Ismeraldo

Gonzaga Cintra

Homem de riso fácil e grandes amigos, Ismeraldo só traz boas lembranças dos 26 anos de trabalho e tem gratidão eterna por tudo o que conquistou na vida por meio do trabalho na empresa.

Se pudesse retroceder o relógio do tempo, Ismeraldo Gonzaga Cintra não mudaria em nada o roteiro de sua vida. É um homem feliz, satisfeito com suas conquistas, transbordando alegria por todos os poros. Simples no trato, mas nobre na essência. “Não trago nenhuma tristeza do passado. Tive vários momentos difíceis, algumas decepções, mas sempre trilhei meu caminho com amor”, diz. Grande parte da sua felicidade atribui aos 26 anos passados em uma das maiores forjarias do país, cujas operações de Campinas e Jundiaí foram adquiridas pela Dana em 2017.

Nascido no Triângulo Mineiro e trabalhador da lavoura, Ismeraldo almejava dias melhores longe das plantações de milho, arroz e feijão. Ouvia a mãe, nascida em Ribeirão Preto (SP), sempre falar com muito carinho sobre Jundiaí, cidade no interior de São Paulo onde a família guardava alguns amigos. “Passei anos querendo ir embora, mas meu pai não deixava. Com 23 anos tomei coragem”, recorda. O conselho da mãe quando deixou a cidade natal nunca saiu de sua cabeça: “Vá para Jundiaí e seja fiel a Deus. Se for sincero com Ele, será sincero com todo mundo”.

Aos 23 anos e recém-chegado à cidade, Ismeraldo não tinha a menor ideia do que era o trabalho em uma indústria. Procurou emprego em várias fábricas, mas foi atraído pelo salário da grande forjaria. “Enquanto as outras pagavam 1,60 cruzeiro por hora me ofereceram 3,06 cruzeiros. Um amigo até tentou me dissuadir dizendo que lá era uma boca de fogo, mas não desisti”, conta.

O primeiro dia de trabalho foi em 16 de junho de 1975. Sem saber o que iria encontrar, estava bastante assustado, começando pelo uniforme que mais parecia um traje de astronauta: capacete, protetor de ouvido, mangote nos braços, avental. Passou pela forjaria, mas foi levado para a área de corte de matéria-prima e, ao contrário do prometido calor escaldante, sentiu um frio danado. “Naquele tempo Jundiaí era gelado. À noite, as poças de água que se formavam em cima das lonas e plásticos do material viravam gelo”, recorda.

Foi o jeito curioso e o ímpeto pelo trabalho que fez com que o ajudante geral começasse a galgar os primeiros degraus da sua carreira. “Viram que eu tinha interesse nos métodos de produção e me perguntaram se eu queria aprender outras funções”, lembra. O corte com oxigênio e com maçarico assimilou facilmente e logo passou para a função de operador de serra circular, responsável pelo corte de vergalhões. “Tinha muito entusiasmo, fazia hora extra todo dia”.

Ismeraldo também percebeu que a empresa dava oportunidades de crescimento e foi atrás da habilitação. Não demorou para ser convidado a comandar as empilhadeiras. “Eu já ai aceitar a nova função quando o meu chefe falou para eu não ir porque teria mais chances de desenvolvimento se ficasse naquele setor. Disse também para eu trabalhar direito, ser obediente e não faltar sem real necessidade para não sujar a minha ficha”. Além disso, Ismeraldo sempre ficava atento às críticas do superior a algum colega para não cometer o mesmo erro.

Pouco tempo depois, foi convidado a trabalhar na Ficep, uma máquina ultramoderna, totalmente automatizada. Em uma semana já estava operando o equipamento com desenvoltura e por lá ficou por longos 16 anos. Neste mesmo período, a empresa sugeriu que ele fizesse um curso técnico de chefia. “Não me prometeram nenhum posto, mas queriam que eu estivesse preparado caso precisassem de um novo líder. Abracei a ideia. Foram dois anos trabalhando de dia e fazendo o curso à noite.”

