Antonio Tiburcio

de Lima Neto

Com uma vitalidade de 20 anos, o ex-encarregado da Dana mantém-se ativo trabalhando, brincando com os netos e criando hortas em qualquer pedacinho de terra que encontra pelo caminho

Quinze minutos de conversa são suficientes para constatar o quanto Antonio Tiburcio de Lima Neto esbanja vitalidade. Aos 69 anos, o aposentado da área de tratamento térmico da Dana não esconde o orgulho de sua trajetória profissional e pessoal. Ao relembrar sua chegada a Jundiaí, no início de 1979, em cima de um caminhão vindo da lavoura da pequena Iguaraçu, no interior do Paraná, acompanhado pela esposa e dois filhos, Tiburcio percebe o quanto conquistou ao longo da vida. O caminho não foi fácil, mas desistir nunca fez parte de sua história.

Para dar os primeiros passos na nova cidade contou com a ajuda de alguns amigos. Foram eles que listaram as melhores empresas para trabalhar na região e entre elas estava uma das maiores metalúrgicas do país, cuja parte das operações foi adquirida pela Dana, em 2017. “Fiz a ficha e disseram que iriam me chamar na semana seguinte, mas demorou 20 dias, já estava ficando desesperado”, conta. O período de experiência como ajudante geral foi no setor de jateamento, mas logo foi transferido para o tratamento térmico, área em que ficou até a aposentadoria. “Entrei na empresa no dia 4 de abril de 1979 e fiquei até 2001. Foram 23 anos de muita alegria porque sempre tive boa vontade para trabalhar”, destaca.

Sem experiência em metalurgia, Tiburcio foi aprendendo a nova profissão na prática. Curioso, gostava de observar o trabalho dos eletricistas e mecânicos para entender o funcionamento dos fornos. Quando aparecia algum problema, nem pedia a presença dos técnicos. Ligava para eles e por telefone mesmo pegava as instruções para reparar a máquina. As atitudes proativas foram as principais responsáveis pelas diversas ascensões de sua carreira. De ajudante geral passou para o cargo de operador, depois foi promovido a líder e, por fim, ocupou o posto de encarregado.

Nas visitas que faz a Dana atualmente por conta do programa de veteranos, o que mais gosta de observar é a evolução do processo fabril. “No início era trabalho pesado. Não tinha esse negócio de pá, de tecnologia. O ambiente era quente e a gente transportava as peças no braço”, observa. A tarefa também exigia muito conhecimento técnico, principalmente porque cada item a ser tratado era preparado de uma forma diferente. A começar pela escolha correta da temperatura. “Se for “normalizar”, o forno precisa estar a 900 graus, já para “revenir” precisa ficar entre 700 e 800 graus”, ensina. Além disso, é preciso saber se vai usar água, óleo ou polímero. Qualquer erro no processo travava a máquina e, consequentemente, a produção. “Aí era uma correria danada porque muitas vezes tinha navio embarcado no porto só esperando a peça chegar para sair”, lembra.

Mesmo com tanta agitação, Tiburcio nunca descuidou da segurança e sempre lutou por melhores condições de trabalho. “Isso faz parte da história de toda empresa. Os equipamentos de proteção individual foram evoluindo ao longo do tempo e eu também consegui a instalação de vários botões de emergência pelo setor pois se houvesse um acidente poderiamos parar a máquina rapidamente”, comenta. Depois da aposentadoria, em 1998, o encarregado ainda ficou na empresa por mais três anos. Mesmo depois de sua saída, Tiburcio ainda mantém-se bem próximo da Dana: o filho João Carlos e os genros, Rodrigo e Anderson, ainda trabalham na empresa.

Casado com a Aparecida há 44 anos, a família cresceu bastante desde a chegada em Jundiaí. Os filhos Reginaldo e João Carlos, nascidos no Paraná, ganharam a companhia das irmãs Fernanda e Vanessa. Já os quatro netos, Luis Otávio, Pedro, Ana Clara e Heitor, garantem a alegria da casa.

Atualmente Tibúrcio trabalha como zelador na igreja perto da sua casa e também atua como ministro da eucaristia e ministro da palavra. “Sou muito inquieto. Desde que saí da empresa nunca parei de trabalhar. Não tenho doença, não tenho preguiça”, diz. O primeiro trabalho após a aposentadoria foi como voluntário na igreja, ajudando nas obras de revitalização. Depois trabalhou por cinco anos em um estacionamento. A convite de um candidato a vereador atuou como assessor na câmara por dois anos. E depois como segurança em uma loja de móveis por mais dois anos e passou os últimos anos novamente no estacionamento. “Tenho muita sorte. O emprego corre atrás de mim”, brinca.

O expediente na igreja é das 13h30 às 21h30, mas nem pense em fazê-lo descansar no período da manhã. Onde existe um pedacinho de terra lá está ele plantando chuchu, escarola, alface, mandioca, banana, couve, acerola. Pode ser no quintal de casa, no final da rua ou dentro da escola. “A diretora até me deu a chave pra eu cuidar da horta. Entro lá a hora que eu quiser”, assegura. Tiburcio só lamenta o fim dos campos de bocha e malha de antigamente que o ajudavam a descarregar tanta energia.

O dinamismo com que leva a vida vem de longa data. Na época em que trabalhava como fiscal na lavoura passava a parte da manhã no campo, à tarde dava aula para as crianças da fazenda e à noite alfabetização para os adultos. Contrariando a vontade dos filhos que preferem que ele viaje de avião, todo ano Tiburcio pega o carro e percorre os 800 quilômetros que separam São Paulo do Paraná. “Falam que é perigoso, mas eu vou tranquilo, numa toada só”, provoca. As reuniões semestrais com os amigos da antiga empresa e os novos da Dana é outro importante momento de relaxamento. “A gente mora na mesma cidade, mas nunca se vê. Quando estamos juntos é abraço e conversa boa pra todo lado. Espero que esse programa não termine nunca”, finaliza.

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“Entrei na empresa no dia 4 de abril de 1979 e fiquei até 2001. Foram 23 anos de muita alegria porque sempre tive boa vontade para trabalhar”

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