Gilberto

Lindner Rodrigues

25 anos como funcionário mais 25 anos como prestador de serviços. A trajetória de Gilberto Rodrigues na Albarus e Dana é uma história tão longa quanto repleta de amor, dedicação e amizades profundas, que duram até hoje. Um gentleman, Gilberto adora relembrar seus tempos de Dana e, com boa memória, é um dos veteranos que mais guarda tesouros em casa – sejam eles fotos ou documentos.

Gilberto começou sua trajetória albariana em 1960, para ajudar na organização do Arquivo da empresa. “Em janeiro de 1960, vi um anúncio no jornal para a vaga de auxiliar de escritório. Na época, eu morava no Jardim Itu, pertinho da Albarus, e trabalhava no Centro. Fiz a entrevista e, poucos dias depois, recebi uma carta assinada pelo então chefe do Departamento Pessoal, Nelson Mallmann, solicitando minha presença na empresa”, relembra. Em 15 de janeiro ele iniciava sua carreira na empresa como Auxiliar de Arquivista.

Depois de pouco mais de um ano nesta função, Gilberto foi promovido para o Almoxarifado – mais especificamente para trabalhar no Controle de Entrega de Materiais. “Mas logo fui promovido para o Departamento de Contabilidade da Albarus, na função de operador de contas correntes, pois naquela época eu já tinha o curso de datilógrafo”, diz.

Seu chefe era o Décio Abruzzi, Contador Geral e um dos sócios da Albarus, que logo seria substituído pelo também contador Darci Ferreira Otero. A contabilidade estava muito atrasada e, por esta razão, havia quatro operadores trabalhando em dois turnos. “Eu trabalhava no segundo turno, à noite, com o Ronaldo Hirtz e a minha máquina era uma National NCR-3000, de programação mecânica. Bah! Me tornei um craque naquelas máquinas”, conta. Até 1967, Gilberto ficaria atuando na Contabilidade, com muita garra e algumas histórias pra contar.

Uma delas aconteceu em 1964, quando vivia seu primeiro ano de casado. “Minha esposa já estava grávida e surgiu uma oportunidade de eu trocar a minha Lambretta por um carro, o que convinha mais nas circunstâncias”, relembra. O chefe da Tesouraria da Albarus, Claudio Guterrez, estava vendendo o seu velho Citroën 1947 preto, que estava com a pintura deteriorada e também muito mal de pneus – Gilberto lembra que ele até tinha uns cortes laterais que deixavam as câmeras de ar à vista. “O carro funcionava bem e tinha um preço que cabia no meu escasso orçamento. Nossa! Fiquei empolgado com o meu primeiro carro e passei a usá-lo diariamente para ir ao trabalho, onde o deixava estacionado em frente aos escritórios, na rua Joaquim Silveira”, diz. Numa destas ocasiões, na pausa do almoço, o Gilberto estava nas proximidades do carro, quando Haroldo Dreux, vice-presidente da empresa, passou por ali e não pôde deixar de observar a má qualidade dos pneus do carro. “Então, depois de olhá-los atentamente, ele disse que ia me arrumar um jogo de pneus, o que eu até nem levei muito a sério”, ri Gilberto. Mas, para sua surpresa, no intervalo de um outro dia, Haroldo Dreux, que era adepto de provas automobilísticas, chegou até mim e me deu um cartão com o endereço da escuderia “Galgo Branco”, dos irmãos Andreatta, onde eu poderia pegar quatro pneus especiais de corrida, pouco usados nos treinos de “carretera”, que ele reservara para mim. “Caramba! Fiquei tão grato, quanto admirado por ter sido alvo da atenção de um homem tão importante como, para mim, era o Haroldo Dreux… Fiquei seu fã! E o velho Citroën até parecia um carro novo com aqueles pneus!”, comemora.

Em 1967, Gilberto foi promovido ao cargo de Tesoureiro. O diretor administrativo da Albarus, Enio Maurell, convidou Gilberto para assumir o cargo graças ao seu senso de organização. Dentre os diversos tipos de pagamentos e recebimentos que o setor realizava, um em especial dava bastante trabalho: os pagamentos para os colaboradores da Albarus, numa época muito antes da existência de postos bancários dentro da empresa – e muito menos de informatização de dados. Era tudo na ponta do lápis. “O dinheiro, composto de cédulas e moedas, era envelopado manualmente. Eram mais de 1.000 pagamentos por mês. Calculávamos quantas cédulas e quantas moedas de cada valor seriam necessárias para compor o montante a ser pago a cada funcionário. Dava um “trabalhinho” legal”, brinca ele.

