Cristina

Morche

Em seu apartamento bem iluminado e delicadamente decorado, Cristina Morche vive, hoje, uma vida mais pacata do que seus anos trabalhando Brasil afora como secretária em diversas empresas. Porém, ela concedeu entrevista com dois aparelhos de telefone ao alcance da mão, que tocaram algumas vezes – a função de secretária não foi interrompida, e é bastante óbvio que ela adora trabalhar.

A paixão por desafios e por trabalhar em algo que fizesse, de fato, a diferença em uma empresa despertaram na jovem Cristina em função de sua mãe, Martha que, mesmo sem ter familiaridade com o português, logo que veio ao Brasil, foi trabalhar na Bayer como secretária. “Ela sempre falou das coisas dela e, meio sem querer, aquilo foi me interessando”, relata. Cristina se formou no Ensino Médio do Colégio Farroupilha, que abrigava diversos jovens de origem alemã, como ela. “Não tínhamos muitas opções: podíamos fazer o Normal, Economia Doméstica ou optar por um curso técnico. Eu optei pelo técnico de Secretariado, que ficava junto ao prédio de Ciências Econômicas da Universidade Federal”, conta. Cristina diz que o nível do curso era excelente, já que todos os professores eram universitários – logo após concluir o curso técnico de Secretariado, Cristina começou a faculdade de Biblioteconomia, mas sentiu que aquela não era sua vocação. “Nesta época, a profissão ainda era antiquada – precisávamos ficar escrevendo fichinhas nos livros, não era muito apaixonante – honestamente, era parado demais pra mim”, ri ela. Nesta época, ela já estava trabalhando na Câmara Americana de Comércio como secretária. Como aquela era uma organização estruturada por cargos de honra, o trabalho era diferente do que ela viria a conhecer mais tarde, no mundo corporativo. Ficou dez anos neste emprego, até que, em 1976, decidiu sair do que ela mesma chamou de “zona de conforto” e foi para a Enecom (Engenheiros e Economistas Consultores S/A), com sede no Rio de Janeiro. Em seguida, trabalhou na Vale do Rio Doce, em uma série de projetos pioneiros e de engenharia avançada, com a participação de engenheiros de várias partes do mundo. “Sempre gostei da área técnica, de aprender, de estar cercada por pessoas criativas como os engenheiros”, relata. Ainda passaria por uma marcante experiência profissional na Vale Sul antes de entrar na Dana.

Levando uma vida movida a desafios e muito empenho profissional, Cristina se viu frente a uma grande mudança: voltar para Porto Alegre. Sua mãe, Martha, enfrentava um grave problema de saúde. Cristina ficou com a mãe e fez o que pôde, mas ela faleceria em maio de 82, alguns meses após o retorno de Cristina ao Sul. “Foi um período muito difícil”, resume ela. Na época, conseguiu emprego nas Máquinas Condor, mas não gostou do clima da empresa. “Foi um desastre que durou seis meses”, ri ela.

Tudo isso mudou quando o companheiro de Cristina, Atenante Normann, lembrou-se que conhecia o engenheiro Tito Lívio Goron, que na época, já estava na Albarus. Com suas cartas de recomendação impecáveis, herança da Vale Sul, e a indicação de alguém conhecido, logo ela iniciaria carreira na empresa.

Iniciou sua trajetória na Albarus trabalhando com Victor Pinto Vieira, que era Vice-Presidente da empresa na época, e com um Controller americano que estava de passagem pela empresa. O ano? 1982. “Lembro que o Jorge Schertel, que era o Controller na época, estava voltando dos Estados Unidos e trouxe a grande novidade que era o primeiro computador da empresa. Ao voltar, disse que eu poderia ir mexendo no equipamento para aprender a usar – era uma tralha gigantesca”, conta ela.

Mas Cristina, acostumada às grandes emoções, achou o novo emprego muito estático e, depois de dois anos acompanhando Victor Pinto Vieira em suas funções – a maioria delas relativa às relações internacionais da Albarus – resolveu sair da empresa. Foi para a Effen, que ficava em Eldorado do Sul, onde ficou até 1985, quando Beth, uma das secretárias da Albarus, comentou com ela que a empresa estava buscando secretária para trabalhar com executivos da empresa. Ela não pestanejou e decidiu retornar à Albarus.

Seria o início de sua trajetória com Paulo Nelson Regner que, na época, era Vice-Presidente de Operações em Porto Alegre. Ela também atendia Paulo Armando Born, que trabalhava como Controller da Albarus. “Foi um recomeço muito bom, sempre tive um bom relacionamento com estas pessoas e, como o engenheiro Regner tinha envolvimento com diversos assuntos, pude aprender bastante: ele tinha haras, era membro da Sociedade Brasileira de Comandos Numéricos, organizava seminários sobre forjamento… Então, era bastante atividade e em ramos diferentes. Eu abraçava as coisas, gostava do movimento e de trabalhar bastante”, relata.

