Ennio

Moura do Valle

Vice-presidente da Dana entre os anos de 1985 e 1992, Ennio Moura do Valle teve participação fundamental na era de expansão da empresa, destacando-se pela implantação de uma política administrativa de investimento no ser humano. Conhecido por sua integridade e por ser um gentleman no trato com os colegas, é um gigante na história da empresa, onde atuou por 25 anos.

In Memoriam ✩ 6/3/27 ✝10/10/2012

Ennio nasceu em Porto Alegre, e iniciou sua carreira na Albarus em 1966, quando José Carlos Bohrer (presidente da Dana entre 1970 e 1994), que ele já conhecia há muito, pediu-lhe que fizesse uma análise da situação da Albarus, sob controle da Dana desde abril de 1966. “Concluí que a Albarus dispunha de bons produtos e de uma espinha dorsal excelente. Contudo, seus problemas eram predominantemente humanos. Fui admitido como Gerente de Relações Industriais, após ser entrevistado por todos os diretores e de ter a admissão aprovada pelo chairman de Dana, Jack Martin”, relatou Ennio, em entrevista ao jornal interno na década de 90.

José Carlos Bohrer conta que a admissão, inicialmente, era para ser como Gerente de Finanças: “Indiquei-o para assumir o cargo, mas acharam que ele não tinha o perfil de finanças – acabou assumindo como Chefe de Pessoal. Um mês depois, ele já assumia como Chefe de Finanças”, relembra. Ennio acumularia as funções de Relações Industriais com a gerência de Administração e Finanças.

Do seu início na Albarus, Ennio relatou que a empresa era muito pequena para os padrões de hoje. Havia, em 1967, cerca de 600 funcionários. Os principais clientes do mercado original eram a Willys, a Ford e a General Motors. Os processos de produção da indústria brasileira eram muito rudimentares, e os da Albarus não eram diferentes. “A maioria dos tornos, assim como os equipamentos de retífica, eram desenhados e produzidos na própria empresa, projetados por Ricardo Bruno Albarus e Wolf Zwick, principalmente”, disse. Em numeros de hoje, em 1966 a companhia tinha vendas de R$ 30 milhões; R$ 37 milhões, em 1967; e R$ 50 milhões, em 1968.

Em 1977, foi eleito Diretor Vice-Presidente de Administração e Finanças, assim como membro do Conselho de Administração. No mesmo ano, Ennio seria transferido de Porto Alegre para São Paulo, como Diretor-Presidente da Pellegrino (distribuidora de autopeças, vendida pela Dana em 2004).

Desta época, também em entrevista ao jornal, Ennio lembrou de uma história pitoresca: “Em 1972, após fazer a apresentação da Pellegrino, em Toledo, fui convidado pelo então chairman, Ren McPherson, para visitar o control room da Dana, compartimento secreto que, para mim, era, então, completa novidade. Vi uma floresta de quadros e gráficos nas paredes, com um mundo de informações sobre a companhia”, contou.

McPherson pediu a Ennio que, após consultar os gráficos, desse a sua opinião sobre a situação econômico-financeira da Dana. “Ele me deixou sozinho por uns 15 minutos. Fiquei trêmulo, mas tive a grande sorte de identificar rapidamente os gráficos essenciais”, disse Ennio. Quando McPherson voltou, Ennio afirmou que, economicamente, a companhia estava muito bem, mas financeiramente, precisava de providências urgentes. O chairman da Dana indagou, então, o que Ennio faria para resolver a situação financeira ao que, rapidamente, ele respondeu: um empréstimo imediato de pelo menos 30 milhões de dólares. Ren McPherson disse-lhe: “Ótimo. Fechamos, ontem, um empréstimo de 50 milhões de dólares, que ainda não está registrado nos gráficos”. A partir de então, Ennio passou a ser considerado um grande financeiro pelo chairman. “Pura sorte minha”, riu ele.
Em 1982, Ennio passaria a acumular as funções de Diretor Vice-Presidente de Administração e Finanças e Diretor-Presidente da Pellegrino com as de Controller da Dana para a América do Sul e África e as de Gerente Financeiro da Dana Equipamentos Ltda, a empresa-mãe do grupo no Brasil. Em 1985, Ennio foi nomeado vice-presidente de Finanças da Dana Corporation para a América do Sul e diretor de todas as empresas associadas na região. “Voltei, assim, depois de oito anos a participar da direção da Albarus, por meio da vice-presidência do Conselho de Administração, cargo que exerci até 1993, um ano após minha aposentadoria na Dana Corporation”, contou.