Se ao final do envelopamento sobrasse ou faltasse dinheiro, todos os envelopes tinham de ser revisados, porque o dinheiro era trazido exato do banco. “O Valter Pires e o Heraldo Gouvea, que faleceu muito novo, me auxiliavam nesta missão e, aos poucos, adquirimos prática e cumpríamos a tarefa com êxito”, diz. Anos depois, Gilberto comenta que foi um grande alívio quando surgiram os postos bancários dentro da empresa, o que facilitou enormemente o pagamento dos funcionários. ”Ajudei na interface entre a empresa e o Banco Banerj, primeiro que tivemos dentro da Albarus, quando precisamos normatizar e criar um roteiro de procedimentos da companhia para que eles compreendessem como trabalhávamos”, relata.

Gilberto ficou na Tesouraria até 1970 – ele conta que, um ano antes, a Albarus comprou a Artefatos de Borracha Sul Brasileira Ltda, de São Leopoldo, que se tornaria mais tarde a Divisão de Elastômeros, então dirigida pelo engenheiro químico Walter Rodrigues de Almeida. “O alto padrão de qualidade dos componentes automotivos de borracha e plástico que esta fábrica produzia motivou a Albarus a adquiri-la, em 1969. Administrativamente, precisavam de alguém de confiança para controlar as finanças da nova operação. “Lembraram de mim”, afirma Gilberto. E, assim, em 1970 foi convidado por Ennio Moura do Valle para assumir o cargo. Gilberto aceitou o desafio e foi com a família para São Leopoldo. Ele conta que, antes de partir para o desafio, Moura Valle o aconselhou: “Te imponha! Exija que te chamem de senhor!” – isso porque Gilberto era jovem e teria um cargo de muita responsabilidade. “Quando o Walter me apresentou ao pessoal da Sul Brasileira como gerente administrativo e financeiro levei um susto! Guardadas as proporções, era uma função equivalente a do Moura Valle e extrapolava em muito a minha experiência como tesoureiro”, recorda. Mas, com o apoio do pessoal da Albarus, Gilberto encarou o desafio com coragem e firmeza, acompanhando a organização e modernização da fábrica até 1975.

Entre os desafios vividos nesta época, ele ressalta a implantação do sistema de controle de produção similar ao da Dana nos Estados Unidos, cujo resultado era divulgado em painéis afixados na fábrica, contendo quadros demonstrativos da produção em horas aplicadas, da perda de mão de obra, da sucata gerada e outros itens pertinentes à produtividade. “Como a fábrica era pequena, brincávamos dizendo que tínhamos um Gordini com painel de Ferrari”, diverte-se. “Minha passagem pela Sul Brasileira foi uma grande experiência, que muito engrandeceu meu currículo albariano, que também seria enriquecida, mais adiante, com o curso de Cost Control, ministrado pelos mestres da Dana University no Brasil”, resume.

Gilberto ficou em São Leopoldo até 1975, quando foi designado para uma função de Auditoria pelo Moura Valle, então Vice-Presidente de Finanças da companhia. Gilberto fez diversos trabalhos de auditoria em Porto Alegre e São Paulo, mas foi na área financeira em que mais se destacou, como colaborador do Moura Valle no que dizia respeito ao Planejamento Financeiro. “As projeções financeiras, obviamente, não eram feitas em computadores e sim à mão, em imensas folhas de dezoito colunas. Era tudo escrito a lápis e a alteração de qualquer dado implicava no uso de muita borracha”, relata. Fazia-se planejamento de vendas, produção, estoques, um trabalho gigantesco todo feito à mão, auxiliados por calculadoras eletro-mecânicas.

Nessa época, o Centro de Processamento de Dados (CPD) da Albarus já contava com um computador da série IBM/3. Mas ele era dedicado às operações de produção e vendas, não contemplando o planejamento financeiro. “Foi quando trabalhamos na criação das bases para um planejamento financeiro computadorizado. A IBM disponibilizou um programa de gerenciamento financeiro chamado Plancode, que iria automatizar o velho processo manual”, conta. Diariamente, Gilberto e o colega Luiz Luderitz iam até a sede da IBM, que ficava perto do Parque da Redenção, em Porto Alegre, para trabalhar no desenvolvimento de um modelo de planejamento para a Albarus.

Em 1980, Gilberto foi convidado pelo então diretor financeiro Tito Livio Goron para gerenciar o Departamento de Sistemas e Métodos, e fez parte do time que trabalhava na informatização da empresa. Gilberto visitava empresas brasileiras que começavam a fabricar microcomputadores para saber quais estavam aptas a fornecerem equipamentos para a empresa. “Ainda não entendia nada de computadores, mas conhecia muito bem os procedimentos da empresa e sabia o que precisávamos, por isso, pude contribuir”, relata.

Nessa época, ele contratou o analista de Organização e Métodos José Ceccon de Barros, que se tornaria seu braço direito nessa atividade. Muitos trabalhos de racionalização e de desburocratização de procedimentos foram feitos, destacando-se a campanha do “PODE” (batizada em homenagem ao verbo ‘podar’), criada por Tito Livio Goron, cujo símbolo era uma tesoura vermelha aberta.

