, assumia a Assistência Técnica, cargo que ocupou até 1995. Aposentou-se pouco depois e seguiu como Consultor da Empresa com seus amigos e colegas Erni Koppe, José Domingos Miotti, Benedito Santoro e Francisco D’Ávila. Nesta etapa como consultor, também era sócio da Limbacher Assessoria Comercial Ltda e Avaliador de Laboratórios do Associação Rede de Metrologia e Ensaios do Rio Grande do Sul.

Confira algumas declarações dos colegas que conviveram com ele na Albarus/Dana:

“Em 1965, o Johann Limbacher assumiu a Área de Qualidade, o Hugo Ferreira atuou na Engenharia e Produção, eu assumi a Chefia de Produção… E esse grupo respondeu bem aos desafios, que eram extraordinários: nós anualmente dobrávamos, até triplicávamos a produção neste período de grande crescimento da indústria automobilística brasileira. Um time inesquecível, e o Limbacher fez toda a diferença neste processo”.

Tito Livio Goron

“Em 1968, fiz minha primeira viagem aos Estados Unidos com Johann Limbacher como companheiro de viagem. Ele dizia: ‘Santoro, tu não te preocupa: a gente não fala inglês, mas eles também não sabem falar em português’. Ele era único. Nossa missão nessa viagem era aperfeiçoar nossos conhecimentos sobre a Qualidade do Cardan – o Limbacher, claro, aprendeu tudo sobre este produto com a maestria habitual de tudo que ele fazia”.

Benedito Santoro

“A formação do time de Qualidade foi pioneirismo da Albarus – éramos a segunda equipe que atuava com isso – a primeira começou na Ford – para evitar a rejeição depois de processadas as peças prontas. Limbacher já era nosso chefe numa época em que a Qualidade começava a ser muito exigida pelas montadoras, que estavam em franca expansão com novos veículos (Opala, Chevette, Aero Willys, Jeep, Simca). A Albarus, como pioneira em tração, tinha que acompanhar as exigências e padrões impostos pelas montadoras, imagine a responsabilidade que o Limbacher tinha. Ele ajudou a instaurar a cultura da Qualidade na empresa e teve decisões essenciais como treinar os operadores, inspetores e inclusive sugerir a alfabetização do pessoal de fábrica – ele dizia que a Qualidade começava com eles, que deveriam ser cada vez mais incentivados a crescer e aprender sobre seus processos – isso foi absolutamente pioneiro”.

João Carlos Esquivel

“Aprendi muito com as pessoas que já estavam na fábrica antes de eu chegar: Wolff Zwick, por exemplo, era um mestre. O Johann Wolfgang Limbacher foi outro – era bastante crítico, o que nos fazia crescer imensamente. Mas ele não pegava no meu pé – eu é que pegava no dele. Limbacher é um cara que vive até hoje na empresa, absolutamente inesquecível e visionário”.

Nadir Meyer Krás

“Durante todos meus 48 anos de Albarus, trabalhei muito com o Limbacher em parceria. Por sermos descendentes de alemão, tínhamos muito em comum, profissionalmente e pessoalmente também. Eu trabalhava como engenheiro e nosso primeiro trabalho juntos foi fazer o planejamento de produção da junta homocinética – eu, Limbacher e Edgar Albarus. Quando fechamos o contrato com a Unicardan, da Alemanha, Limbacher foi enviado à Alemanha, liderando um time de 9 pessoas para aprender o know-how na empresa para trazer a tecnologia ao Brasil. Ele era alemão, não precisava de visto de permanência no país, e essa viagem deles mudou o rumo da empresa e trouxe muito conhecimento para a então recém-construída fábrica de Juntas Homocinéticas”.
Erni Carlos Koppe

“Quando fomos pra Alemanha, em 1972, eu era Mestre de Produção e o time convocado foi o Limbacher, como chefe de Qualidade, o Luis Carlos Lauer, especialista em elétrica, o Bertinger foi como Engenharia, e minha função era aprender sobre a Produção. Fomos em março e, em julho, voltamos ao Brasil. Limbacher nos liderou durante todo o processo com maestria e pulso firme pois sabia que o novo momento estratégico da empresa estava em nossas mãos – e o sucesso da Junta Homocinética começou com essa dedicação dele”.

Byron Cláudio Matissek

“O Limbacher conheci quando era estagiário na Staiger – ele estava iniciando sua carreira na indústria e, como eu já era caldeireiro profissional, ensinei o que sabia para ele. Quando comecei na Albarus, vi e admirei o crescimento dele como profissional de Qualidade – só a personalidade que continuava a mesma, uma alegria contagiante e o melhor convidado de qualquer festa!”

Caubi Manoel Luis

“Lembro que o Johann Limbacher tinha acabado de ir pra Alemanha quando eu entrei na Divisão de Juntas Universais, e ele foi meu último gerente na empresa também – uma pessoa maravilhosa. No início, tudo era manual – imagine o trabalho que isso dava – mas o Limbacher tirava de letra. Era o primeiro a chegar e o último a ir embora, dedicado e apaixonado pela Albarus como só ele.”

