Hélia

Cadore

Foram 29 anos de serviços prestados à mesma empresa que, para ela, passaram suaves como uma sonata de Beethoven. Hélia Cadore é assim – uma pessoa extremamente musical e delicada, que dedicou-se incansavelmente à função de secretária quando aquelas jovens moças ainda não tinham a autonomia de hoje, mas desempenharam sim um papel fundamental dentro da organização.

Seu caminho na Albarus começou quando ela trabalhava como professora de inglês no Yázigi, em Porto Alegre. Ela recorda que alguns alunos que estudavam na escola eram da Albarus – o idioma ainda não era tão difundido como é hoje, e os executivos precisavam aperfeiçoar-se para ficarem alinhados às exigências da organização. Um destes alunos era Vitor Vieira (que chegou a posição de Diretor de Compras), e ele comentou com uma colega de Hélia que estavam precisando de uma secretária que falasse inglês bem na empresa. A menina tímida, nascida numa fazenda em Lagoa Vermelha, a 320 km de Porto Alegre, aceitou o desafio.

Foi conversar com José Carlos Bohrer, o executivo que precisava de uma nova secretária bilíngue – Ângela, que trabalhava com ele, estava de mudança para os Estados Unidos e buscavam uma substituta. “Ninguém olhou meu currículo, fiz uma rápida entrevista e comecei a trabalhar naquele mesmo dia, acredita? Nunca vou esquecer que estava tão nervosa que errei 10 vezes o mesmo memorando, morri de vergonha!”, recorda, entre risos.

O ano era 1967, e ela já de cara iniciou num cargo importante – era secretária de Bohrer, Diretor da Albarus. Isso lhe permitiu ter uma ótima relação com diversas pessoas da empresa – ela recorda com carinho de diversos nomes: “Gostava e respeitava muito o engenheiro Levi (Brum), o engenheiro Limbacher, também o Ênio Moura Valle, além de ter criado uma ótima amizade com meu chefe e a sua família… A Albarus era uma verdadeira família, te digo isso sem exagero algum da minha parte”, conta.

Na época, ela ainda não havia casado, e fazia muitas horas extras, especialmente aos sábados. “A empresa ficava deserta nesses dias, éramos poucas pessoas, e os porteiros – eu levava uma vida muito pacata – depois, com marido e filhos, é que veio a maior responsabilidade e outras alegrias”, recorda.

Destes anos todos trabalhando como secretária de Bohrer, Hélia diz que aprendeu muita coisa e que o sentimento de gratidão é proporcional ao tempo de empresa. “A Albarus foi uma verdadeira escola para mim, que me garantiu muitos exemplos positivos. Meu chefe era austero, prudente, um excelente negociador, que sempre me tratou com enorme consideração – por isso, me orgulho tanto de todos estes anos”, reflete.

Uma história memorável? “Tínhamos um grande desafio para vencer: não lembro qual era a certificação governamental que a empresa queria conquistar, mas fui recrutada pelo Ênio Moura Valle para ajudar na conquista, preparando um relatório gigantesco”, conta ela. Para vencer a montanha de informações, dois office boys foram selecionados para ajudá-la a montar o tal relatório durante um dia e uma noite inteira. Hélia era conhecida por ser uma ótima – e rápida – datilógrafa e, após uma madrugada trabalhando na Albarus até as 14 horas do dia seguinte, Moura Valle viajou ao Rio de Janeiro para entregar o resultado de todo o trabalho.

Tanto empenho deu certo e o resultado foi o desejado – que rendeu um bônus pelo empenho adicional de Hélia. “O prêmio teve um destino certeiro”, diz ela, apontando para o enorme piano que fica na sala de estar de sua casa, sorrindo. Melhor investimento, para quem ama música como ela, não há. Ela e o marido, que toca flauta, adoram ficar executando peças clássicas juntos desde que o piano virou peça-chave da casa.

Outro grande desafio encarado com o bom humor rotineiro? A informatização. “Não tive tanta dificuldade para me adaptar ao computador – tive, sim, no que diz respeito aos termos técnicos desta linguagem: deletar, salvar, formatar… Era tudo muito novo para todos nós!”, relata. Hélia lembra também de uma grande campanha que ajudou muito na empresa, lançada por Tito Livio Goron: a desburocratização. “Nisso, o computador facilitou muito nosso trabalho, também – acredito que estávamos cansados de tantos papéis, daquela quantidade absurda de coisas armazenadas! Essa campanha veio em ótima hora para a empresa, e tornou tudo muito mais prático. Eu fiquei tão feliz que tenho até uma foto triturando papel, foi uma libertação”, reconhece.

Quando Bohrer se aposentou, ela mudou de área e foi atender ao time que cuidava da área educacional dentro da Dana, a “Dana U”. Atendia Flávio Möller, José Ceccon, Ivo Noll por mais um ano e meio – outro período de aprendizado para ela, trabalhando numa área diferente da que atuou durante tantos anos. E, logo, era chegada a hora da aposentadoria de Hélia. Porém, como outros jubilados da Dana, ela trabalhou prestando serviços para a companhia – no caso dela, durante mais oito anos. “Na grande maioria dos casos, trabalhei como tradutora nestes anos – havia uma grande demanda e, como já conheciam meu trabalho, acabei ficando”, relata.

Hoje, ela diz que tem muitas outras coisas para curtir e aproveitar – o marido, Luis (com quem casou em 1975) e os filhos Ângelo e Mariane – de 34 e 32 anos, respectivamente. Eventualmente, ela trabalha dando aula de piano, mas aproveita mesmo suas paixões – a família e viajar, além de muita música sempre.

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“A Albarus foi uma verdadeira escola para mim, que me garantiu muitos exemplos positivos.  Naquela época, a empresa era uma verdadeira família, te digo isso sem exagero algum da minha parte”

Hélia Cadore