Arnaldo

Avileis

Depois uma longa carreira de sucesso, onde conquistou reputação impecável graças ao inegável conhecimento técnico aliado ao fino trato com amabilidade e competência, esbanja saúde e vitalidade ao dedicar-se aos estudos, caminhadas e à música. Sua fórmula da juventude está em aprender algo novo todos os dias.

Após conhecer os detalhes da trajetória profissional de Arnaldo Avileis pode-se concluir que a carreira do engenheiro mecânico foi feita sob medida. Não no sentido de ser minuciosamente planejada, mas no fato de ele encarar cada fase de sua carreira com plena serenidade, sem mágoas ou arrependimentos. É um homem de chão de fábrica, que vibra ao ver sincronismo entre homens e máquinas na linha de produção e com o crescimento da empresa que praticamente viu nascer e crescer no Brasil. “Nunca quis ser o vice-presidente de nada, sou um gerente de engenharia e meu desejo sempre foi ser reconhecido nessa atividade”, diz.

Ingressou como estagiário na antiga Albarus do bairro de Santo Amaro, em São Paulo, em 1974, sob a batuta de Hugo Ferreira. “Foi meu primeiro aprendizado na profissão, eu fazia ajustes de setup, planos de operação, desenvolvia sistemas de trabalho e muito layout. O Ferreira “adorava” fazer movimentações na área de cardans e a gente vivia remodelando o espaço físico da fábrica”, recorda. Após ser efetivado no ano seguinte continuou atuando no mesmo setor e em apenas três anos foi promovido a supervisor de qualidade na área de eixo diferencial “Eu tinha acabado de casar e o novo cargo foi um salto importante na minha carreira”, observa. Apesar de gostar da nova função e saber de sua importância para o reconhecimento da marca, Arnaldo tinha o sonho de trabalhar na engenharia de processos e produtos, motivo que o levou a aceitar o convite para atuar na Engesa, uma fabricante de veículos militares blindados, em 1981.

Com o fechamento dessa empresa dez anos depois, Arnaldo retornou à Dana como gerente de qualidade, justamente no momento em que a operação de Santo Amaro era transferida para Sorocaba, no interior de São Paulo. Dois anos depois assumiu também a gerência da área de processos e produtos, ficando responsável pelos três setores por quatro anos. “Foi uma período de trabalho bem puxado, mas ao mesmo tempo muito satisfatório porque vimos a nossa participação no mercado crescer rapidamente ao ganharmos a concorrência para a produção do eixo diferencial da picape S10 da GM”, destaca.

O engenheiro lembra que a GM surfou sozinha nesse segmento por muito tempo até a entrada de outros concorrentes, como a Ford com sua Ranger, a Hilux da Toyota, e a Dodge Dakota. Foi uma década de grande crescimento para a Dana, que aos poucos incorporou a produção de eixos diferenciais de outros segmentos de mercado, com o fortalecimento da produção de vans, caminhões e ônibus no país. A marca também conquistou importante fatia no mercado ao adquirir a operação de eixos leves da Rockwell-Braseixos, em janeiro de 1996, e ganhar a primazia de fornecer o produto por cinco anos. “Foi muito legal porque no começo dos anos 2000 tinha um quadro na empresa com o nome dos nossos clientes e era quase assustador ver que a gente tinha conquistado praticamente todos os negócios importantes de eixos diferenciais do país”, orgulha-se.

Avileis também foi testemunha das transformações da indústria automobilística. “Os primeiros eixos que fizemos no Brasil eram do pequeno modelo 21 do Chevette, que muita gente nem conhece. Depois passamos trabalhar com as picapes com vocação apenas para o trabalho, como a F1000, a D10 e D20 da GM até chegar às picapes com conceito sport utility, de estilo mais luxuoso e maior exigência em relação à conforto e redução de ruídos”, conta. Para ele, acompanhar as exigências das montadoras era mais fácil, uma vez que a Dana já havia participado do desenvolvimento desses produtos nos Estados Unidos e Europa, cabendo à eles apenas adaptá-los para as condições de tráfego, climáticas e de dirigibilidade do Brasil.

