Gastão Reinaldo

Bangel

Uma verdadeira enciclopédia dos forjados, Gastão Bangel se preparava para uma viagem à São Paulo para prestar consultoria para a Dana quando chegamos para entrevistá-lo. Com 36 anos de empresa, ele orgulha-se de ter visto a Dana crescer muito ao longo de três décadas, participando ativamente de muitas dessas conquistas.

In Memoriam ✩ 30/5/1931 ✝21/1/2018

Gastão começou sua carreira na Albarus em 1962, como Desenhista da Manutenção. Ainda estudante da Escola Técnica Parobé, ele trabalhava no setor de Manutenção da Remington, fabricante de máquinas de escrever e contas. Logo, seus caminhos se cruzariam com a empresa em que trabalharia a maior parte da vida: “a Albarus tinha contrato de manutenção, e fui chamado para fazer revisão em uma máquina dentro da empresa. Ouvi dois funcionários conversando enquanto eu estava fazendo o serviço, sobre o quanto ganhavam. Eu ganhava bem menos na Remington, e já cresci o olho pra ir pra Albarus”, recorda, rindo. Algum tempo depois, ele seria chamado novamente para fazer manutenção em outra máquina, e conversou com o Riograndino, que estava na Albarus na primeira ocasião da sua visita também. Gastão perguntou se não teria vaga para ele na empresa, afinal, já conhecia Desenho da sua experiência na escola técnica. “Como desenhista não havia, mas como Apontador, sim, controlando como estava a produção dentro da fábrica”, diz.

Deste início, ele lembra que, já no seu primeiro dia, trocaria de função. Gastão estava trabalhando como Apontador, mas Brunislau Kranowski descobriu que ele sabia fazer desenhos e pensou que o jovem poderia ser aproveitado em outra função. Já no turno da tarde, estava contratado como Desenhista Copista de Manutenção. E, logo, ele cresceria na função – passaria rapidamente para Desenhista 1, 2 e 3, depois Desenhista Projetista. “Lembro que, certa feita, a empresa também precisava de alguém para trabalhar como Desenhista de Manutenção, aí eu passei uns dois anos trabalhando nessa função. Éramos soldados, íamos para onde nos designavam e trabalhávamos com dedicação sempre”, diz.

Deste início, lembra que era tudo muito diferente, rudimentar. “Lembro que tínhamos um torno que apelidamos de ‘bambolê’ – porque o operador precisava ficar se mexendo constantemente para trabalhar. Os martelos da Forjaria eram de 5 mil libras e eram de tábua de madeira”, relata. Algo inacreditável para os tempos de hoje – e Gastão ajudou a instalar estes equipamentos, comprados pelo engenheiro Levi Brum, sempre na tentativa de modernizar a fábrica.

No ano de 1972, Gastão ajudou a desenvolver a Engenharia de Forjados. “Precisavamos criar uma Engenharia de Forjados – mesmo que eu não fosse engenheiro, aceitei a missão porque, na ocasião, da turma da Forjaria, eu era o que mais tinha instrução. Hoje, a minha cabeça tá gasta – mas não velha – eu fazia contas muito bem”, afirma. Gastão acumulava funções: era chefe, desenhista, cronometrista… Apesar do cargo técnico, ele diz que o segredo era se dar bem com todos. “Sempre tive um ótimo relacionamento com o pessoal da fábrica, da engenharia… Alguns gerentes brincavam comigo dizendo que eu era o único que pedia pro pessoal de fábrica fazer hora extra e eles não reclamavam”, conta.

Ele recorda de uma história engraçada dessa época: um dos marteleiros não gostava muito quando o pessoal de chefia ficava por perto, monitorando seu trabalho. “O (Paulo) Regner gostava de ver tudo de perto, ficava caminhando pela fábrica e observando. E, para forjar uma matriz, precisávamos lubrificá-la com óleo – isso era feito num balde com grafite e óleo. O Regner estava por perto, observando, e o operador colocou tanto impulso na hora de lubrificar a peça que deu um banho no Regner!”, recorda, aos risos.
Ele também cita como seus maiores orgulhos ter ajudado na implantação da Divisão de Juntas Homocinéticas, do Diferencial, da Embreagem, Barramento de Direção… Tudo na década de 70. Gastão também atuaria como encarregado da Engenharia de Produto e Processo da então Divisão de Juntas Universais (DJU).

Ele cita uma característica que considera um diferencial da empresa: o clima entre os funcionários. “Não existe aquilo de um querer passar por cima do outro pra crescer – a competitividade não é algo visto com bons olhos – quem cresceu, foi devido ao trabalho que desenvolveu. Prova disso é que eu e meus colegas de diversas áreas somos todos amigos até hoje – e, já naquela época, também nos encontrávamos fora da empresa, em churrascos, jantares… As famílias conviviam muito entre si”, diz.