Na década de 90, Regner foi promovido a Presidente da GKN Driveline, e Marco Aurélio Caleffi ocuparia, então, o cargo de Vice-Presidente da Albarus. Cristina trabalhava agora com ele, “uma pessoa muito bacana, muito divertido e easygoing”, diz ela.

Mais tarde, Caleffi seria realocado para assumir o Marketing da empresa, e Cristina ficaria como secretária de Wilson Andrade, que tinha vindo da Albarus Sistemas Hidráulicos de Cachoeirinha para Porto Alegre. “O Wilson representou, para mim, o início do fim da secretária”, ri ela, “afinal, ele resolvia tudo pelo computador, fazia tudo sozinho”. Cristina conta esse fato brincando, mas ele demonstra uma tendência que vinha se concretizando nessa década: a mudança do trabalho das secretárias e o acúmulo de funções pelos executivos, que resolvem muita coisa em seus computadores portáteis e celulares. “Éramos nove secretárias na empresa – no final, sobraram apenas duas, que eram mais representativas da diretoria da empresa, uma função mais social, porque cada um fazia mais as suas coisas”, diz.

Cristina conta que passou por diversas mudanças tecnológicas ao longo da carreira – desde as cópias heliográficas de documentos que fazia na Câmara Americana do Comércio, passando pelo Telex e chegando até os primórdios do e-mail, via Embratel com internet discada somente entre as empresas do mesmo grupo. Ela lembra do seu primeiro computador, um Apple gigantesco, que ela dominou sem qualquer tipo de treinamento formal. “Foi uma verdadeira revolução que aconteceu rapidamente – eu lembro que trabalhava rodeada de máquinas: um Telex, um computador, uma máquina de escrever… Ainda não dava pra abolir completamente os meios de comunicação antigos, então era uma secretária em uma ilha”, brinca ela.

Ela ainda comenta que trabalhar com o Paulo Regner foi muito interessante porque aprendeu muito com ele. “Ele era um chefe que não utilizava o serviço da secretária para questões particulares. Na época, era comum os chefes brasileiros nos darem muitas coisas particulares para resolver, mas ele não era assim, tinha uma visão diferenciada. Ele também tinha uma grande qualidade, que era receber quem quer que fosse na sua sala, em qualquer hora”, relata. Cristina aconselhava os visitantes para que fossem objetivos, porque ela sabia que o movimento era intenso na sala. Ela lembra que ele aconselhava muito os funcionários mais jovens que viajavam para o exterior pela Albarus. “Uma vez, ele disse para um deles que não fizesse amizade com as pessoas mais velhas da Dana, e sim com as mais jovens, já que aqueles iam ser seus companheiros de futuro na empresa. Coisas assim, que marcavam as pessoas, as jovens lideranças da companhia”, relata ela.

Ela afirma que toda secretária era meio “artista” também. “Lembro que sabia como o seu Regner estava de manhã pelo assobio que ouvia vindo do corredor”, diz. “Lembro também que tínhamos que perceber, quase instintivamente, como estava o relacionamento da Albarus com determinada montadora, para que a comunicação fosse feita de forma mais efetiva – às vezes, os chefes diziam algo sobre isso, às vezes, não”, explica, “era quase um exercício de atuação”.

Cristina começou a pensar em se aposentar quando soube que Zeca Bohrer, já aposentado da empresa, procurava uma secretária para trabalhar com ele meio turno. “Foi complicado tomar esta decisão, levei meses para dizer pro seu Regner isso. Só saí da Albarus quando ganhei um ultimato do Dr. Bohrer”, conta, entre risos. E, assim, em 1996, ela deixaria a empresa para trabalhar com Zeca Bohrer – com quem está até hoje. Depois que Regner deixaria a Albarus, Cristina começou a trabalhar com ele também, novamente – parceria que dura até os dias de hoje. “Posso dizer que, de todos estes anos, cultivei grandes amizades com estas pessoas, suas famílias… Sinto que construí muitas coisas boas nestes quatorze anos de empresa”, conclui.

“A Dana é uma empresa onde o funcionário é bem tratado e encontra diversas oportunidades de aprendizado e crescimento. Na minha memória, sempre ficará como um lugar onde tive grande entrosamento com meus colegas e convivência harmoniosa no dia a dia – não importava o cargo das pessoas, e sim as grandes amizades que se formavam”, diz. Hoje, além de ainda seguir trabalhando, Cristina canta no Coral do Hospital Moinhos de Vento há vinte anos, e adora música. Atuou também com voluntariado na Cruz Vermelha e, hoje, busca alguma atividade nesta área.

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“A Dana é uma empresa onde o funcionário é bem tratado e encontra diversas oportunidades de aprendizado e crescimento. Na minha memória, sempre ficará como um lugar onde tive grande entrosamento com meus colegas e convivência harmoniosa no dia a dia – não importava o cargo das pessoas, e sim as grandes amizades que se formavam.”