Benedito José

Américo Santoro

Seu nome, por muitos anos, foi sinônimo de “Albarus” e “Dana” dentro das montadoras. Pudera: são 46 anos de carreira dentro da empresa, fazendo história e construindo negócios.

Santoro começou sua longa trajetória na então Albarus em 1963 – mas já conhecia a empresa desde 1960, quando ainda trabalhava na Ford, em São Paulo. “Vim pra Albarus para desenvolver eixo cardan para caminhões com uma turma da Ford – gente de engenharia, compras, e eu era da qualidade. Eu vim pra cá e fiquei de abril até agosto. Nessa época, conheci a minha esposa, Edith, lá – ela trabalhava na Contabilidade”.

11 meses depois, se casaram e esse compromisso já dura 54 anos. Edith saiu da Albarus e foi para São Paulo para morar com Santoro, que seguia firme e forte na Ford. O pessoal da Albarus, todavia, já estava de olho no jovem Santoro e começaram a sondá-lo para trocar de emprego. Leão de Oliveira, um dos Diretores da Albarus, era um velho conhecido de Santoro – quando ele entrou na Ford, em 1958, Leão estava saindo de lá. Sempre que Santoro aparecia na Albarus, era convidado para integrar o quadro de funcionários da empresa. A oportunidade chegaria.

Em 1963 a Ford, afetada por uma crise na indústria automobilística precisou demitir 150 pessoas. “Meu chefe, o seu Müller, já sabia que eu havia recebido o convite da Albarus e, assim, me propôs a demissão. Acertei tudo com o Leão de Oliveira e entrei na Albarus sem teste nem nada”, ri ele.

Começou no Departamento de Qualidade da fábrica de São Paulo. “Eu levei comigo – e tenho comigo até hoje – aquilo que se fazia na Ford. Pra Albarus, foi bom ter essa mentalidade nova de Qualidade dentro da empresa – era um passo adiante do que eles tinham, representou uma grande melhoria”, relata. Nessa época, também, Santoro já começou a ser aproveitado na área de relacionamento com o cliente, visitando as montadoras. “Sempre tive esta aptidão com pessoas, então foi um movimento quase natural. Aos poucos, foram me tirando da Qualidade e migrando mais para esta parte”, relata.

Em 1965, um funcionário de Vendas sairia da Albarus e Leão, mais do que depressa, designou Santoro para cuidar desta função. “Nunca havia feito aquilo, e o Leão disse que me ajudaria, que faria junto comigo porque também conhecia o tema… Aprendi tanto com ele, tantas lições, que uso tudo até hoje”, conta. Santoro também ficou trabalhando na Qualidade – “nesta época, a gente somava serviço”, ri.

Santoro conta que guarda muitas boas memórias e aprendizados – e ressalta que conviver com Leão o ensinou muitas coisas: “Ele sempre me dizia para cumprimentar e conversar com todos que estivessem na sala, independentemente de não ser a pessoa com quem eu tinha reunião. Ensinou que isso me ajudaria a ver como estava o ‘clima’ no cliente. Só vivenciando com ele é que a gente aprendia este tipo de coisa”, diz. Em 1968, fez sua primeira viagem aos Estados Unidos com Johann Limbacher como companheiro de viagem. “Ele dizia: ‘Santoro, tu não te preocupa: a gente não fala inglês, mas eles também não sabem falar em português”, conta, aos risos. A missão dos dois era aperfeiçoar seus conhecimentos sobre a Qualidade do Cardan.

Depois de um tempo nesta função, a fábrica da Albarus mudou-se para Santo Amaro e, lá, Santoro encontrou uma nova função: voltaria para o Departamento de Qualidade. Era também o começo da fábrica de Eixos Diferenciais. Em 1972, Santoro viajou aos Estados Unidos, na Dana, para aprender sobre os novos produtos. Logo, estaria acumulando a função de Qualidade do Cardan com Qualidade do Eixo Diferencial, também. “Naquela época, eu ajudei a começar a avaliar a Junta Homocinética, que também estava iniciando na Albarus”, relata.

Santoro ficou três meses nos Estados Unidos e voltou cheio de gás e boas ideias para trabalhar com a Qualidade do Cardan e do Diferencial. “Era muito novo este produto pra nós, por isso foi uma época desafiadora”, relata.

Em 75, um amigo da GM convidou Santoro para trabalhar no interior de São Paulo, na Monroe, que fabricava embreagens. A fábrica ficava em Mogi Mirim e este amigo de Santoro havia saído da GM e agora estava na Monroe. A ideia de ir para o interior pareceu tentadora, e Santoro conversou com os americanos da Monroe que, claro, adoraram a ideia dele ir para lá. Faltava agora falar com a diretoria da Albarus. “Falei com o Hugo Ferreira sobre isto, e ele agendou uma reunião para as sete da manhã do dia seguinte com ele, Zeca Bohrer e Leão de Oliveira. Quando cheguei, eles já estavam todos lá”, lembra. Santoro comentou que queria ir para o interior para ter uma casa maior – já tinha três filhos e a sogra também morava com ele e a esposa. “Então, se queres ir para o interior, que tal fazer uma mudança para Porto Alegre?”, sugeriu Bohrer. Impasse resolvido: logo, a família estaria de mudança para a capital dos gaúchos.

