Edgar

Albarus

Edgar Albarus tem o mesmo sobrenome de Ricardo Bruno Albarus, seu tio, dono da primeira empresa em que começou sua carreira como engenheiro. Isso, porém, nunca quis dizer que ele tivesse qualquer tipo de privilégio: trabalhou, e muito, para ajudar a empresa a crescer. Ao todo, foram 40 anos de dedicação – primeiro, à Albarus, depois, à Dana e por fim a GKN – que, para ele, renderam muitas boas histórias, relembradas sempre com seu bom humor costumeiro.

Hoje em dia, difícil é achar Edgar em Porto Alegre – ele e a esposa Lissy viajam por todo o Brasil a bordo do seu motorhome, e tem uma comunidade informal de amigos que se divertem com eles país afora – “um bando de vagabundos”, brinca Edgar. Os dois tem quatro netas – Milena, Marina, Rafaela e Flávia; e três filhos: Cristine, Cláudio e Maria Helena – mais a sobrinha, Tânia, de quem tinham a guarda.

Com a leveza costumeira, conta que começou a carreira na Albarus em 1960, como estagiário de engenharia. “Na época, já havia trabalhado num banco e manifestei o desejo de fazer faculdade de engenharia – meu tio disse que eu poderia trabalhar com ele na Albarus, que havia sido fundada em 1947”, afirma. Edgar conta que entrou na Albarus num período de mudanças importantes para a empresa, depois da construção da fábrica na Rua Joaquim Silveira em 1954 e com a importante participação de Haroldo Dreux, genro de Ricardo Bruno Albarus, o que desencadeou a entrada de muitos jovens engenheiros na empresa. “Quando comecei na empresa, trabalhava na Usinagem, dentro da fábrica… muitas máquinas haviam sido construídas pelo meu tio, quando começou a empresa, outras em parceria com Wolff Zwick…”, relata.

Como estagiário, Edgar precisava cumprir 25 horas por semana, não importando o turno. Nas férias da Faculdade de Engenharia, porém, ele fazia o horário integral: ficava torneando e usinando peças – capas, cruzetas, cardans. “Nas minhas primeiras férias da faculdade, me mandaram para a Forjaria, pra trabalhar com o Sr. Wolff Zwick. Ficava coberto de fuligem ao final do turno, mas fiz e aprendi muita coisa ali”, recorda, aos risos.

Quando estava no quarto ano da faculdade, Paulo Regner convidou-o para assumir o setor de Desenho de Dispositivos da WBS (outra empresa do grupo), que fabricava embreagens. “Eu, um guri que ia para a fábrica de lambreta, assumi ali meu primeiro cargo de gerência”, conta. Depois Edgar foi transferido para a Engenharia da Albarus. “Eu trabalhava como desenhista de dispositivos – o Erni Koppe era um dos desenhistas que trabalhava comigo, vindo de uma grande turma que “debandou” da Varig, na época”.

Em meados de 1966, surgiu a oportunidade de fazer aprendizado técnico e prático por um ano na Alemanha, de novembro de 1966 até novembro de 1967 – “em fins de novembro do mesmo ano, minha esposa Lissy iria para lá também, junto com outras duas senhoras, de navio”, lembra. No final de 1967, a Dana assumiu o controle acionário da empresa e Edgar, já de volta ao Brasil, ficou cerca de um ano trabalhando na área de projetos. O perfil do trabalho não estava alinhado com seus planos e foi buscar uma outra vaga no mercado. “Fui até a Ferrostaal, que vendia máquinas para a Albarus, pedir emprego. Logo que saí de lá, a pessoa com quem falei pegou o telefone e avisou o Victor Pinto Vieira, que me chamou para uma conversa, dizendo que precisaria de ajuda para implantar um novo projeto na empresa e contava comigo – era o começo da fabricação da junta homocinética”, relata.

Edgar tinha bons conhecimentos em alemão e inglês e, junto da equipe que Victor Pinto Vieira montou, passou muito tempo debruçado sobre o projeto da junta homocinética para o VW Passat, naquele verão quente de 1969. Junto com um gerente da Dana, Frank Kadikowski, foi buscar informações técnicas numa empresa alemã que ficava em Offenbach, cidade próxima de Frankfurt e que fornecia o produto para a VW Cardan. A empresa acabaria fornecendo a tecnologia para que fosse possível para a Albarus fabricar as juntas homocinéticas. Estas informações serviram também para assessorar Ennio Moura Valle na montagem do projeto de viabilidade econômica do projeto.

Junto com Victor Pinto Vieira, viajou durante alguns anos em busca de aperfeiçoamento e bons negócios – tudo baseado e previsto no pré-estudo econômico elaborado por eles. “O José Carlos (Zeca) Bohrer nos mandou para os Estados Unidos para falar sobre isso com a Dana em Toledo e, de lá, eu ia de volta para a Alemanha. Fui várias vezes para me inteirar totalmente deste projeto. O Heinz Peter Walter foi uma pessoa que me ajudou muito lá. Lembro também de uma visita que fizemos à uma fábrica de juntas homocinéticas no Japão, em 1971 – na época, os carros japoneses não tinham tração dianteira, foi somente em 75 o boom dos carros com tração dianteira por lá. Nunca esqueço que a fábrica era absurdamente limpa”, recorda. Parte das máquinas desta fábrica foi enviada ao Brasil.