Além dos cargos formais exercidos, Ennio participou diretamente de todos os projetos de expansão da empresa. O primeiro, em 1968, para ampliação da operação de cardans, e, em 1972 e 1973, os projetos de instalação das linhas de eixos diferenciais e juntas homocinéticas que, em conjunto, representaram uma enorme expansão para a empresa. Ao relembrar fatos que marcaram sua trajetória na Albarus, Ennio foi categórico: “foram aqueles que mais contribuíram para o aumento de produtividade e lucro da empresa: a concessão de auxílio-educação aos filhos de funcionários, até os 14 anos; a criação de farta refeição gratuita, servida antes dos turnos de trabalho; e a tarefa de defender com êxito, muito bem coadjuvado pelo engenheiro Edgar Albarus, perante profissionais da Volkswagen, o preço inicial dos eixos homocinéticos, base de sua lucratividade, num debate técnico inesquecível”.

Em todos os seus 25 anos de empresa, Ennio sempre exerceu cargos de liderança e, ressalta, as duas lembranças mais vivas em sua memória eram a convivência com tantos amigos queridos e também das discussões acaloradas que assistia nas reuniões de gerência – de onde, ao final, todos saíam abraçados e se respeitando ainda mais. Ele citou dois colegas que marcaram sua trajetória na empresa: José Carlos Bohrer e Hugo Ferreira.

Sobre Zeca, foi categórico: “Brigávamos muito, pois um chefe sempre precisa de alguém que tenha a coragem de lhe dizer ‘não’. Mas nos estimávamos igualmente. Ele era o verdadeiro empresário, em quem imperava a razão, e eu o executivo, em contato com a fábrica, com formação naval e alma de professor, trabalhando com base na emoção. Zeca teve minha especial admiração pois, em 25 anos, nunca o vi atribuir a um subordinado a causa de um fracasso. Sempre o vi assumir a inteira responsabilidade”, relatou. Sobre Hugo, que assumiria a Presidência mais tarde, disse: “Já naquele tempo, ele se distinguia por sua cultura, por sua inteligência e pela pluralidade de seus conhecimentos de jovem e brilhante engenheiro. Hugo já despontava como sucessor natural de Zeca, a quem de fato coube gerir a extraordinária expansão da Dana, em tamanho, diversificação e produtividade, no Brasil e em toda a América do Sul”, disse.

Muito querido pelos colegas, Ennio Moura Valle seguiu trabalhando como advogado, mesmo depois de ter saído da Dana. Foi casado com Eunice durante 63 anos, com quem teve dois filhos e uma filha, e era o avô coruja de dois netos e cinco netas. Frequentou os encontros do Grupo de Jubilados sempre que pode.

Confira, aqui, alguns depoimentos de alguns amigos e ex-colegas:
“Oficial da Marinha, inteligente e disciplinado, era um gentleman no trato com seus pares e subordinados. Ennio foi um professor, gênio matemático, sempre disposto a resolver problemas complexos e era um viciado em trabalhar – era uma pessoa que vivia o trabalho arduamente.”
Paulo Regner