Gastão é um apaixonado pela Forjaria, e acha que a dureza do ambiente e do trabalho unem as pessoas que lá atuam. “O trabalho é árduo, pesado, e isso une as pessoas que trabalham com forjados – uns cuidam dos outros, existe uma cumplicidade muito grande. Engenheiro recém-formado nunca quer trabalhar na Forjaria, não quer se sujar. Está perdendo a chance de conhecer o verdadeiro significado da palavra ‘união’. A Forjaria é uma família”, explica.

O gosto por forjamento, aliás, veio de quando ele era criança. Na época, morava na rua Conde de Porto Alegre, e havia uma oficina na esquina que fabricava carrinhos de mascate na mesma rua. “Meu avô trabalhava lá e fazia tudo o que era de couro para estes carrinhos. E eu adorava ficar com ele, mas minha parte favorita ficava no fundo da oficina, a Ferraria, onde eram feitas as partes de metal. O ferreiro deixava ele usar o fole para resfriar as peças, e ganhava uma moedinha quando fazia isso”, recorda. Gastão era tão apaixonado por isso que o ferreiro ensinou-o a trabalhar com a bigorna, a fazer ferraduras, e esse gosto por forjaria nasceu ali. “Veio do sangue, o meu negócio mesmo é forjaria”.

Outro ponto marcante da trajetória de Gastão dentro da Albarus foi a mudança da Forjaria de Porto Alegre para Gravataí. “Não foi nada fácil fazer essa mudança, e lembro quando fui visitar o terreno com o Slavko Rozmann. Ele tinha um Opala quatro cilindros e chovia muito. A estrada ainda não era asfaltada e, com a chuva, ficou intransitável – o carro ficou empenhado na estrada e tivemos que subir a lomba do Distrito Industrial de Gravataí a pé, nunca esqueço disso”. Ainda sobre a mudança da fábrica, ele conta que desmontar os martelos de 5 mil libras foi uma verdadeira missão – eram máquinas gigantescas, cada uma delas precisou de quatro guinchos da transportadora apenas para ser retirada da fábrica, o transporte também precisou ser muito estudado… Uma luta. Ele ficou tão feliz quando forjaram a primeira cruzeta que tirou até uma fotografia da peça forjada.

Outra grande alegria que teve na carreira foi quando começou a atuar como professor dentro da Albarus, na escola SENAI. Gastão já estava trabalhando em Gravataí, quando o Otto Zwick era o Coordenador deste projeto e, finalizando a faculdade de engenharia, queria passar a responsabilidade de cuidar do SENAI para outra pessoa. “Dar aula sempre foi o meu dendê”, resume ele, “eu sempre gostei muito de ensinar e vi ali uma oportunidade de ouro”, afirma. Formou duas turmas no SENAI dentro da empresa, antes de se aposentar. “Eu acho que é um crime a gente saber alguma coisa e levar aquilo pro túmulo. O Edgar Albarus, que foi meu chefe, me dizia sempre que, se eu quisesse crescer, o segredo era ensinar aos outros, para não ficar preso sempre numa mesma função”, lembra.

Do SENAI, Gastão foi para a ASH – Albarus Sistemas Hidráulicos; em 1998, foi para a Divisão de Forjados da Taurus, onde ficou durante 13 anos. Mas a conexão com a Dana sempre existiu. “Havia dois martelos de 5.000 libras que ajudei a receber na Albarus, em Porto Alegre. Depois, participei da transferência destes dois martelos para Gravataí. Depois disso, a Taurus os comprou e os transferiu para São Leopoldo – eu os instalei. Esses martelos me perseguem”, ri ele.

Ele bem que tentou parar de trabalhar – passou 15 dias andando pela cidade de bicicleta, de ônibus “pra cima e pra baixo, vendo o tempo passar” – foi o suficiente para que logo ele teria de retornar ao trabalho. “O meu negócio é trabalhar”, resume este veterano. Logo, daria aulas novamente, ensinando suas paixões: desenho mecânico, metrologia e matemática. Ele parou somente no ano passado, quando sua esposa Iolanda, hoje falecida, adoeceu mais seriamente e ele se dedicava inteiramente a ela. “Foi a maior dificuldade que encontrei na vida, quando minha esposa adoeceu – em 1994. Ela faleceu no dia em que completávamos 59 anos de casamento, foi muito triste”.

Ele mora no mesmo prédio da filha, Marta Luiza, que lhe deu o primeiro netinho, Eduardo. Adora viajar com a família, e também gosta de fazer modelagem em madeira. Gastão também arrumou tempo para fazer um curso de piloto, e é apaixonado por aviões. Sempre que pode, vai aos encontros dos jubilados rever os amigos e colegas.

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O trabalho é árduo, pesado, e isso une as pessoas que trabalham com forjados – uns cuidam dos outros, existe uma cumplicidade muito grande. Engenheiro recém-formado nunca quer trabalhar na Forjaria, não quer se sujar. Está perdendo a chance de conhecer o verdadeiro significado da palavra ‘união’. A Forjaria é uma família.”

Gastão Bangel