Depois disso, foi trabalhar como Controller Administrativo. Foi quando participou de algumas Hell Weeks – encontros anuais onde os planos e resultados eram avaliados. “Eram eventos que propiciavam a integração de todos os segmentos da empresa em torno dos seus objetivos. Eu gostava muito de assistir estas apresentações.”

Em 1983, Gilberto foi transferido para Gravataí para trabalhar como Gerente Administrativo, função que abrangia Segurança Patrimonial, Segurança Industrial, Recursos Humanos, Assistência Médica, Contabilidade e Contas a Pagar. Além destas funções, acumulava, ainda, a administração dos seguros de todas as operações da Albarus no Brasil. “Isso foi incumbência recebida do sr. Moura Valle lá por 1976, e começamos a incutir na empresa a consciência para o gerenciamento de riscos”, diz.

Ele conta que, com a expansão da empresa, nos anos 80 já era grande o volume de prêmios de seguros pagos no Brasil. Esta realidade inspirou Moura Valle, então presidente da Pellegrino Auto Peças, a criar uma corretora de seguros a fim de reter no grupo as comissões de corretagem sobre estes prêmios. “Assim, em 1983, foi criada a Pellegrino Corretora de Seguros, funcionando inicialmente sob a responsabilidade de corretores externos, enquanto eu tratava de fazer o Curso de Corretores de Seguros e adquirir a minha habilitação profissional, que me credenciava como responsável pela atividade da Pellegrino Corretora”, conta ele. Em 1985, a corretora mudou o nome para Albarus Corretora de Seguros, passando a responder para o vice-presidente Tito Livio Goron e depois para o diretor administrativo e financeiro de São Paulo, Hidegi Tegoshi.

Gilberto descobriu nesta atividade uma nova paixão, no final de 1985, perto da sua aposentadoria, criou uma empresa prestadora de serviços, que denominou Siregil, para, sob contrato, seguir administrando a Albarus Corretora de Seguros. Então, se aposentou e passou a se dedicar integralmente à corretora.

A Albarus Corretora de Seguros evoluiu, desenvolveu novos clientes, criou empregos e colhia bons resultados. Mas, exigências legais acabariam tornando a corretora um problema burocrático para a Albarus. Gilberto explica: “Como a Albarus indústria era uma S/A de capital aberto, os balanços da corretora eram obrigados a aparecer junto nas publicações dos balanços das empresas do grupo. Chegou-se a conclusão de que o ideal seria que a corretora não tivesse vínculo com a Albarus S/A”. Foi aí que surgiu, então, em 1993, a AGS Corretora de Seguros, que até hoje atende a Dana e seus funcionários, para orgulho e grande alegria dele.

A AGS desempenhou com méritos seus objetivos por mais de duas décadas. Neste período, colaborou com a FM Global e com a Energy Management Consultants (EMC) – empresas contratadas pela Dana nos Estados Unidos – na implantação de medidas de prevenção de perdas e minimização de riscos visando alcançar para o grupo o conceito HPR (Highly Protected Risk), com significativos benefícios tarifários para suas apólices. No gerenciamento de riscos, também contou com o apoio da Lockton Corretora. “Apoiado nestes programas pelo diretor financeiro Flavio Bressiani, realizamos seminários no RS e em SP para avaliação de progressos e apresentação de objetivos, dos quais participaram, além do pessoal local, os diretores da Dana Risk Management Services, representantes da Hylant Group, corretora do programa mundial da Dana, e mais as empresas colaboradoras. Foi muito gratificante ter participado deste trabalho de Gerenciamento de Riscos e de Administração de Seguros para as empresas do grupo”, conclui.

“A minha relação com a Dana – e a Albarus também – é a minha vida. Tudo o que conquistei para a minha família eu devo à empresa. As amizades que fiz ali dentro são algo que nunca vai ter preço. Gosto muito de ir aos encontros dos veteranos para relembrar nossas histórias, pois, afinal, são cinquenta anos de trajetória”, conclui.

Casado com Sirlene há 52 anos, os dois tiveram dois filhos e uma filha, infelizmente, já falecida. Os dois filhos, Gilson e Rogério, lhe deram quatro netos, que são os “xodós” de Gilberto: Isadora, Olavo, Nicolas e Diego. Nos finais de semana, a família frequentemente se reúne na praia de Tramandaí, onde o Gilberto mora hoje com a esposa. Ele gosta muito de escrever como hobby, de ler, ver TV e adora dirigir. Ainda trabalha na AGS, cuja sede é em Porto Alegre. As vezes se diverte “brincando” com um acordeon.

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“A minha relação com a Dana – e a Albarus também – é a minha vida. Tudo o que conquistei para a minha família eu devo à empresa. As amizades que fiz ali dentro são algo que nunca vai ter preço. Gosto muito de ir aos encontros dos veteranos para relembrar nossas histórias, pois, afinal, são 50 anos de trajetória”.

Gilberto Lindner Rodrigues