Luiz Manoel

Rodrigues

Ao todo, foram 35 trabalhando na Dana – o jovem médico, convidado pelo fundador Ricardo Bruno Albarus, nem imaginava a marca profunda que deixaria na empresa: a de humanista, preocupado sempre com o próximo.

In Memoriam ✩ 13/4/1923 ✝12/10/2009

Luiz Manoel Rodrigues nasceu em Guaíba e, em 1948, formou-se pela Faculdade de Medina, a realização de um sonho. O recém-formado em Medicina montou dois consultórios em Porto Alegre, onde trabalhou até 1953, quando atenderia um paciente que mudaria a história da sua vida e de sua carreira. Recomendado por Armando Martau, o Sr. Ricardo Bruno Albarus é tratado pelo Dr. Luiz.

Estava feita a conexão e nascia uma amizade de muitos anos. “Seu Bruno nunca soube dizer não a uma boa ideia. Nunca tive qualquer discussão com ele que não chegasse a bom termo. Com o seu Armando Martau não era muito diferente. O seu Bruno era um homem completo. Gostava de pessoas. Nunca o vi perder o controle, era amigo de todos, gostava de estar dentro da fábrica e soube escolher os seus companheiros de Diretoria. Mesmo depois que ele se afastou, mantivemos nossa amizade, que só foi interrompida com o seu falecimento em 95, mas a lembrança e os ensinamentos continuam presentes”, relatou Dr. Luiz, em entrevista ao jornal interno na década de 90.

Em 1953, o jovem Dr. Luiz ingressaria na Albarus, para fazer o atendimento médico dos funcionários da Albarus. Dois anos depois, seria instalado o Serviço de Assistência Médica e Odontológica na própria empresa para atendimento de funcionários e familiares. Em 1961, na função de médico-chefe do ambulatório, o Dr. Luiz torna-se funcionário da Dana Albarus – não mais um prestador de serviços.

Seis anos depois, em 1967, assumiu a Gerência de Relações Industriais. “Como médico, eu jamais fui um administrador. Não teria conseguido os sucessos, perdoem-me a falta de modéstia, que obtive se não fosse o coração bondoso de pessoas como José Carlos Bohrer, Enio Moura Valle, Hugo Ferreira, Tito Lívio, Jaime Goron, Wolff Zwick, Silvia Rodrigues e mais centenas de pessoas com quem sempre dividi os bons e os maus momentos. São pessoas que me deram o que eu talvez não merecesse e às quais cabe, portanto, singelamente dizer muito obrigado”, afirmou Dr. Luiz, em entrevista para O Pinhão.

Uma memória que ele guardava com muito carinho de sua trajetória na Albarus? A criação dos Programas de Alfabetização iniciados em Gravataí e coordenados pela Carmem Piccini. Ele lembrava como começou: “Após uma palestra preparatória para o início dos trabalhos dos Círculos de Controle de Qualidade – CCQ, que deveriam ser implantados na Dana, nenhum funcionário compareceu para se inscrever. Qual o motivo? A maioria dos que necessitavam do programa eram analfabetos”, contou.

Então, Carmem Piccini e o Marcelino Perlott iniciaram uma busca pelos recursos junto à comunidade e também junto ao Mobral, e conseguiram iniciar os programas de alfabetização e profissionalização, denominados PAF – Programa de Alfabetização Funcional e PEI – Programa de Educação Integrada. “No entanto, por falta de ambiente e de conhecimento, havia grande dificuldade em implantá- los. Quando soube disso, como Gerente de Relações Industriais, entrei no Programa e conseguimos ampliá-lo para toda a Organização. Detectamos que cerca de 1.500 funcionários eram semi ou analfabetos e tínhamos duas soluções: substituí-los ou qualificá-los. Ficamos com a segunda opção – e não podia ser de outra forma -, principalmente pelo espírito humanístico que a empresa Dana Albarus sempre teve, afinal o principal ativo da empresa sempre foram os funcionários. Buscamos todos os cantos de cada uma das fábricas para servirem de salas de aula. Buscamos os estagiários, os chefes que tinham qualificação e todos aqueles que tinham jeito – e que não tinham jeito, também – para serem os professores”, relembrou o Dr. Luiz.

Como o número de aulas era muito grande, em algumas situações a equipe buscou professores nos cursos de formação nas Universidades. O resultado de tanto empenho? A fábrica passou a ser uma grande escola. “Antes ou depois do expediente, os chefes se transformavam em professores, o que provocou uma integração chefe- chefiado nunca vista antes”, disse.

Em 1982, ele assumiria a Diretoria de Relações Industriais da Corporação, onde permaneceu até a sua aposentadoria em 1988. Foi revisor do jornal da empresa, “O Pinhão”, e coordenou-o de 1982 a 1988, quando se aposentou como Diretor de Relações Industriais. Foi capitaneado por ele que a publicação ganhou, aliás, seu primeiro prêmio, o Dana Global Newsletter Contest. “Uma boa emoção foi a despedida quando da minha aposentadoria. Foi uma linda festa com muitos convidados entre funcionários, convidados de entidades, Sindicatos, Federações, amigos, familiares. Foi extremamente emocionante. Inesquecível!”, afirmou.

