Iranildo

Lopes Romão

O sonho de ter tempo livre para curtir a aposentadoria passou longe do dia a dia do líder da traçagem da unidade de Jundiaí, mas a trajetória profissional de sucesso é motivo de orgulho e inspiração para a vida pessoal

Nem sempre a vida oferece opções de escolha, mas, às vezes, o único a caminho a seguir é o que te leva ao lugar certo. Foi exatamente o que aconteceu com Iranildo Lopes Romão ao ter o Senai como única alternativa de continuar os estudos. Por conta própria, aos 14 anos de idade, conseguiu uma vaga no disputado curso de mecânica para automóveis, em1971. Sempre em busca de oportunidades, ouviu nas conversas de corredor que as empresas da região contratavam os alunos da escola. Não perdeu tempo, fez sua inscrição no primeiro processo seletivo que encontrou, foi muito bem na prova e conseguiu uma das 15 vagas disponíveis para trabalhar na metalúrgica mais cobiçada pelos alunos, hoje sob o comando da Dana.

Efetivado automaticamente após o término do curso, em 1973, o primeiro trabalho assustou o jovem aprendiz de apenas de 16 anos. Contratado como inspetor traçador, o rapaz precisava conferir junto aos desenhos das peças as medidas e dimensões dos moldes vindos das áreas de forjaria e matrizaria. Qualquer erro no processo resultaria na produção de um lote completo de peças erradas. “Os desenhos tinham muitos detalhes, linhas e números para todos os lados. Na escola o máximo que eu tinha visto era desenhos com três vistas, aí achei que não ia dar conta do recado”, recorda. O desafio, contudo, apenas instigou a curiosidade e a vontade de aprender. Em pouco, Iranildo já manejava equipamentos e cálculos com maestria. E com o passar do tempo, às vezes, nem precisava mais olhar os desenhos para traçar algumas peças. Só de olhar já sabia o que precisava ser feito. “O trabalho era tão específico que nem existia treinamento. A gente aprendia tudo na prática”, observa.

Com um local de trabalho bem diferente do ambiente fabril, Iranildo diz que alguns funcionários da empresa achavam que eles estavam no paraíso. A sala com uma ampla mesa de granito, bem iluminada e com ventilador impressionava, mas muitos dos que passaram pelo local não aguentavam a complexidade do trabalho. A tarefa não exigia força braçal, mas altas doses de raciocínio e concentração pelo uso excessivo de cálculos. “Foram poucos os que passaram por ali e seguiram adiante. Somente eu e outro funcionário ficamos até a aposentadoria. A gente treinava o cara e quando ele desistia, a gente brincava: ‘Ué, vai embora do paraíso?”, diverte-se ainda hoje.

Com o avanço da tecnologia, o trabalho foi pouco a pouco sendo facilitado. O altímetro com escala fixa usado logo que ingressou na empresa, no início dos anos 1970, foi substituído pelo altímetro digital mecânico e depois pelo altímetro digital eletrônico. “Atualmente ninguém mais usa esses equipamentos, está tudo computadorizado. O funcionário precisa saber usar o software”, comenta. Outra mudança foi a evolução das ferramentas para fixação das peças. No começo usava-se um cubo e as peças eram manuseadas manualmente, processo trocado posteriormente por uma ferramenta com movimentação 360 graus. “Teve uma época que começamos a fazer eixos maiores, aí precisamos adaptar o equipamento novamente. Essa dinâmica do trabalho, de ter um desafio novo a cada dia, foi o que me fez ficar tanto tempo na empresa”, analisa.

Em 1994 foi convidado a integrar a equipe de gestão da Associação de Funcionários, um clube de esportes e lazer organizado pelos funcionários da empresa. “Um ano depois cheguei ao cargo de presidente da associação, a primeira vez que um funcionário do chão de fábrica ocupava tal cargo”, destaca. Quando assumiu, a ideia era ampliar as instalações com piscinas e playground para as crianças, mas a prefeitura desapropriou boa parte do terreno para a ampliação da avenida União dos Ferroviários e os planos precisaram ser modificados. A partir de 1998, passou a se dedicar exclusivamente a coordenação do clube, onde ficou até 2003.

Dedicou-se ao trabalho voluntário na área de saúde por dois anos. Ajudava nas campanhas de vacinação, fez o mapeamento das famílias do bairro para o programa Saúde da Família e atuava na coordenação da coleta de sangue no posto de saúde (UBS). “O serviço público é muito complicado, é preciso brigar por cada melhoria a ser feita e raramente tinha verba suficiente para aperfeiçoar os programas existentes e oferecer um atendimento digno para a população. Aí desisti”, explica.

Dois meses depois, em 2005, Iranildo foi convidado a voltar para a empresa. Ficou um ano trabalhando em Jundiaí e foi transferido para unidade de Campinas com a importante missão de levar o mesmo grau de eficiência e profissionalismo da área de traçagem de Jundiaí para lá. “Mudamos muita coisa, dei cursos de desenho e ajudei muita gente a subir na carreira, mas chega um momento em que as viagens diárias e a distância da família acaba pesando”, conta. Aposentado desde fevereiro de 1997, Iranildo decidiu que era hora de parar e saiu definitivamente da empresa em 2012. “Tudo o que eu tenho e tudo o que eu sei devo à empresa. No cargo de líder pude fazer vários amigos e tive uma longa carreira de aprendizado e desafios diários. Só tenho gratidão por todo esse tempo que passei na empresa”, elogia.

O sonho de todo aposentado é curtir o tempo livre, mas Iranildo continua com a vida atribulada. Após a saída da empresa precisou dedicar-se à saúde da mãe e da sogra e no momento cuida do pai também adoentado. Consegue ir na academia três vezes por semana, mas frequenta pouco o clube que ajudou a construir com tanto carinho. Casado com Maria Aparecida há 39 anos e pai da Cristiane, Iranildo divide as tarefas de casa com a esposa e ajuda os amigos com as finanças fazendo declaração de imposto de renda. Gosta muito de participar do programa de veteranos da Dana. “Encontrar as pessoas com quem convivemos por tanto tempo e relembrar as nossas aventuras é muito prazeroso, isso sem falar no sentimento de reconhecimento que temos ao saber que a empresa ainda nos quer por perto”, completa.

 

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“Tudo o que eu tenho e tudo o que eu sei devo à empresa. No cargo de líder pude fazer vários amigos e tive uma longa carreira de aprendizado e desafios diários. Só tenho gratidão por todo esse tempo que passei na empresa.”

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