“O Moura Valle foi sempre um cara que se afinou muito com o Zeca Bohrer, nosso presidente na época, e foi responsável pelo salto administrativo e organizacional que demos nos seus primeiros anos de Albarus. Ele era um profissional extremamente organizado e muito reconhecido – dentro do Brasil e fora também. Lembro que, em 1984, estávamos numa apresentação para o presidente da Dana Europa – ele representava a Dana Brasil, e eu, a do Reino Unido. Ele, antes de começar seus slides que falavam dos estrondosos sucessos no país, contou uma longa história sobre os acentos no Brasil, uma anedota. Isso tomou 25 minutos da sua apresentação, e somente cinco foram usados para que ele falasse dos números… Foi tão rápido que ninguém conseguiu tomar nota! Isso foi uma jogada de mestre, porque a empresa estava vivendo seus anos dourados, a todo vapor – melhor era não abrir o jogo! Ele era um incentivador. Sempre apoiava os mais jovens. E um líder por exemplo – ia e fazia as coisas. E também sabia delegar tarefas, função essencial para alguém que ocupou um cargo tão importante durante tantos anos”.
Erni Koppe

“Os americanos haviam solicitado que eu encontrasse alguém de finanças para cuidar desta parte na Albarus, e reportar diretamente para eles. Naquela ocasião, um amigo meu, o Moura Valle, era professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele morava no Rio de Janeiro e estava procurando trabalho. Chamei o Ennio para ser chefe de Recursos Humanos. Um mês depois, ele assumiria como Chefe de Finanças. Foi o início de uma parceria que duraria toda a nossa carreira.”
José Carlos Bohrer

“O Moura Valle, como era chamado por todos na Albarus, foi uma das figuras mais marcantes e humanas na minha vida professional. Nos seus primeiros anos na Albarus, ele como Diretor e eu como Gerente, acorria a ele em busca de soluções para meus problemas profissionais, por que sabia que suas sugestões continham um forte enfoque gerencial com roupagem de cunho humano e pessoal. Eu o considerava então como meu mentor. Depois, com sua promoção a Presidente da Pellegrino, meu contato passou a ser mais esporádico mas aí ele passou a ser meu cliente e fonte de conhecimento mais profundo do mercado de reposição. Sua transferência para a Dana South America como Vice-Presidente trouxe de volta o contato mais frequente mas, por nosso convívio em torno da Dana, ele passou a ser o Ennio, como os americanos o chamavam, mas seguiu sendo meu conselheiro amigo e guru até minha aposentadoria em fins de 2004. Qual a marca que o Ennio deixou na Albarus e na Dana? Tenho certeza que toda a geração de colegas que conviveram com o Ennio tiveram momentos e experiências como as que relatei. Se houvesse como expressar, numa placa, quem foi o Moura Valle para nós ela teria esta inscrição: Aqui trabalhou o Professor Ennio Moura Valle! Eu tive muitos momentos marcantes com o Ennio mas um deles foi talvez o mais pitoresco: Eu trabalhava em São Paulo como Gerente da Fábrica e batalhava contra o custo de vida em São Paulo com salário de Gerente de Porto Alegre. Na minha primeira visita à Matriz fui falar com o Moura Valle, administrador da folha. Argumentei que em São Paulo a etiqueta exigia que usássemos terno e gravata diariamente como uniforme, o que era uma despesa maior do que a exigida dos Gerentes em Porto Alegre. Pois o Moura Valle me saiu com esta pérola: Hugo, sabes que aqui as camisas esporte são muito mais caras que as sociais? Nunca mais pedi um aumento!”
Hugo Ferreira

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“Os fatos da carreira na Albarus que mais me marcaram foram aqueles que mais contribuíram para o aumento de produtividade e lucro da empresa: a concessão de auxílio-educação aos filhos de funcionários, até os 14 anos; a criação de farta refeição gratuita, servida antes dos turnos de trabalho; e a tarefa de defender com êxito, muito bem coadjuvado pelo engenheiro Edgar Albarus, perante profissionais da Volkswagen, o preço inicial dos eixos homocinéticos, base de sua lucratividade, num debate técnico inesquecível”.