Edgar também lembra desta fase como uma época de correspondência intensa via Telex (o que de mais moderno e instantâneo existia na época) e que, logo, montaria uma equipe de engenharia e projetistas designada para desenhar todo o ferramental para a fabricação das juntas homocinéticas. Victor Vieira e o time de compras, capitaneado por Jorge Wallau, faziam os contratos de importação. Em seguida, a equipe, formada por Gibrail Posenato, Edgar Bertschinger, Byron Mattissek, Adroaldo Pereira, Fábio Jacques, Helmuth Domadilde e Luis Lauer – e capitaneada por Wolfgang Johann Limbacher – iria para a Alemanha, mais especificamente para Offenbach, onde permaneceram por seis meses. “De lá, eles enviavam os desenhos – cada um deles foi com uma missão diferente, e deu tudo certo, foi uma época de muita dedicação”, afirma. Depois de um período de try-out, a fábrica de Juntas Homocinéticas (mais conhecida como DJH) foi inaugurada em 1972. “Esse projeto foi a minha grande realização profissional, porque nos envolvemos em vários aspectos do projeto – desde a construção, layout, compra de máquinas, desenvolvimento de ferramentas, com a ajuda de muitas pessoas, claro, entre elas os fornecedores Arthur Klink e o Gianfranco Batistini”, afirma Edgar.

Logo após, o pessoal no Departamento de Vendas verificou que, nos Estados Unidos, havia mercado para uma determinada junta. “Não lembro qual junta era, mas recordo de ter dito ao Victor Vieira que iríamos dar um jeito”, diz Edgar. Em poucos meses a junta estava no mercado: “Fui para São Paulo buscar um parceiro para criação de dispositivos e ferramentas, que haviam sido desenhados por ele e sua equipe. Encontrei Gianfranco Batistini, da empresa Calibres e, em três meses, começamos a vender a junta”, recorda. Na época, Edgar lembra que colegas da GKN (a ATH – Albarus Transmissões Homocinéticas – era uma Joint Venture entre a Dana e a GKN desde o inicio da operaçã0) vieram ao Brasil, intrigados com tamanha rapidez.

Numa movimentação lógica, Edgar assumiu como Gerente da Divisão de Juntas Homocinéticas. “A empresa entrou em negociação com a GKN para que eu fosse fazer estágio na Europa, durante três meses”, conta. E, assim, durante fevereiro, março, abril e maio de 85, ficou trabalhando na GKN alemã. Levou consigo a esposa, os três filhos Cristine, Cláudio e Maria Helena e mais a sobrinha, Tânia, de quem tinha a guarda. “As crianças adoraram, especialmente minha sobrinha, que tinha 6 anos na época. Aprenderam a andar de trenó, se divertiram muito”, recorda.

Na volta de Edgar, a Divisão de Juntas Homocinéticas já tinha outro gerente. Ficaria, então, encarregado do setor de desenvolvimento de produto, em Porto Alegre. Mais tarde assumiu como Diretor de Engenharia da ATH. “Em 1987, a Dana queria fabricar a junta homocinética para o mercado de reposição nos Estados Unidos, e me enviou para lá para cuidar disso. Trabalhei no Centro de Pesquisas da Dana, que ficava perto de Toledo”, relata. De volta ao Brasil, atuou como Diretor Técnico da ATH, em que viajou bastante para visitar outras fábricas de juntas ao redor do mundo para fazer benchmark.

Edgar também integrou como palestrante e apresentador os chamados “Cursilhos” em que Moacyr Negropuerta, na época Gerente de Vendas, organizava. Eram eventos promovidos para incrementar as vendas da empresa, mostrar os melhores produtos e desenvolver relacionamento com os clientes e vendedores de autopeças. Depois dos Cursilhos, Edgar permaneceria como Diretor da Junta Homocinética, e, em 1999, sua aposentadoria. Atuou por mais um ano como consultor, participando da transferência de máquinas para o Brasil de uma fábrica fechada na Argentina.

De tudo isso, o que ficou? “Olha, era muito amor à camisa. Eu gostava muito de trabalhar na Albarus – confesso que não acompanhei muito a evolução para a informática e também por isso, meus últimos anos foram meio frustrantes. Mas, mesmo assim, valeu à pena toda a experiência”, conclui.

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“Esse projeto (a implantação da junta homocinética) foi a minha grande realização profissional, porque nos envolvemos em vários aspectos do projeto – desde a construção, layout, compra de máquinas, desenvolvimento de ferramentas, com a ajuda de muitas pessoas, claro, entre elas os fornecedores Arthur Klink e o Gianfranco Batistini”.

Edgar Albarus