A chegada das normas e certificações de qualidade, como a ISO 9000 e a ISO/TS, também trouxe importantes mudanças não só nos sistemas de produção como também no relacionamento das autopeças com as montadoras. “Antigamente a área de engenharia das montadoras era enorme porque o desenvolvimento dos componentes dos veículos partia exclusivamente dali. Com as exigências das certificações de qualidade e adequação das empresas a essas regras, os fabricantes de veículos reduziram seu corpo técnico, que era caríssimo para manter, e passaram a exigir que o desenvolvimento das peças fosse feito diretamente pelos fornecedores, o que foi uma importante quebra de paradigma na época”, relata o engenheiro. Arnaldo reforça que estar atento a essas transformações fez com que a Dana ganhasse projeção no mercado, um aprendizado que traz desde o início da carreira e transmitido por alguns mentores que o ajudaram a evoluir na profissão, como Hugo Ferreira, Zolton Fodor, Oto Eichler, Chico Costa e Vilmar Nitzke.

A aposentadoria chegou em outubro de 2018 após 44 anos de atividades na área, sendo 34 deles passados dentro da Dana. “O que eu mais admiro é o Estilo Dana de ser, ou seja, diretrizes de excelência, de ética, de comportamento honesto, de respeito a princípios e valores. E isso é algo intrínseco dessa empresa, cultural mesmo, não está registrado em nenhum manual, é uma prática que faz com a equipe estabeleça fortes laços de amizade e o ambiente de trabalho seja extremamente agradável”, comenta. Outro ponto citado pelo engenheiro é a busca incessante pelo primeiro lugar, pela inovação e pela melhoria contínua, o que faz com que os funcionários estejam sempre de empenhados em progredir. “O interessante é que a gente acaba incorporando esses valores em nossa vida pessoal, o que nos torna pessoas muito melhores, com mais consciência e respeito pelos outros”, acrescenta.

Os supostos dias de folga da aposentadoria tiveram vida curta e cronômetro acaba de ser reativado porque atua agora como consultor, dando suporte aos profissionais na solução de problemas específicos. “A área de engenharia é muito técnica, então a presença de alguém com mais experiência em um time que está sempre se renovando é importante para fazer a ponte com a trajetória da empresa e mostrar que os problemas são mais fáceis de serem resolvidos do que realmente aparentam”, ensina. Para ele, trabalhar com a geração mais jovem é um aprendizado. “Eles têm um estilo diferente, são mais imediatistas, prezam pela liberdade de escolha. Acho que isso ocorre porque a internet nos inunda com informações e isso acaba deixando a gente meio desorientado, sem saber exatamente para onde ir. Mas não falo isso em tom de crítica, é uma mudança de comportamento, talvez a gente só precise achar um ponto de equilíbrio. Por outro lado, é bom que os jovens sejam diferentes da gente, vão descobrir outras coisas, senão ficamos sempre parados na mesma história”, completa.

No momento, Arnaldo trabalha dois dias por semana em Sorocaba e diz que o convite para retornar à empresa chegou na hora certa. “Já estava cansado de ficar em casa. Agora poderei fazer a minha despedida da Dana de forma gradual.” E olha que o engenheiro não tem o menor problema em ocupar seu tempo livre. Autodidata, busca aprender algo novo todos os dias, estudando música, filosofia oriental e literatura. Também é guitarrista de uma banda de rock, chamada “Velho é a mãe”. Seu namoro com a música é antigo e o acompanha desde a adolescência quando ouviu os Beatles pela primeira vez. Começou tocando violão, depois passou para a guitarra. Foi assim, inclusive, que aprendeu a falar inglês. Com 300 músicas no repertório, a banda faz shows esporádicos, mas ensaia religiosamente toda segunda-feira. “O dia é perfeito porque não tem nada mais triste do que ficar de pijama em casa em plena segunda à noite. É a minha dose de vitamina semanal. Acordo na terça-feira renovado”, garante.

A esposa Magali acompanha de perto e compartilha do ritmo frenético da vida de Arnaldo e os filhos Camila, Aline e Rodrigo são grandes incentivadores da veia artística do pai. Para baixar a adrenalina e conseguir relaxar, o engenheiro dedica-se à leitura, caminhadas diárias e pescarias. “É o momento em que eu me desconecto do mundo”.

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“Nunca quis ser o vice-presidente de nada, sou um gerente de engenharia e meu desejo sempre foi ser reconhecido nessa atividade.”

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