Diocarino

Nunes dos Santos

Algumas pessoas são tão transparentes que você percebe no olhar delas como são felizes. Diocarino Nunes dos Santos é assim: emocionou-se diversas vezes ao contar sua trajetória de 31 anos – “e dois meses” – de Albarus/Dana e deixou uma marca tão profunda na história da empresa que ganhou homenagem ao aposentar-se, com direito a troféu e tudo. De uma simplicidade tocante, Diocarino resume sua carreira na empresa com uma frase: “se eu tivesse a chance, começaria tudo de novo”.

Diocarino iniciou sua jornada na antiga Albarus em 4 de maio de 1968, na Usinagem de Cardans. Ele ficou sabendo da empresa através de um vizinho, Adroaldo Caxias, que convidou-o para preencher uma ficha de candidato a admissão porque a empresa em que trabalhava era muito boa. “Mais 3 irmãos meus trabalharam na empresa também – eu, Dorcelino e Alcedino nos aposentamos na Albarus”, relata, sorrindo. Os 3 nunca trabalharam na mesma fábrica – Diocarino ficava no Cardan, Dorcelino trabalhava na Ferramentaria e Alcedino, na fábrica de juntas homocinéticas.

Ele iniciou sua trajetória na empresa como Auxiliar de Fábrica, e seu chefe era Ataíde Lessa – o supervisor geral, naquela época, era Byron Matissek. Diocarino tinha 23 anos, e para ele, quanto mais ele trabalhasse, mais a empresa cresceria. “A gente tinha essa noção: se a empresa fosse bem, tínhamos chances de crescer, também. A gente vestia a camiseta da Albarus de uma forma como hoje é difícil de se ver. Acreditávamos muito na empresa”, diz. Diocarino tinha hora para entrar, mas não para sair, da empresa. “Ás vezes, o chefe precisava de alguém para ficar até mais tarde – eu nunca dizia ‘não’.

A rotina de Diocarino começava sempre às 4h30 da manhã, quando acordava, tomava café e saía de sua casa em Cachoeirinha de bicicleta. Ao final do turno, voltava de bicicleta também, seu meio de transporte favorito. Foram raras as vezes em que ele usou o ônibus da empresa e nunca, em todos estes anos cruzando duas cidades de bicicleta, sofreu qualquer tipo de acidente no trajeto entre Cachoeirinha e Porto Alegre.

Em 1973, um marco na sua carreira: ele recebeu a fresa Grob 659, uma máquina nova que havia sido adquirida pela Divisão de Cardans. Mal sabia Diocarino que trabalharia com esta máquina até se aposentar, em 1996. Resultado: ela ganhou seu nome e passou a ser conhecida dentro da fábrica como a “fresa Diocarino” – a história lhe rendeu até mesmo uma entrevista para o antigo informativo da empresa, “O Pinhão”. “Eu cuidei muito bem daquela máquina. Quando dava o sinal para ir embora da empresa, no final do turno, eu não tinha pressa: limpava a fresa todos os dias, eu era muito caprichoso com ela”, conta.

Em 1974, Diocarino foi promovido a Operador de Máquina. “Na década de 70, a empresa começou a crescer, e iniciou a cultura do recorde dentro das linhas de produção. Toda semana, queríamos crescer, produzir mais, e melhor”, diz. Diocarino fez muitos cursos pela empresa – Controle Estatístico de Processo, 5S… – e também participou da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) durante três anos.

Diocarino lembra que, quando saía da Albarus no final do seu turno, ele e os colegas iam para a parte de cima do terreno da Albarus, onde seria construída uma quadra de futebol de salão para os funcionários. “Nós íamos todos, acompanhados pelo nosso chefe Byron, para roçar aquele terreno, depois do nosso turno. Mais tarde, joguei muito futebol naquele campo”, ri ele.

Durante a década de 80, a fábrica de Cardans foi transferida para Gravataí e, com ela, veio toda a equipe. Ele participou ativamente da mudança, que não foi fácil. “Eu confesso que estranhei trocar de casa, estava acostumado com Porto Alegre, mas logo voltamos à rotina normal”, afirma. Ele ressalta que houve, sim, períodos de queda de produção durante esta década, e que os funcionários eram realocados para ajudar em outras áreas da empresa, para não ficarem parados.

Diocarino lembra de uma história que lhe ensinou muito sobre o poder da liderança. Num período difícil a produção de certas linhas do Cardan caiu muito. “Foi mais ou menos depois da mudança para Gravataí, começo da década de 80. Foi quando Alceu Albuquerque, que era coordenador de outra fábrica, veio de máquina em máquina e deu um abraço em todos os operadores. Nunca vou esquecer de como a produção subiu depois desse pequeno gesto”, emociona-se.

Diocarino aposentou-se em 1996, mas trabalhou mais 3 anos até parar definitivamente. Cerca de 4 meses depois da sua aposentadoria, Diocarino recebeu um telefonema, convidando-o para ir ao Galpão Crioulo da Dana. Chegando lá, seus antigos colegas o esperavam com uma chuva de aplausos. “Nada havia me preparado para a emoção que senti naquele momento”, diz, sem esconder as lágrimas. Os amigos prepararam um troféu para ele, agradecendo pelo excelente trabalho que fez e por ser um colega tão bom para todos – um verdadeiro exemplo. “Eu sempre tive uma grande amizade com meus colegas, mas não esperava por isso, foi a maior surpresa da minha vida”, conta, com a voz embargada.

Outro momento marcante para ele foi uma visita à fábrica feita durante um encontro dos veteranos, em 2013. “Eu não imaginava como a fábrica tinha sido modernizada, como evoluiu em termos de tecnologia. Na minha época, não tínhamos robô dentro da fábrica”, reflete. “A minha fresa estava lá, ainda firme e forte”, ri ele.

Sobre sua trajetória dentro da empresa, ele comenta, com a humildade característica: “Eu só tenho a agradecer  à empresa. Tudo o que tenho foi graças à  ela. Se eu pudesse, faria tudo de novo”.

Casado com Olga da Silva Santos há 47 anos, ele é pai de Ronaldo, Rogério e Giovana, que lhe deram três netos: Daniel, Joice e Andres. Hoje, ele gosta de fazer churrasco em casa, para a família e adora fazer reformas em casa, além de jardinagem. Um de seus hábitos dos tempos de Albarus permanece: Diocarino anda muito de bicicleta e tem uma saúde de ferro.

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“Eu só tenho a agradecer  à empresa. Tudo o que tenho foi graças à  ela. Se eu pudesse, faria tudo de novo”.

Diocarino Nunes dos Santos