Gleci

Maciel Bueno

Uma vida marcada por situações difíceis que nunca lhe tiraram o sorriso do rosto – não é à toa que Gleci Maciel Bueno, em seus 33 anos de trabalho dentro da fábrica de cardans da Dana, ficou conhecida por ser uma mulher guerreira e uma inspiração para todos que a cercam.

Nascida em Santana do Livramento, seu caminho na empresa começou ainda na antiga Albarus, quando o marido, Adir, conseguiu emprego lá como Serralheiro em 1978. “Ele era batalhador e, depois de muito lutar, conseguiu trabalho na Albarus, era o sonho dele”, recorda. Gleci, nessa época, trabalhava na Taurus e já tinha a filha mais velha, Nara. Logo, engravidaria da segunda, Sandra. “O Adir amava trabalhar na Albarus, sempre dizia que era uma empresa muito boa”, afirma.

Uma tragédia mudou rapidamente a configuração das coisas: Adir faleceu, aos 44 anos, repentinamente. Gleci ficou com duas filhas pequenas e, nessa época, já tinha saído da Taurus para cuidar das duas. “O mecânico que atuava junto do meu marido se compadeceu da minha situação e me convidou para entrar na Albarus para, um dia, ocupar a vaga que tinha sido do Adir. Naquela época, era tudo mais simples, não precisava ter cursos para entrar, e aceitei a ajuda nesse momento difícil da minha vida”, diz.

Gleci foi contratada pela Albarus em 21 de março de 1988 para trabalhar com faxina na fábrica de Cardans de Gravataí. Saía de casa ainda de madrugada – morava com as filhas em Alvorada, na casa onde reside até hoje – e voltava só no fim de tarde, mas estava feliz pela oportunidade de dar uma vida melhor para as filhas pequenas.

Quando surgiu a oportunidade de trocar de cargo e virar operadora de máquina, Gleci não pensou duas vezes em se candidatar. A vaga era na Montagem de Cruzetas, e sua dedicação na limpeza da fábrica rendeu-lhe o novo trabalho. “Eu adorava trabalhar na Montagem de Cruzetas, me dava bem com todos meus colegas e também com minha chefia e me sentia realizada por poder fazer este trabalho – tanto que fiquei ali até me aposentar e sair da empresa”, afirma.

Durante seus 21 anos de carreira na Dana, Gleci diz “só guardar memórias boas”. Ela, inclusive, agradece muito toda a ajuda da empresa quando teve um problema de saúde e precisou ficar afastada para fazer cirurgia, mas a história que mais a marcou foi quando Maria Fortes, colega que trabalhava no Departamento de Recursos Humanos, ajudou-a em outra questão delicada. “Um dia, cheguei em casa do trabalho e recebi uma carta do Fórum de Alvorada me dizendo que eu tinha um neto que foi entregue para adoção em São Paulo – minha filha mais velha estava morando lá e entregou-o para adoção – nessa época ela estava morando na rua”, lembra. “Se eu não quisesse este menino, ele ia ser encaminhado pra adoção e, com a ajuda da Maria Fortes, fui atrás do que precisava para adotar esse netinho que eu nem sabia que tinha”, diz.

Gleci, então, foi conversar com a colega do departamento de Recursos HUmanos para entender como funcionava a burocracia para adotar uma criança. “Fui para São Paulo e a Maria tinha me orientado sobre a papelada toda e como atuar nesse caso – a assistente social da Dana de São Paulo também me ajudou bastante”, explicou. A Dana, inclusive, custeou a passagem de Gleci para São Paulo, mais um motivo pelo qual ela é tão grata à empresa. “A assistente social da Dana São Paulo me levou pra visitar minha filha Nara, que estava internada, e depois me acompanhou de volta ao hotel – ela também trazia notícias do meu neto, que eu ainda não podia ver”, conta.

Depois de muita luta – e 4 anos de vai-e-vem de Alvorada a São Paulo – Gleci finalmente conseguiu trazer o neto Gabriel para junto de si. “Foi muito emocionante, mas um período de adaptação muito difícil, especialmente para ele, que já tinha sido encaminhado para outra família por um erro da instituição social que o abrigou”, conta. Gabriel ficou até os 15 anos morando em Alvorada com a avó e se adaptou perfeitamente à avó, mas a família que o adotou nunca esqueceu dele e vinha vê-lo constantemente. Quando ele completou 15 anos, essa família ofereceu estudo e Gabriel voltou para São Paulo, feliz da vida com a oportunidade.

Mas a luta de Gleci ainda continuaria – ela ainda descobriu mais 2 netos, Guilherme e Greice Gabriele, nos anos seguintes. Nara seguia sua condição de moradora de rua, mas agora em Porto Alegre e, toda vez que chegava à Santa Casa para ter mais um bebê, lembrava de dar o nome e telefone da mãe em Alvorada. A vó-guerreira adotou mais estes 2, que hoje são adolescentes e moram com ela.

Quando Gleci conta essas histórias de luta e dificuldade, não se queixa um só instante e sempre faz questão de agradecer à Dana, aos seus colegas e amigos que tanto lhe ajudaram nesta jornada. Tanto que faz questão de ir aos encontros trimestrais do jubilados para rever os colegas e dar notícias dos netos. A filha Nara ela perdeu há 3 meses – “perdi a batalha com as drogas, internei ela não sei quantas vezes…” – e a mais nova, Sandra, também lhe deu um neto, Matheus.

Gleci dá significado à palavra “resiliência” e não se lamentou um momento sequer – pelo contrário, lembrou mais de coisas boas do que ruins e se apega na sua fé em Deus para nunca desanimar. Hoje, luta para criar os filhos-netos e, quando pode, viaja para Caxias do Sul e para Livramento para visitar os familiares. E diz que sempre fará questão de prestigiar os encontros dos veteranos da Dana. “A empresa salvou a minha vida mais de uma vez – só tenho a agradecer, todos sempre foram muito bons comigo e levo a Dana no coração”, conclui.

Gleci Maciel Bueno

“Eu adorava trabalhar na Montagem de Cruzetas, me dava bem com todos meus colegas e também com minha chefia e me sentia realizada por poder fazer este trabalho – tanto que fiquei ali até me aposentar e sair da empresa. Só tenho a agradecer, todos sempre foram muito bons comigo e levo a Dana no coração.”

Gleci Maciel Bueno