Santoro começaria sua carreira na matriz da Albarus com o engenheiro Pedrosa, trabalhando no Departamento de Qualidade do Cardan. “Eu era o gerente assistente do gerente da qualidade”, ri ele. “Foi um começo muito bom – o Pedrosa estava se preparando para trabalhar nos Estados Unidos e ficamos um ano trabalhando juntos, antes dele viajar”, conta. Sua equipe era composta por Otávio Palmas, na Qualidade, e Francisco Costa, que ficava no Laboratório.

Outro momento marcante na carreira de Santoro foi o começo da fábrica de embreagens, capitaneada por Marcelino Perlott a partir de 1978. No começo da década de 80, Perlott foi transferido para a fábrica de Cardans e Santoro assumiria a fábrica de embreagens. Com apenas um cliente grande, a Mercedes Benz, e o mercado de reposição, o produto ainda não tinha tradição alguma dentro da empresa, era difícil de trabalhar com ele.

Depois de cuidar da fábrica de embreagens, Santoro teve uma viagem aos Estados Unidos, onde ficou um mês para se aperfeiçoar e fazer treinamentos. Quase no fim desta etapa, Paulo Regner chegou ao país e lhe falou: “Aprende tudo o que puderes aí, porque ao voltar, não irás mais para a embreagem. A empresa decidiu que a embreagem será uma linha de produção dentro da fábrica de cardans, comandada por Marcelino Perlott”, lembra. Ao voltar para o Brasil, Santoro foi designado a cuidar da Engenharia do Cardan e da Embreagem, e também do Eixo Agrícola – um desafio e tanto, conforme ele recorda.

Em 1982, um novo rumo foi decidido para ele dentro da empresa: Santoro iria para a Exportação, mais especificamente para atender os clientes que ficavam na África. Nesta época, o apartheid ainda era uma realidade naquele país, completamente dividido e segregado. Santoro atendia tanto os clientes da África e trabalhava com o Vitor, Diretor de Comércio Exterior. “Durante os meus três anos na exportação, fui oito vezes para a África do Sul e duas vezes para a Nigéria”, enumera.

Depois disso, viajou para os Estados Unidos para resolver um grande impasse na área da Qualidade e acabou retornando como “avaliador” da Qualidade dentro da Albarus. “Tudo que era enviado para outras fábricas da Dana tinha que passar pela minha mão para aprovar ou não. Tudo o que eu mandava, eles aceitavam com tranquilidade”, conta. Nessa época, ele só lidava com problemas e ficava sozinho dentro de uma sala – Santoro lembra desse como um período difícil.

Em 1986, Santoro assumiu a fábrica de Elastômeros. “Nessa época, descobri que nem tudo que é pintado de preto é borracha”, ri ele. “Tem muita tecnologia envolvida na fabricação da borracha – e a nossa era uma fábrica extremamente limpa. Eu não entendia de borracha, fui pra lá como administrador e aprendi muito. Sempre fui de ficar mais tempo na fábrica do que na mesa do escritório”, diz. Ele ficou até 1989 lá, e depois foi para Vendas dentro da Divisão de Elastômeros. Como sempre adorou estar dentro da fábrica, não ficou muito feliz com a mudança, mas abraçou-a com a mesma garra de sempre. “Eu sempre digo aos meus netos: a gente tem que gostar do que faz, e não só fazer o que gosta. Se você não gosta do que faz, vai tentar aprender para, assim, passar a gostar do trabalho. A gente não gosta daquilo que não conhece”, ensina. No começo da década de 90, teve outra incursão pela fábrica de elastômeros, desta vez completamente apaixonado pelo produto e processo.

Antes disso, porém, ele foi designado para fazer a mudança da fábrica de embreagens, que estava sendo transferida de Sorocaba para Gravataí. “Fiz isso, e depois ‘entreguei’ a fábrica para o Paulo Granja, que ficou sendo o gerente”, relata. “Daí começou aquela fase de me prepararem para sair da empresa”, diz ele. Em 1992, Santoro já havia se aposentado da Dana – mas seguiu trabalhando até 2000, quando passou a ser prestador de serviços da empresa.

De todos estes anos de trabalho, tem uma certeza: tudo valeu à pena. “Era muito amor à camiseta, me sinto parte do crescimento da empresa. Não fôssemos nós, a empresa não seria essa potência que é hoje. Cada um, fez a sua parte. Éramos uma equipe que tinha muito apego pela empresa”, conclui.

Santoro tem quatro filhos: Vanessa, Hector, Rodrigo (já falecido) e Tatiana, e 3 netos: Lucas, Felipe e Eduarda. Hoje, segue trabalhando como prestador de serviços, mas leva uma vida mais tranquila ao lado da esposa Edith, com quem é casado desde 1961. Seu maior hobby é a marcenaria.

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“Era muito amor à camiseta, me sinto parte do crescimento da empresa. Não fôssemos nós, a empresa não seria essa potência que é hoje. Cada um, fez a sua parte. Éramos uma equipe que tinha muito apego pela empresa”.

Benedito Santoro