Lauro da Rosa Gonçalves

“O Johann Limbacher foi uma das primeiras pessoas a acreditar em mim e, quando eu era Inspetor de Qualidade já há alguns anos, me deu a oportunidade de ser Líder do grupo de Qualidade na fábrica, em 1966. Eu era muito jovem, fiquei com receio porque tinha gente mais antiga que eu ali, mas aceitei de bom grado. Esse ‘empurrão’ do Limbacher foi fundamental para meu crescimento e só mostra o tamanho de sua generosidade – um ano depois, ele me promoveu novamente e só fui crescendo sob sua tutela no Departamento da Qualidade”.

Otávio Palmas

“Eu trabalhei muitos anos com ele na Albarus, e convivi mais ainda fora da empresa. Nós éramos tão grudados que, pra mim, é difícil até de falar sobre ele. Onde eu e minha família estávamos, ele estava sempre conosco. Era um irmão – tanto que, quando saí da Qualidade, foi ele que conseguiu a vaga para minha próxima etapa dentro da Albarus. Mesmo que não fosse na área dele. Mas, dentro da Qualidade, Limbacher foi essencial para a conquista do mercado gaúcho e depois, com o apoio da Dana, começou a deslanchar com uma série de máquinas novas que chegaram. Daí para a conquista do mercado nacional – e parte do europeu também – foi um pulo”.

Nelson Tegel

“Em 1967, fui promovido para trabalhar com o então Chefe da Qualidade, Johann Wolfgang Limbacher produzindo amostras de produtos para os grandes clientes que a empresa conquistaria na época (GM e Ford, entre outras empresas). Cada amostra que era aprovada pelo cliente era uma festa imensa – Limbacher sempre fazia questão de comemorar as nossas vitórias, e bastante. Minha admiração pelo Limbacher é tamanha que ele esculpiu um busto do ex-chefe em madeira num dos tornos da empresa. Ele era um cara inesquecível, como profissional e como pessoa era alguém inigualável e que marcou a trajetória da empresa e de quem o conheceu”.

Balsemino Esteves

“Fui entrevistado por Johann Wolfgang Limbacher e pelo engenheiro Pedroza, os dois responsáveis pelo Departamento de Qualidade em 1972, quando comecei minha carreira na Albarus. Fui aprovado com louvor na entrevista e iniciei uma trajetória de 16 anos de Dana no Controle de Qualidade, respondendo ao gerente, Limbacher, e ao sub-gerente, Pedroza. Muitos falam do Limbacher como pessoa, mas eu gostaria de falar do profissional. Ele era muito técnico, perfeccionista, obstinado a ter o melhor resultado e cobrava o mesmo de quem estava sob sua gerência – isso muito antes de sequer se falar em qualquer conceito moderno de gestão e eficiência, como temos grandes gurus falando hoje. Ele era o líder nato, aquele que nos mostrava pelo exemplo que não precisávamos – nem deveríamos – nos contentar com o primeiro resultado. Precisávamos querer sempre mais – e depois, querer mais ainda, em busca de excelência para a Albarus acima de tudo. E também era um mestre ao lidar com equipes, sempre presente na vida de todos, um grande amigo”.

Fábio Freitas Jacques

“Com o Limbacher, aprendi que não tinha ‘não’, nem ‘não pode’. Ele era um soldado e não media esforços dentro da Albarus. Ele era um profissional de Qualidade que não ficava só na Qualidade – ninguém que durou na Albarus era colaborador de uma só sessão. Ele, aliás, trabalhava na Qualidade mas estava sempre na fábrica – não era aqueles “gestores de escritório” – gostava do chão de fábrica, sabia que tudo nascia ali. Era brincalhão, genioso, teimoso que só – mas um colaborador único, trabalhador, amigo, divertido e sério ao mesmo tempo… Gente como não se faz mais”.

José Nobre

“Antes de entrar na Albarus, já havia atuado em empresas como a Micheletto, Elevadores Sür e a Madef. Quando eu estava na Micheletto, o Johann Wolfgang Limbacher apareceu lá e começamos a conversar sobre a Albarus. Tratei de investigar se era uma boa empresa, mesmo que eu gostasse da Micheletto, assim que abriu uma vaga na Albarus, lembrei do Limbacher e me candidatei – nem posso começar a contar isso que já me emociono. Lembro que tinha 25 candidatos para a vaga do Controle de Qualidade, mas acabei entrando. Foi uma alegria muito grande ser escolhido pelo Limbacher, que já tinha uma reputação maravilhosa no mercado – e isso era o final da década de 60! A Albarus estava funcionando a todo vapor, com novos clientes entrando a toda hora e numa época em que a qualidade começou a ser muito mais exigida – eu tinha um chefe fantástico, que me motivava muito. Limbacher fazia muita hora extra conosco, trabalhando aos finais de semana, sempre sorrindo, brincando, era um amigão e um chefe rígido, mas que me fez crescer muito no âmbito profissional”.

Mario Ferreira

perfil23

De 1963 até 1997, quando se aposentou, Limbacher atuou em diversas áreas da Dana – a maioria deles relacionados ao Departamento de Qualidade. Durante todos estes anos, colecionou amigos, colegas, a admiração de clientes e fornecedores e não é exagero algum dizer que tornou-se uma das figuras mais icônicas da Albarus e, mais tarde, da Dana.

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