Dr. Luiz foi casado com Alix, com quem teve uma filha, Heloisa Helena, que é Doutorada em Genética, e uma neta, Helena, formada em Medicina também.

Confira, aqui, alguns depoimentos de alguns amigos e ex-colegas:

“Ele era um especialista em Medicina do Trabalho iniciou como consultor e convidado depois geriu a área de Recursos Humanos, e desempenhando com exemplar dedicação a tarefa de conciliar os interesses conflitantes entre patrões e empregados.”

Paulo Regner

“Dr. Luiz exerceu um papel importantíssimo na história da Albarus. Numa época em que os movimentos sindicais no ABC Paulista, onde ditavam um clima mais beligerante entre Capital e Trabalho tivemos, na figura calma e apaziguadora do nosso Dr. Luiz, um estrategista perfeito para contornar os conflitos que eram criados por elementos alheios aos nossos quadros.

As lideranças do Sindicato dos Metalúrgicos organizavam piquetes nos portões da fábrica, para impedirem a entrada dos nossos funcionários. Era um desafio parar o trabalho em nossa empresa, pois éramos a única que permanecia invicta nesse momento.

O Dr. Luiz com sua equipe de abnegados colaboradores criaram as muitas alternativas de acesso que evitaram conflitos e mantiveram a empresa isenta de interrupções de suas jornadas de trabalho.

Além dessa dedicação, nos momentos de crise, foi ele que imprimiu uma política de relacionamento que permitiu transformar o tradicional Departamento de Pessoal em Departamento de Relações Humanas.

Por muitos anos, depois que o Moura Valle foi para a Pellegrino, tive o prazer e a satisfação de contar com o Dr. Luiz como meu braço direito na condução do desenvolvimento dos recursos humanos da Albarus. Com ele aprendi muito nessa área de extrema importância para as empresas.

Eu destacaria que a maior marca deixada pelo Dr. Luiz na Albarus foi a de que, por honrar os mandamentos de Hipócrates como médico, priorizava o valor dos colaboradores lutando por seu bem-estar, o que a Dana soube valorizar com o seu lema de que “Gente era o mais importante ativo da Empresa”.

Talvez o fato mais pitoresco que o Dr. Luiz me proporcionou foi o de dar-me um conselho no momento em que eu me vi envolvido com muitos eventos sociais de representação da empresa: “Hugo, quando fores nesses coquetéis em que se fica muito tempo em pé com um drink na mão, bota guaraná no teu copo e todos pensarão que bebes whisky mas tua cabeça ficará lúcida para enfrentá-los”.

Hugo Ferreira

“Trabalhei pouco com o Dr. Luiz por causa da nossa diferença de idade e porque ele já era diretor quando entrei como estagiária. Mas tivemos um projeto que uniu nossos ideais, corações e eu diria, nossas missões, fazendo com que nos tornássemos amigos para o resto da vida.

Foi o programa de alfabetização funcional que nós, os jovens da época, inciamos na Div. de Elastômeros (1982-83). O Dr. Luiz, como líder do RH, rapidamente abraçou a iniciativa e a incorporou à cultura da Dana, garantindo que ela se transformasse em um programa continuado de educação que levou nossas pessoas a concluírem o supletivo de primeiro e segundo graus em todo o país. E contribuiu muito para que a educação e aprendizado contínuo se tornassem um traço marcante da cultura da Dana no Brasil.

Muitos anos após ter se aposentado, ele visitava a empresa de vez em quando e fazia questão de me encontrar para conversarmos sobre o orgulho que tínhamos daqueles velhos tempos. Tenho certeza de que, mesmo lá onde ele está agora, de vez em quando ele ainda curte a sensação gostosa de ter feito diferença para tantas pessoas.”

Carmen Piccini

“O Dr. Luiz era um médico muito humano e, naquela época, atendia também os familiares dos funcionários da Albarus – ele cuidou de minhas filhas com grande dedicação. Lembro que, certa vez, ele não estava acertando com uma delas, a Cátia e, com a humildade que lhe era peculiar, indicou dois outros especialistas que poderiam atendê-la para melhor diagnosticar o que ela tinha. Olha a humildade que ele tinha… Um profissional fora de série.

Convivíamos também fora da empresa, em nossas confraternizações… E ele sempre teve uma grande habilidade, também como Diretor de Relações Industriais: encontrar o ‘caminho do meio’ entre os interesses dos funcionários e da empresa. Encontrava a melhor solução para todos.

Mais tarde, lembro de quando ele recebeu a notícia de que estava com câncer… Seu otimismo, sua vontade de viver, seu foco no amanhã melhor sempre me comoveram. Aos 80 anos, o Dr. Luiz seguia trabalhando firme – e muito! Uma pessoa muito cordial e cheia de empatia, que fez a diferença na vida de muita gente.”

Erni Koppe

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“Como médico, eu jamais fui um administrador. Não teria conseguido os sucessos, perdoem-me a falta de modéstia, que obtive se não fosse o coração bondoso de pessoas como José Carlos Bohrer, Enio Moura Valle, Hugo Ferreira, Tito Lívio, Jaime Goron, Wolff Zwick, Silvia Rodrigues e mais centenas de pessoas com quem sempre dividi os bons e os maus momentos”.