Em toda a sua trajetória, Ismeraldo jamais pressionou a empresa por uma promoção. Sabia que ao fazer seu trabalho com dedicação e afeto seu dia chegaria. Não desanimou nem quando treinava outros profissionais, que eram promovidos antes que ele. Soube esperar seu tempo. Em 1990, o chefe de Ismeraldo desligou-se da empresa por motivos de saúde, delegando a ele o cargo de líder de seção com 22 subordinados. “Eu sou homem de chão de fábrica, gosto de estar perto dos funcionários, ver o que estão fazendo, resolver os problemas e cuidar da segurança”, afirma. O líder, inclusive, sempre foi cipeiro e recebeu medalha de honra por passar cinco anos sem sofrer qualquer acidente.

Com estilo tranquilo e bem religioso, Ismeraldo estranhou quando seu chefe lhe ofereceu uma equipe de funcionários evangélicos. “Não entendi muito bem aquilo e na primeira reunião com a turma expliquei que não sabia o motivo da junção, mas acreditava que eles queriam que aquele turno fosse abençoado”. As palavras em tom de brincadeira tornaram-se realidade. Todos os problemas que os turnos anteriores não conseguiam resolver eram facilmente solucionados pela equipe de Ismeraldo.

Em 1994, a empresa juntou-se à Acesita e passou por uma grande reestruturação por conta de uma grave crise financeira. Quase todos os supervisores saíram da empresa, mas Ismeraldo foi poupado e ainda lhe ofereceram o cargo de coordenador de corte e do recebimento. “Fiquei preocupado porque o recebimento era o coração da empresa, ou seja, toda a matéria-prima para a confecção das peças seria minha responsabilidade. Além disso, meu chefe disse para não perguntar sobre o salário, simplesmente fazer acontecer”, recorda-se.

Mesmo receoso em não dar conta do recado, aceitou a empreitada. Acostumado ao trânsito fácil na área operacional, o novo coordenador estranhou a linguagem usada nas reuniões de diretoria. “Antes minha vida era falar sobre peças, qualidade de produção. Ali eles queriam números, resultados, porcentagem de lucratividade. Precisei de uma força suprema para dar conta do novo cargo.”

No final de 1997, a empresa passou por um processo de certificação da ISO 9000 e não poderia mais ter um profissional no cargo de gerente que não fosse engenheiro ou técnico. Ismeraldo precisou, então, voltar para a fábrica como técnico de manufatura 3. “A princípio eu não gostei, mas foi a mão de Deus que colocou aquilo na minha vida, porque tempos depois tive um problema de coluna e pude fazer o tratamento no tempo necessário para a minha recuperação”.

Em agosto de 2000, chegava a hora de Ismeraldo se aposentar. A notícia agradou o técnico que há anos planejava ter alguns momentos de mais tranquilidade. “Já tinha decidido que quando chegasse a hora pararia de trabalhar. Queria aproveitar o tempo e a saúde que tenho para fazer o que eu gosto”.

Casado com Julia, pai de cinco filhos e avô de quatro netos, Ismeraldo tem uma rotina espartana. Logo cedo leva as crianças para a escola, depois passa a manhã trabalhando na terra de alguns amigos no bairro de Caxambu, lá mesmo em Jundiaí. Planta banana, milho, quiabo, cebola, feijão, tudo para consumo próprio. Na hora do almoço pega os netos novamente na escola e tem a tarde livre para descansar. “Para mim, mexer com a terra é uma terapia, me mantém ativo e faz bem para a saúde”, garante.

Nos últimos tempos ficou muito feliz em ser convidado para participar dos encontros com os veteranos. Acreditava que com a Dana, sua história com a empresa estava encerrada. “Foi uma surpresa ser contatado pela Dana, é uma linda forma de reconhecimento por tudo o que fizemos ao longo dos anos. Sou muito grato a eles, que sempre me deram muitas oportunidades. Tudo o que tenho na vida foi adquirido ali”.

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“Foi uma surpresa ser contatado pela Dana, é uma linda forma de reconhecimento por tudo o que fizemos ao longo dos anos. Sou muito grato a eles, que sempre me deram muitas oportunidades. Tudo o que tenho na vida foi adquirido ali”.